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Pelo direito de não ser informado

Autor: Douglas Rodrigues Barros Data da postagem: 11:30 11/10/2017 Visualizacões: 322
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Pelo direito de não ser informado / Imagem: Reprodução - Negro Belchior

Fora da zona magnética em que somos cativados pelo mágico azul facebookiano, a vista descansa refletindo na calmaria de uma segunda-feira a tarde. Vejo, na ponta do cigarro, a fumaça se perder no ar e dar voltas sobre si. Enquanto isso, a aranha silenciosa do tédio fia sua casa calmamente. Uma semana atrás, numa conversa, cheguei à seguinte conclusão: a própria política tornou-se facebookiana.

No Feed de notícias convergem os instintos sopitados de revolta e indignação. Uma cachoeira de espetáculos midiáticos numa praça virtual feita zona de guerra que colocaria Guy Debord em aflição. Cada um sabe mais que o outro. De repente, é como se todos soubessem de tudo. Sacrifica-se de golpe retórico o amigo, o vizinho e até o parente: um rasgo de falsa heroicidade.

Um general ameaça tomar o país com seu Zeppelin gigante. Tédio absoluto seguido de palmas entusiasmadas de uns tantos seguidores. Desço a barrinha. Lula não é mais Lula é agora uma ideia. Palmas e xingamentos. Reflito jocoso: confunde, no seu desejo, as sensualidades do poder. Ao primeiro encontro com o link, se vê que, afinal, a situação de crise é normal, tornou-se forma de governo. Tédio. Segue-se a rolagem da barrinha: um vídeo com um gatinho miando desperta a sensação de falsa ternura, centenas de curtidas.

Ao mesmo tempo, como os filósofos atribulados, busco consolação em outro canto da tela. Uma militante anuncia a necessidade do empoderamento coletivo, ao se empoderar um, empoderam-se todos. Entediado, chego à conclusão de que prefiro o existencialismo, pois apesar de ver na escolha de um, uma escolha que implica a humanidade, o existencialismo nunca teve ilusões com as formas de poder instituídas. Ai! Deus! Desperto meu lado anarquista – graças a Deus. Por pouco tempo.

Sinto-me amesquinhado com tanta notícia e tanta gente sabendo de tudo. Sinto-me amesquinhado sob o peso de tantas revelações sobre a humanidade, os países, os planetas, as últimas descobertas científicas, o perigo da guerra nuclear, as últimas doenças descobertas pelo hábito de tomar café, o homem nu e a criança. Outro trago. Saio do Facebook. O alivio alivia. Gozo criminosamente o sobressalto da descoberta: não preciso de tanta informação. Se tanta gente sabe de tudo e a coisa anda desse jeito, reservo-me o direito inabalável de permanecer na minha ignorância sobre o mundo virtual.

Nietzsche vivia falando algo como transvalorização de valores. Vai ver que hoje subverter valores, seja algo bem mais tranquilo do que foi na época do filósofo ermitão, talvez, consista simplesmente na prática contínua de não querer abrir o feed de notícias. Como disse uma personagem perdida em meus livros: É melhor viver cercados de grandiosas questões, que viver no meio de verdades medíocres. Realmente, é melhor as dúvidas do que as respostas de nosso Feed de Notícias.

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