Emicida: 'Que lugares as pessoas pretas ocupam no seu imaginário?'

Autor: Amauri Terto Data da postagem: 19:00 13/05/2019 Visualizacões: 118
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Emicida: 'Que lugares as pessoas pretas ocupam no seu imaginário?' / Foto: Divulgação - Reprodução - HuffPost Brasil

Rapper acaba de lançar novo single, 'Eminência Parda', com participações de Dona Onete, do rapper paulista Jé Santiago e do português Papillon.

Emicida lançou nesta quinta-feira (9) o single Eminência Parda, primeira amostra do que ele chama de “novo projeto”. A música, que apresenta perspectivas da história do negro no Brasil, também ganhou clipe provocador, com roteiro assinado pelo rapper em parceira com o diretor Leandro HBL.

Na tarde da última quarta (8), Emicida apresentou o novo single e seu vídeo em uma première para convidados e jornalistas no Museu Afro, em São Paulo. Na ocasião, ele também falou sobre as ideias por trás do novo trabalho.

A abertura de Eminência Parda traz Dona Onete, de 79 anos, entoando os versos de Canto II, de O Canto dos Escravos, álbum de domínio público que contém cantos ancestrais dos negros benguelas que viviam em Minas Gerais.

“Acredito que precisamos valorizar nossos ancestrais, mas também precisamos entregar flores para eles enquanto conseguem sentir o cheiro delas. Por isso fomos buscar Dona Onete. É uma honra fazer com que as pessoas que me escutam reverenciem alguém como ela”, diz sobre a cantora paraense.

Por trás dos versos “muriquinho piquinino /muriquinho piquinino / purugunta aonde vai, purugunta aonde vai”, ditos em meio cenário violento da período da escravidão, existe uma mensagem inspiradora. A história do Canto II, segundo Emicida, é de um menino escravizado que foge da fazenda a fim de conhecer um lugar chamado quilombo onde os negros são livres.

“O refrão é uma espécie de lamento das outras pessoas escravizadas que, infelizmente, não conseguiram fugir junto com a criança. Essa criança somos nós. Conseguimos fugir rumo à liberdade”, explica. “E essa fuga só tem sentido se a gente conseguir levar essa vitória e esse espírito de liberdade para todos os nossos irmãos que ficaram”, completa.

Eminência Parda também tem participações do rapper paulista Jé Santiago, com seus versos sobre um jovem negro que não virou estatística de morte e vem conquistando seu espaço; e do rapper português Papillon, em ascensão no outro lado do Atlântico e que, segundo Emicida, representa uma “Portugal preta” pouco conhecida e lembrada pelos brasileiros.

O título do single é também uma expressão de origem francesa usada no campo político para definir um sujeito que não é o governante oficial de um país ou reino, mas que que exerce verdadeiramente o poder local.

No palco do Museu Afro, Emicida faz um paralelo entre significado do da expressão com a jornada da população negra no Brasil.

″É o verdadeiro poder por trás do poder? Tivemos roubada de nós a ideia de que temos algum poder”, afirma. “Quando falamos a palavra pardo no Brasil, ela também é entendida do ponto de vista étnico. Gosto dessa provocação de trazer um termo problemático – para alguns, para outros nem tanto – para a mesa e ver o Brasil discutir sobre isso também”, completa.

Eminência Parda, o clipe

O clipe do novo single retrata uma família negra em uma noite de comemoração num restaurante requintado. Pai, mãe e os dois irmãos acabam, no entanto, sofrendo consequências brutais a partir dos olhares de reprovação e do julgamento racista dos clientes brancos ao redor.

“O vídeo fala sobre representação. Que lugares as pessoas pretas ocupam no seu imaginário?”, questiona o rapper, que já afirmou que o racismo é sua “luta para a vida”.

Ele prossegue: “A classe média negra é um fato. Mas há uma resistência no campo da memória que faz com que exista, de maneira significativa, o estereótipo negativo a respeito da nossa presença, principalmente em determinados espaços como nesse jantar”.

“Esse vídeo tinha um outro final antes daquela família tomar 80 tiros no Rio de Janeiro. A partir daquilo, eu também senti uma outra urgência.”

“A dor que o vídeo provoca, principalmente no final, é uma dor sobre a qual precisamos precisa falar nesse momento. Porque nosso corpo está virando paisagem. Preciso falar sobre essas coisas para que a gente consiga avançar e criar uma conexão autêntica”, completa.

Para resumir a mensagem que o clipe carrega, Emicida compartilha com o público uma conversa que teve com um amigo que perguntou quem seria o responsável pelo fim trágico da família negra retratada no vídeo.

“Quando uma família preta entra num restaurante para jantar e você acha que eles são bandido, nóia, prostituta, serviçal, você não precisa puxar o gatilho porque você é cúmplice desse assassinato”, respondeu Emicida.

Eminência Parda é o primeiro single do projeto que sucederá Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015) - disco feito a partir da imersão do do rapper na África lusófona. Para além de trazer à tona provocações sobre a questão de raça no País, a música dá início a uma nova fase do artista, na qual ele pretende discutir sobre reconexão entre as pessoas por um bem maior.

“Acredito muito que o momento atual é de reconexão. 2018 foi uma escola para todos nós. Houve muitas rupturas, poucas conciliações. A gente não consegue construir nada grandioso se a gente não refletir sobre conciliações.”

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