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'Perifa Geek': Nerds da periferia de São Paulo fazem da cultura pop uma profissão

Autor: Guibert Reino Data da postagem: 16:00 27/09/2019 Visualizacões: 430
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Margila Mendes participa de oficina de desenho / Foto: Anderson Della Cruz - TV Globo - Reprodução - G1 Globo

Jovens estudam desenho e ilustração no Capão Redondo. Casal da Zona Norte desenvolve jogos inspirados no cotidiano da comunidade.

No limite de São Paulo com Itapecerica da Serra, o bairro Valo Velho no Capão Redondo, Zona Sul da capital paulista, abriga uma escola de desenho focada em ensinar ilustração para jovens da periferia. Um dos únicos estabelecimentos da região que oferece esse serviço.

A escola é comandada por Elvis Menezes, conhecido como “Alvin”, morador do bairro que é tido por muitos dos alunos como um pai. Alvin tem deficiência auditiva e de fala e, por conta dessa situação, diz que foi “alfabetizado através do desenho”.

O professor de desenho não sabia ler e escrever na pré-escola e sempre era reprovado. “A única solução foi a escola contratar um professor que sabia desenhar e ele me enganou esse tempo todo desenhando os alfabetos na lousa”, conta Elvis.

Para de fato ter um impacto social, a escola cobra um preço mais baixo pelas aulas, a partir de R$ 99,90 por mês. Na região central da cidade, o valor mensal de um curso semelhante pode chegar a R$ 400.

A escola é comandada por Elvis Menezes / Foto: Anderson Della Cruz - TV Globo

Um dos professores, Jackson Pereira Grangeiro, o Jack, foi aluno de Elvis, acredita que a presença de um espaço nerd na periferia faz diferença. “Todos os eventos geeks grandes em São Paulo tem valores elevados. Fica longe da realidade daquele menino que quer rabiscar, fazer grafite, vão fazer no muro porque não tem quem instrua a fazer no papel”, explica.

A forma de transformar a realidade que Margila Mendes, de 17 anos, encontrou foi por meio do papel e do lápis, usados para ilustrar de forma realista a cantora pop Biilie Elish. A barreira é a falta de opção de cultura pop nos bairros mais afastados.

“A gente fica um pouco esquecido nessa área aqui. Eles não dão atenção pra gente, tudo tem que correr atrás para conseguir...” – Margila Mendes, 17 anos.

O caminho a trilhar ainda é longo, mas para o primeiro aluno da escola de desenho, Alex Bastos Gomes, que hoje estuda design gráfico, a oportunidade abriu a mente. “O Elvis é uma referência, começar algo assim, sem muito recurso, sem apoio da família, ele foi alguém que pra mim foi uma ponte para começar tudo, começar as coisas pequenas e chegar em algo grande”.

Margila Alves desenha / Foto: Anderson Della Cruz - TV Globo

A quebrada é gamer

Raquel Motta e Marcus Silva criaram o estúdio Sue The Real de desenvolvimento de jogos na sala de estar, na casa que fica na Vila Medeiros, Zona Norte de São Paulo. “A gente sempre gostou muito de jogos, mas não se sentia totalmente representado nas narrativas que são apresentadas pela indústria no geral” conta a desenvolvedora Raquel.

Em processo de criação de dois jogos, os criadores procuram colocar elementos de representatividade da periferia nos roteiros dos games.

“A gente anda na rua e olha um tênis no fio e fica pensando, poxa o que isso conta sobre a nossa comunidade? O que empinar pipa ou outra coisa fala sobre o que é, como a gente se relaciona? Tudo isso é fagulha para criar novos jogos”, Marcos Silva, desenvolvedor de jogos.

O que mais chama atenção de Raquel e Marcos é a recepção dos moradores das periferias sobre o que os jogos representam. “No século 21, você ver uma criança falando que está vendo um homem negro num jogo, sendo representado de forma diferente do que você vê há anos e anos mostrado pela mídia, é uma coisa impactante, sabe...”, explica Raquel.

Alex e Jackson participam da oficina de desenho / Foto: Anderson Della Cruz - TV Globo

Os games em desenvolvimento são:

One Beat Min

Jogo de beat box onde o jogador cria uma sequência de beatbox, com os comandos dos controles, e o outro jogador tem que reproduzir a sequência de sons a partir dos comandos. A inspiração para o game veio de uma parceria com outro desenvolvedor do estúdio PixJuice, que conhece e viveu a cultura do beatbox. O jogo é para computador e deve ser lançado ainda este ano.

Angola Janga - Picada dos sonhos

Jogo inspirado na obra Angola Janga, do quadrinista Marcelo D’Salete, que também é da periferia. A história mostra um escravo tentando fugir do sistema para chegar ao quilombo. O jogador tem que resolver quebra-cabeças para conseguir avançar as fases e traz muitos elementos da cultura histórica africana.

A expectativa dos criadores dos jogos é que esses trabalhos inspirem outros moradores da periferia a criarem suas próprias histórias e deixar a representatividade da quebrada em evidência no mundo gamer.

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