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PESSOAS BRANCAS: SERÁ QUE O SEU QUADRADO PRETO NÃO É UM ATO DE AUTOCOMISERAÇÃO?

Autor: Júlia Rosemberg Data da postagem: 12:00 05/06/2020 Visualizacões: 768
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PESSOAS BRANCAS: SERÁ QUE O SEU QUADRADO PRETO NÃO É UM ATO DE AUTOCOMISERAÇÃO?

Por Júlia Rosemberg, branca, cisgênera, bissexual, mãe da Antônia e consultora do CEERT desde 2002.

Abri meu Instagram terça-feira e dei de cara com um monte de gente branca postando um quadrado preto legendado acompanhado da hashtag blackouttuesday. Como alertou Nátaly Neri “nunca é tarde para tomar consciência e se posicionar, mesmo que nunca tenha feito isso antes”. Concordo. Nunca é tarde para nós, pessoas brancas, despertamos para o fato de que o racismo estrutural foi e é forjado por nós, pessoas brancas.

Mas a questão que quero trazer para a discussão tangencia o hiato entre a palavra e o ato: as pessoas brancas que postaram o tal quadrado preto, e que estão se autointitulado “antirracistas” estão, de fato, engajadas e comprometidas com a equidade racial no Brasil?

Me pergunto se as pessoas brancas que são donas de empresas e startups estão empreendendo esforços para empregar pelo menos 54% de pessoas negras em todos os níveis e cargos.

Me pergunto se as pessoas brancas que são gerentes de projeto e diretores/as em corporações nacionais e multinacionais estão atuando ativamente para mudar a demografia interna das empresas em que trabalham.

Me pergunto se os/as diretores/as brancos/as de agências de conteúdo, publicidade, comunicação estão pensando suas campanhas feitas para e por pessoas negras.

Me pergunto se pais brancos e mães brancas que têm crianças matriculadas em escolas elitistas cobram a implementação da lei 10.639, de 2003, que altera a LDB e obriga o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira.

Me pergunto se as pessoas brancas possibilitadas de fazerem home office estão pagando decentemente - e com carteira assinada - as trabalhadoras domésticas, incluído as faxineiras esporádicas, garantindo que nesse período elas fiquem em casa.

Me pergunto se escritores brancos e escritoras brancas, donos/as de editoras e livrarias estão lendo, comprando, publicando e fazendo curadorias que levem em conta pelo menos 54% de livros de autores/as negros/as.

Me pergunto se os/as professores/as brancos/as têm domínio sobre o léxico e letramento racial, sobre os conceitos fundamentais para o entendimento e discussão acerca das relações raciais no Brasil.

Me pergunto onde estavam essas pessoas brancas com suas hashtags de efeito antirracistas quando soubemos que 75,5% das vítimas de homicídio no Brasil são pessoas negras.

Me pergunto também onde estavam as feministas brancas quando vimos que assassinatos de mulheres negras aumentaram em 15,4%, enquanto que entre as não negras houve queda de 8%.

Me pergunto se esse posicionamento repentino não tem mais a ver com uma suposta necessidade de ação bondosa, uma necessidade de se sair bem na foto do feed, isentando-se, elas mesmas, pessoas brancas, de se enxergar como grande parte do problema: pessoas radicalizadas e produtoras do próprio sistema racista.

Me pergunto se existe um concreto e real despertar de uma consciência racial ou se é mais uma das artimanhas da branquitude em envernizar aquilo que não quer ver e enfrentar de fato: que o racismo estrutural brasileiro é produzido cotidianamente por nós, pessoas brancas.

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