COMUNICADO

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QUAL O PROBLEMA DO OSCAR SER UMA PREMIAÇÃO BRANCA?

Autor: LEOPOLDO DUARTE Data da postagem: 11:30 19/01/2016 Visualizacões: 760
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Pelo segundo ano consecutivo, para surpresa de ninguém, a Academia Cinematográfica de Hollywood fez vista grossa para as produções em que artistas negros tiveram papéis de protagonismo – em vez da preferível submissão -, e nomeou somente pessoas caucasianas para quase todas as categorias principais.

Não teve vez nem para brancoslatinos. E, para não dizerem que ignoraram totalmente as tais produções negras, coincidentemente, indicaram apenas as pessoas brancas envolvidas nelas. Até o Rocky Balboa finalmente teve sua performance honrada. O que por sua vez provocou, novamente, uma onda de críticas de pessoas indignadas com o racismo latente dessaesnobada tão pouco sutil.

Por mais que isso seja lamentável, não dá pra dizer que seja lá tão surpreendente assim. Em 88 anos de cerimônia somente 10% dos vencedores nas categorias de atuação foram pessoas negras – sempre em papéis esterotipados/subalternos. Não é como se algum passado glorioso e democrático tivesse sido corrompido. Artistas negros, como todo trabalhador negro, sempre tiveram pouquíssimas oportunidades de reconhecimento quando comparadas à pessoas brancas. Não é nenhuma novidade que pessoas negras precisamos ser extraordinariamente boas melhores para sermos admitidas como merecedoras do cargo que for. Então porque tanta insatisfação? Qual o problema da Academia manter a tradição racista que a fundou? Qual o problema dos votantes continuarem limitando competência artística a pessoas parecidas com eles mesmos? O valor que todos damos a qualquer forma de arte é tão subjetiva quanto a sociedade é racista. E, considerando que, mais de um século depois da abolição, ainda temos que gritar ao mundo que vidas negras têm valor, tá mais do que na hora da gente aceitar que estamos bem longe de diversificar esse quadro de indicações.

Por mais doloroso que seja, precisamos parar de culpar pessoas brancas por agirem como foram são ensinadas a agir. Precisamos parar de alimentar esse complexo de Sinhá Isabel em nós mesmos. Na primeira vez em que eurodescendentes ofereceram salvação aos nossos antepassados eles acabaram sequestrados, batizados em nome de Cristo, marcados a ferro, leiloados e traficados para uma vida inteira de trabalho forçado. Esperar que o mesmo grupo de pessoas que por mais de 5 séculos ignora a nossa humanidade, voluntariamente abra mão desse valor que os torna mais humanos (que nós) resume a maior crueldade nessa história toda. Assim como não podemos esperar que pessoas bilionárias parem de dar valor ao dinheiro alegando que grana demais faz tanto mal a elas mesmas quanto para a coletividade, não devemos depositar exclusivamente em pessoas brancas a solução para a nossa marginalização. Porque a realidade é que a nossa exclusão nunca representou um problema tão urgente assim pra elas.

Segundo o senso comum da branquitude, inclusão ocorre quando pessoas negras deixam de ocupar os espaços que criamos para nós mesmos, mas não quando uma pessoa negra se torna a primeira a ocupar uma vaga numa universidade pública por cotas. Quando uma professora branca e européia passa a dar aula de dança africana para uma turma igualmente branca. Quando atores brancos são selecionados para interpretarem Martin Luther King, samurais, Buda, indianos, pajés, moicanos etc. Quando a voz de um rapper/roqueiro/jazzista branco ganha o destaque na mídia que os criadores do ritmos jamais tiveram. Em outras palavras, o ideal de igualdade se realiza quando rostos brancos ocupam locais historicamente negros.

Pessoas brancas são capazes de organizar um debate sobre cotas raciais e se esquecerem de convidar debatedores negros. São capazes de ir a um festival de reggae e nem se ligarem que as únicas pessoas de dread e turbante na platéia e no palco serem brancas. São capazes de dizer que usar amigos e familiares negros como escudo quando acusados de racismo sem nunca terem parado para conversar com eles sobre como o racismo afeta suas vidas. Pois, assim como nos Oscars, a presença negra é mais digna de nota conforme a conveniência de fugir da acusação de racismo aparece. Já viu gente branca se revoltar com a ausência de negros nos seus diferenciados bailes funk, rodas de samba ou de capoeira e terreiros?

Quando mais novo achava um pouco radical os negros estadunidenses terem criado um canal de TV negro. Hoje acredito que seja uma opção bem melhor do que condenar todo artista negro ao esquecimento como fizemos como Isaura Bruno, Grande Otelo e mais recentemente com o Antônio Pompeu. Ou esperar que a boa vontade de produtores brancos tire da geladeira ou do anonimato artistas negros para interpretarem os habituais papéis de escravos, empregadas, bandidos-sem-torcida e tantos outros papéis secundários sem grande apelo ao público. Por aqui a maioria das chances ao estrelato também são privilégios de rostos brancos talentosos bonitos. Em caso de dúvida tente listar quantos ex-modelos negros ganharam uma ponta sem nunca terem pisado numa aula de atuação.

Antes que comecem a chiar, quero dizer que até acredito que nem toda pessoa branca é alheia a essas questões, porém não posse fingir que não percebo a diferença abismal entre “boa intenção” e o esforço necessário para fazer mudanças significativas nesse sentido. E é por isso que devemos abandonar esse crush pela branquitude. Faz tempo que se faz necessário que nos tornemos o exemplo que os brancos nunca tiveram no que diz respeito ao enaltecimento das artes negras – sobrevivência sendo a principal delas. Eles nunca demonstram potencial desinteressado pra isso, portanto cabe a nós expressarmos o valor que merecemos.

Até quando vamos cair na asneira de achar que espaços criados por brancos precisam defender abertamente o Apartheid para serem chamados de racistas ou concordar quando dizem que racista é ter um concurso de beleza negra? Se os Oscars, assim como a Globo e a indústria da moda não precisam se autointitular brancos é exatamente porque a branquitude é a norma. O padrão de fábrica. Esses locais foram concebidos e são mantidos por pagantes brancos e nada mais lógico que eles relutem em conceder qualquer tipo de exceção. O que não deveria ser tão óbvio é a nossa insistência em nos fazer lembrados onde nunca fomos queridos.

Não pretendo sugerir que não devamos continuar lutando para ocupar posições criadas a custo do suor e do sangue negros. Isso jamais! Até porque, se foi possível acumular riqueza na Europa e nos EUA até hoje foi, em grande parte, por causa da contínua exploração do trabalho de não-brancos globalização a fora. Portanto ocupar esses espaços, historicamente brancos, se trata de uma dívida histórica e não uma invasão ou “apropriação” como fazem parecer.

O que gostaria que acontecesse é que passássemos a nos valorizar mais ao invés de esperar um reconhecimento que talvez nunca venha. E por isso não sugiro que façamos um boicote a tudo que agregue valor a brancos, apenas que tomemos responsabilidade, individual, em prestigiar a resistência de produtores negros: comerciantes, artistas, autores, entretenimento, empregados etc. Infelizmente a vida é curta demais para que algum de nós um dia conheça o concreto significado de oportunidades “iguais”. Logo, em vez de continuarmos com a mão estendida talvez seja chegada a hora de nos darmos as mãos, dentro das nossas possibilidades.



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