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Dia Internacional da Menina: Oficina de confecção de bonecas mudou realidade de escola na Bahia

Autor: Bruna Ribeiro Data da postagem: 12:15 11/10/2021 Visualizacões: 108
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Dia Internacional da Menina/Imagem: DepositPhotos

Celebrado em 11 de outubro, o Dia Internacional da Menina incentiva debates de gênero e raça, com o recorte geracional. É também um bom momento para visibilizarmos iniciativas potencializadoras das meninas negras. É o caso do projeto Por uma Infância Escrevivente: Práticas de uma Educação Antirracista, realizado pela pesquisadora Fátima Santana Santos, no município de Lauro de Freitas Bahia (BA), com apoio do Edital Equidade Racial na Educação Básica.

O projeto tem como foco a étnopesquisação, a partir de uma atividade concreta de oficinas de confecção de bonecas pretas com crianças e famílias, em uma proposta antirracista. A atividade resultou no concurso Minha Boneca Preta, que tem como objetivo incentivar as meninas a terem brinquedos afirmativos.

Segundo Fátima, tudo começou ao observar os brinquedos disponibilizados no Centro Municipal de Educação Infantil Dr. Djalma Ramos (CMEI), onde ingressou há dez anos. Não havia sequer um boneco ou uma boneca preta. O mesmo padrão se repetia quando as crianças levavam seus próprios brinquedos, quase sempre bonecas brancas. A realidade da escola mudou após o projeto, incentivando inclusive as famílias a tirarem fotos com as bonecas pretas, depois postadas nas redes sociais da instituição.

A respeito dos resultados, Fátima reflete: “As meninas pretas crescem vinculadas a um sistema opressor. Uma infância ‘escrevivente’, como propõe o projeto, é uma forma de luta pela vida, o que nos inspira a seguirmos resistindo em uma pedagogia engajada. É possível perceber que as experiências positivas se dão em uma proposta de afroafeto, de coletividade, de irmandade e de emancipação. Estamos recriando novos mundos, onde as nossas meninas pretas dançam, cantam, brincam e sorriem.”

Em entrevista ao CEERT, Fátima refletiu também a respeito de questões de gênero e construção identitária, além da importância do feminismo negro, nos contextos geracionais em relação às meninas. Leia mais abaixo:

CEERT: Por meio do projeto, você promoveu o debate sobre gênero e construção identitária.Quais foram os principais resultados observados e os principais debates construídos?

Fátima: Desde que começamos o projeto, observamos resistência e indagações por parte de algumas famílias sobre seus filhos (meninos) tirarem fotos com bonecas. Infelizmente foi construída uma ideia de classificação sobre brinquedos de menino e de menina. Além disso, embora a nossa comunidade escolar seja preta, a experiência das crianças vinha sendo com bonecas brancas.

O processo de construção identitária das nossas crianças pretas não é simples em nosso país. Depois da família, a escola torna-se um espaço decisivo para como essas construções se solidificam. A cultura da brincadeira faz parte da infância e a boneca é um brinquedo milenar. Está presente nesse cotidiano. Na nossa cultura, antes mesmo de nascerem, as meninas já ganham bonecas.

Não foi possível para as mulheres da minha geração partilharem de vivências brincantes com bonecas que valorizassem a nossa identidade, tampouco viverem experiências a partir de brinquedos que considerassem aspectos da população preta e suas marcas identitárias.

Mas mesmo com tantos desafios, recebemos a doação de 20 bonecas pretas, as nossas Amoras, da empreendedora Georgia. E atualmente ampliamos essa possibilidade por meio do Edital Equidade Racial na Educação Básica promovido pelo CEERT. Sem o Edital, seria improvável termos uma quantidade significativa de brinquedos afirmativos para as nossas crianças.

É preciso que elas tenham experiências positivas e de representatividade no âmbito escolar desde muito cedo. Sem dúvida é muito satisfatório vermos nossos alunos brincando, imaginando, contando histórias e se deliciando com brinquedos afirmativos, sobretudo quando somos informados que as famílias adquiriram mais bonecas pretas para suas crianças, após o concurso Minha Boneca Preta. 

CEERT: Em sua opinião, qual é a relevância da data e de pensarmos na menina negra?

Fátima: Desde muito pequenas as nossas crianças pretas são ensinadas a não se amarem, fruto do racismo estrutural e estruturante que permeia em nossa sociedade. Quando pensamos em nossas meninas, os aspectos de desigualdade racial e social que elas vivenciam desde o momento em que nascem marcam profundamente suas vidas.

O dia 11 de outubro, Dia Internacional da Menina, é uma data importante e crucial, porque nos mobiliza ao debate e a nos posicionarmos sobre as questões que envolvem as nossas meninas, sobretudo as pretas e pobres. É importante tratarmos sobre a vida delas e sobre quais possibilidades iremos construir para banirmos as desigualdades raciais e de gênero, vivenciadas desde a infância.

É na poesia e no sorriso de cada menina que pensamos em aquilombamentos diários. Assim as aprendizagens geracionais se tecem, se fortalecem e contribuem não só com o debate, mas reafirmando a nossa afroexistência.

Sobre o Edital Equidade Racial na Educação Básica

Com o propósito de fortalecer coletivos de pesquisa nessa temática e mapear oportunidades estratégicas de atuação, o Edital é uma iniciativa do Itaú Social com realização do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e parceria do Instituto Unibanco, da Fundação Tide Setubal e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

 

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