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FLUP 2020: da periferia carioca para o mundo

Autor: Redação O Diario Carioca Data da postagem: 12:00 16/10/2020 Visualizacões: 49
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FLUP 2020: da periferia carioca para o mundo/Reprodução: O Diario Carioca

Programação da 9ª Festa Literária das Periferias acontecerá de forma digital com mesas no Rio e em seis cidades do globo

Tradicional por reunir poetas, escritores, pensadores e comunidade em um mesmo lugar, a Festa Literária das Periferias (FLUP) chega a sua 9ª edição repleta de novidades. Dessa vez, o Festival se reinventa, embarca no universo do streaming e rompe as barreiras geográficas propondo um diálogo importante não só para o Brasil. Esse ano, o evento acontecerá nos dias 29, 30 e 31 de outubro; e 1, 6, 7 e 8 de novembro, com mesas acontecendo no Rio de Janeiro, é claro, mas também com debates em outras seis cidades espalhadas mundo –  Paris, Edimburgo, Madrid, Lisboa, Berlim e Joanesburgo – que terão como norte de discussão os impactos na sociedade pós George Floyd.

Tendo em vista o atual cenário mundial por conta da Covid-19, toda a programação será oferecida de forma virtual, com exibições através da página da FLUP no Facebook e canal do Youtube. “Os festivais estão perdendo uma de suas principais características, que é o lugar dos encontros, das trocas, da criação da rede de relações. Por outro lado, estão ganhando um público que nenhum festival do mundo sequer sonhou em ter. Apenas para dar um exemplo do que foi o ciclo de debates “Uma revolução chamada Carolina”, o processo formativo que organizamos entre maio e agosto, não houve nenhuma live em que falamos para menos de mil pessoas. Esse público, além de numeroso, tem sido muito mais diverso e diversificado. Agora, estamos falando para pessoas de todos os estados do país e mesmo de outros países lusófonos. Com as mesas internacionais, certamente falaremos para os países de que essas pessoas vêm, como a Espanha e o mundo hispânico na mesa da Rita Bosaho e da Lucía Mbomio, a França e o mundo francófono na mesa da Assa Traoré e a África do Sul e todo mundo anglófono na mesa do Achille Mbembe.”, explica Júlio Ludemir, um dos fundadores da FLUP.

Slam Cuir

Uma das atrações mais esperadas em todas as edições da FLUP desde 2014 é o Rio Poetry Slam, primeira competição de poesia falada da América Latina. Ao longo dos anos, tanto a forma de expressão como o perfil dos competidores foi ganhando novas formas: começando pelos jovens inspirados pelo rap de Mano Brown, passando pela forte presença da mulher negra, em seguida pela voz poderosa da mulher negra homossexual e, em 2020, destacando a emergência de uma geração de artistas Cuir nessa cena.

Diferentemente dos anos anteriores, a edição traz também, além dos 16 competidores, uma banca de jurados formada por personalidades LGBTQIA+. Outro diferencial para 2020, além da competição, que acontecerá a distância, é que cada chave será aberta por performances de poetas de países como Argentina, Colômbia, República Dominicana, Chile e outros – uma prévia para o Slam das Américas, competição prevista para 2021.

Para fechar em grande estilo, a semifinal e a final serão exibidas também no Toronto International Festival of Authors (TIFA) – o maior e mais antigo festival de palavras e ideias do Canadá. O Slam Cuir tem a curadoria de Roberta Estrela D’Alva e Tom Grito – este último um homem trans, que como Letícia Brito foi uma das criadoras do Slam das Minas do Rio de Janeiro. O Slam Cuir será apresentado por Dani Nega e Marcio Januário, ambas pessoas LGBTQIA+.

Grandes vozes estrelam os debates

Tradicional pelos debates com nomes importantes no diálogo com as periferias, a FLUP 2020 inova e promove, além das já aguardadas mesas brasileiras, painéis internacionais de peso com o auxílio de parceiros como o Just Festival – o festival da justiça social e dos direitos humanos de Edimburgo – e o próprio TIFA.

Em maio desse ano, o mundo assistiu ao último suspiro de George Floyd, morto covardemente em uma ação policial em Minnesota, nos Estados Unidos. O episódio, que causou uma onda de indignação e protesto em boa parte do globo, trouxe para as ruas novas discussões, vozes e características sobre a luta pelas vidas negras e seus direitos. Simbolizando um marco na causa antirracista, o mundo pós George Floyd será o tema central dos painéis internacionais da FLUP 2020.

No dia 6 de novembro, a mesa “E se ele se chamasse George?” traz Cristina Roldão e a deputada Beatriz Gomes para uma discussão sobre o assunto. No mesmo dia, o debate “Meu corpo é meu país” tem como voz uma personalidade importante na batalha contra o racismo: Mamadou Ba. Ativista, nascido no Senegal, Ba mora hoje em Portugal e vive constantemente ameaçado em função de sua incansável luta pelos direitos dos negros. Intelectuais e ativistas negros de todo o mundo, como Angela Davis, Achille Mbembe e Felwine Sarr, têm assinado manifestos em defesa de sua integridade física.

No dia 7, Assa Traoré e Priscillia Ludosky debatem com mediação de Mame Fatou Niang. Traoré é uma ativista francesa com importante participação no movimento de luta contra a violência policial e o racismo desde a morte de seu irmão, Adama Traoré, em 2016. Sua atuação ganhou grande dimensão no mundo após a morte de George Floyd. Já Priscillia é uma das fundadoras do conhecido movimento francês “Coletes Amarelos”, nascido em 2018, da contestação ao governo do presidente Emmanuel Macron.

Um dos destaques do dia 8 é o filósofo camaronês Achille Mbembe, autor de “Crítica da Razão Negra” e “Necropolítica” – ensaio tema da mesa de discussão. Já em solo brasileiro, o Ciclo Lélia Gonzalez coloca em pauta o conceito de “amefricanidade”, suas problemáticas e desdobramentos. Para as rodadas, vozes poderosas como Djamila Ribeiro, Carla Akotirene, Juma Xipaya, Dorinha Pankará e Cacique Babau.

Homenageadas 2020

Anualmente a FLUP homenageia nomes importantes para a história e luta das periferias. A escolha de nomes como Lima Barreto, Abdias Nascimento, Maria Firmina dos Reis e Solano Trindade para edições anteriores aponta a conexão direta entre a questão racial e o diálogo com as periferias. Com uma programação cada vez mais negra, as homenageadas desse ano são Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez, autoras que estão na origem do cada vez mais potente do feminismo negro brasileiro.

Para Carolina, foi dedicado um ciclo de debates que culminará com a publicação de um livro em que cerca de 200 mulheres negras de todo o país, em diversas situações, fizeram uma releitura do clássico “Quarto de Despejo, que celebra 60 anos em 2020. Aproveitando o aniversário, a obra será lançada pela primeira vez em Portugal, em uma articulação feita pelo site FrontFiles, parceiro da FLUP nas ações em Lisboa. O livro será publicado pela VS Editor. A mesma Carolina será homenageada com uma exposição, que terá a curadoria do site Afrotometria, com 60 rostos de mulheres negras do mundo lusófono.

Já o Ciclo Lélia Gonzalez traz para o centro da discussão vozes que retratam a categoria político-cultural apresentada por ela nos anos 80: a amefricanidade. Personalidades negras, indígenas e LGBTQIA+ se reunirão para um amplo diálogo chamado “Lélia Gonzalez, uma intelectual amefricana”, que será dividido por mesas dentro da programação. Além disso, a Companhia das Letras publica, no segundo semestre, uma coletânea dos ensaios mais importantes de Lélia, que será lançada na noite de abertura da FLUP. As organizadoras da coleção, Flávia Rios e Márcia Lima, fazem a mesa de abertura.

Laboratório de narrativas negras e indígenas para o audiovisual

Parte do extenso processo de formação da FLUP 2020, o Laboratório de Narrativas Negras e Indígenas para o Audiovisual oferece uma formação para potenciais roteiristas autodeclarados negres, com encontros virtuais semanais com alguns dos mais importantes nomes do segmento, alguns deles da TV Globo.

As edições anteriores contaram com números expressivos de inscritos e participantes, tendo inclusive 21 deles contratados pela emissora e um especial de Natal veiculado em 2019. Atualmente, pelo menos cinco argumentos concebidos no Laboratório estão em processo de adaptação para filmes ou séries em produções envolvendo outros parceiros.

O Laboratório de Narrativas Negras e Indígenas para o Audiovisual tem como objetivo suprir parte dessa lacuna na produção audiovisual brasileira e incentivar a produção de obras potentes e criativas, partindo do princípio que somente essas pessoas podem reinventar seu lugar na dramaturgia brasileira.

Sobre a FLUP

Mais de 100 mil pessoas e 500 autores nacionais e internacionais já participaram das atividades da Festa Literária das Periferias desde 2012, ano da sua primeira edição. Antes de chegar à parte central do Rio, na região da “Pequena África”, que engloba bairros como Gamboa e Saúde, o festival foi realizado em comunidades cariocas como Morro dos Prazeres, Vigário Geral, Mangueira, Babilônia e Vidigal — territórios tradicionalmente excluídos dos programas literários. A iniciativa já foi reconhecida com os prêmios “Faz Diferença”, de 2012, oferecido pelo jornal O Globo, e o Excellence Awards de 2016, da London Book Fair. Assim como todas as edições anteriores, a programação deste ano é gratuita.

Festa Literária das Periferias (FLUP) 2020
Data: 29/10/2020 a 08/11/2020
Programação: acesso remoto gratuito
Para mais informações, visite o site da FLUP: http://flup.net.br/
Facebook: https://www.facebook.com/FlupRJ/
YouTube: https://www.youtube.com/user/FluppRJ

A FLUP é apresentada pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura. Patrocínio do Atacadão e Itaú, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Globo por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura – Lei do ISS. Tem o apoio da Fundação Ford e do Instituto Ibirapitanga. Realização O Instituto, Secretaria Especial de Cultura, Ministério do Turismo e Pátria Amada Brasil Governo Federal

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