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'Minha filha só fala que não quer voltar para a rua. Não sabemos o que fazer'

Autor: Sarah Fernandes Data da postagem: 14:00 18/01/2017 Visualizacões: 572
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Moradores da Ocupação Colonial procuram objetos em meio a escombros, após reintegração de posse / Foto: Jorge Ferreira - Mídia Ninja - Rede Brasil Atual

Sem assistência da prefeitura ou do Judiciário, famílias da Ocupação Colonial estão na rua desde a manhã, quando foram desalojadas, em uma operação violenta conduzida pela Polícia Miliar

Sem alternativa ou qualquer tipo de assistência, famílias que viviam na Ocupação Colonial, em São Mateus, na zona leste de São Paulo, estão espalhadas pelas ruas da cidade, sem ter para onde ir, após desocupação violenta realizada pela Polícia Militar na manhã de hoje (17). As pelo menos 700 famílias que viviam no local não foram nem sequer cadastradas em programas habitacionais da prefeitura ou do governo do estado.

Durante a reintegração, marcada por violência policial, não havia representantes do poder público. Os moradores não tiveram tempo de retirar seus pertences de casa. Com, bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha, centenas de policias do batalhão da tropa de choque dispersaram os moradores e destruíram barracos de madeira.

“Minha filha tem 8 anos e me diz a toda hora que não quer voltar para a rua. Eu só consigo dizer: ‘tenha fé Larissa. Não sei o que fazer”, diz a dona de casa que quis se identificar apenas como Pâmela e que esta em uma rua de São Mateus com a filha e o filho de seis anos desde a manhã, sem terem feito ainda nenhuma refeição. Ela viveu 17 anos na rua, onde teve os dois filhos, e há um ano e meio foi acolhida na ocupação.

Procurada, a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) afirmou que o terreno era particular e que por isso a prefeitura não tem participação no processo. “A Sehab informa ainda que disponibiliza às famílias o cadastramento para os programas habitacionais do município através do site da Cohab-SP.”

“As famílias estão todas espalhadas. Tem um pouco em cada canto, sem nenhum destino. Eu estou na calçada com meus dois filhos... Vou fazer o quê? Tudo o que tínhamos perdemos”, diz Pâmela, que vivia de doações. “Meu maior medo é que o Conselho Tutelar tire meus filhos de mim por eu estar de novo na rua. Seria como arrancar uma parte de mim”, aos prantos.

A Justiça de São Paulo decidiu pela reintegração há cinco dias. Os moradores tentaram negociar o adiamento para que as famílias ao menos fossem cadastradas em programas de habitação da prefeitura. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) também chegou a entrar com ação pedindo de suspensão da reintegração. Ainda assim, a reintegração foi executada, antes mesmo que a Justiça pudesse julgar o pedido do MP.

“As pessoas estão nas ruas, procurando pontes para passarem a noite. Elas não tiveram garantidos direitos básicos em uma reintegração de posse. Elas não foram inscritas nem em projetos de moradia”, lamenta um dos líderes da ocupação, Eduardo Roz, lembrando que não foram oferecidos banheiros químicos, nem ambulâncias, na operação. “Cansei de ver famílias da ocupação comendo arroz com ração que colocavam para cachorros. São pessoas em situação de miserabilidade.”

É a primeira reintegração de posse executada na gestão do prefeito João Doria (PSDB), que afirmou diversas vezes que não iria tolerar ocupações. Roz afirmou que protocolou uma carta no gabinete do prefeito quando a comunidade foi notificada sobre a decisão judicial, mas não obteve resposta. “O mínimo que o prefeito poderia ter feito era ter mobilizado a equipe para inscrever as famílias em programas de habitação social. A reintegração aconteceu debaixo de chuva torrencial. Não houve o mínimo respeito pelas famílias.”

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