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Por que há tanto ódio nas redes sociais? Especialistas opinam

Autor: Nadine Alves Data da postagem: 17:30 06/11/2017 Visualizacões: 3218
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Por que há tanto ódio nas redes sociais? Especialistas opinam / Ilustração: Amarildo - Gazeta Onlineu

O debate deu lugar ao combate? Veja reflexões sobre a onda de intolerância que toma conta do mundo virtual

Curtir, comentar, postar, compartilhar: quatro palavras muito frequentes nesse mundo tão conectado às redes sociais. Mas devemos admitir que está cada vez mais comum presenciarmos ofensas e ataques de ódio nos comentários do dia a dia. O debate deu lugar ao combate. Em um ambiente tão cheio de gente, como se relacionar com o outro? Como sobreviver em uma sociedade que sustenta nos perfis sociais discursos que, por vezes, reúnem sentimentos de ódio e intolerância nos mais diversos aspectos?

"As pessoas acreditam que não há punição no mundo virtual"

Psicólogo Antonio Elmo acredita que as autoridades precisam criar formas de identificar discursos extremos nas redes / Foto: Divulgação

Mestre em Psicologia, Antônio Elmo de Oliveira Martins acredita que a base de tudo está na educação (ou na falta dela). É a educação o principal fator que pode contribuir para sermos mais tolerantes na vida e consequentemente no mundo virtual. "As pessoas são ensinadas a ter liberdade e responsabilidade, os pais ensinam isso, a escola também. Uma criança, por exemplo, tem a família como primeiro ambiente de aprendizado, a escola vem em segundo, a vizinhança em terceiro. Nesses ambientes ela aprende a ter limites e responsabilidades. Se ela bater no colega, os pais do que apanhou irão reclamar. E provavelmente a criança agressora ficará de castigo", ponderou.

De acordo com ele, somos ensinados a ter limites e quando isso é interiorizado em nós, não precisamos de ninguém para nos vigiar. Ele explica ainda que o ato de agressividade acontece porque no ambiente virtual, temos a impressão de não ter ninguém para vigiar nossos atos. "As pessoas, acreditam que não haverá punição. No mundo real, elas sabem que se cometerem um ato de ódio, elas sofrerão as consequências. Já no mundo virtual isso é mais difícil, é como se fosse uma terra sem lei. Podemos até fazer uma analogia com a greve da polícia que atingiu o Espírito Santo - sem polícias nas ruas, vimos como as pessoas agiram. Vivemos de maneira correta quando estamos sendo vigiados".

“Acredito que os órgãos governamentais precisam agir, não limitando, mas identificando e combatendo esse ódio virtual”, conclui Antônio.

"Sempre houve ódio, mas as redes tornaram-se alto-falantes disso"

Gilberto Sudré comenta sobre a onda de intolerância que toma as redes sociais / Foto: Marcelo Prest

O especialista em segurança da informação Gilberto Sudré opina que desenvolver uma tecnologia que filtre os ataques proferidos nas redes sociais pode até ser possível, mas não vê na tecnologia o problema.

"Acredito que não irá resolver a questão. O erro não são as ferramentas, é a educação das pessoas. A sociedade usa as redes sociais de forma equivocada, usam como se estivessem conversando em uma sala fechada. Não compreendem o alcance de um post. Elas escrevem sem ter ideia do que isso pode virar”.

“Vejo que o caminho para coibir os exageros é educar as crianças, mostrar desde a infância o que é correto e o que é errado. Os mais velhos precisam aprender a conviver em redes sociais, entender que um post não é uma mesa de bar, com amigos."

Por fim, Sudré ressalta que a ferramenta para resolver o problema pode auxiliar, mas não resolver. "As redes sociais deram voz a tudo que sempre existiu, mas antigamente essas pessoas não tinham alto-falantes. Agora elas falam e mil pessoas enxergam o post. Tudo é amplificado," conclui.

"Quando ataco a opinião do outro, ataco a minha própria"

"Como resolver isso? É voltarmos para a velha sabedoria da civilização", opina José Antônio Martinuzzo / Foto: Marcelo Prest

Para o doutor em Comunicação e psicanalista José Antônio Martinuzzo, a sociedade costuma formar grupos, e um dos principais agregadores é o trabalho. "São ideias, crenças e valores que unem pessoas. Nesses grupos, todos se amam e odeiam o adversário. Um exemplo disso são as torcidas organizadas de futebol. Todos ali compartilham o mesmo sentimento, mas têm a torcida do outro time como oponente. As pessoas se unem, infelizmente, para odiar o outro e as redes sociais viraram lugares propícios para isso”.

“O ser humano tem uma energia de agressividade. Não somos pacíficos e o que nos torna humano é a civilização, as regras e a educação. Às vezes liberamos essa energia no lazer, nas artes, mas quando não conseguimos liberar essa energia em entretenimentos, o alvo torna-se os nossos oponentes”.

“Como resolver isso? É voltarmos para a velha sabedoria de civilização. A criação de um pacto de limites, saber que eu não posso tudo e preciso respeitar o outro, seja na vida real, seja no virtual. Quando eu ataco a opinião do outro, eu ataco a minha própria, a de não poder dialogar e aprender”.

“As ideias podem ser discutidas, mas com respeito e dentro dos limites dos Direitos Humanos. Hoje estamos nos individualizando e reagindo a tudo. As redes sociais permitem isso, e tiram-nos a capacidade de pensar," finaliza Martinuzzo.

"Entramos em um discurso de destruição do outro"

Vitor de Angelo: voto deve levar comunidade em conta / Foto: Reprodução - Facebook

Vitor de Angelo, doutor em Ciências Sociais, acredita que as redes são um ambiente favorável para discussões políticas e até mesmo para influenciar a sociedade na hora de escolher em quem votar.

"Se lembrarmos do impeachment, por exemplo, vemos a formação de um discurso misógino, um posicionamento mais radical. E isso foi fomentado pelos discursos de ódio, um tipo de paixão, e paixão não é amor, é idolatria. Quando idolatramos algo ou alguém ficamos cegos e negamos qualquer evidência negativa, seja de esquerda ou direita”.

“Entramos em um discurso de destruição do outro, e a democracia não deveria ser assim. Em uma sociedade democrática é preciso respeitar as diferenças. Os perfis sociais só expandem um desejo que todos possuem, 'a fome com a vontade de comer', ou seja, esse discurso já existe e agora ele encontra contextos mais favoráveis. Temos instrumentos que nos conecta com outras pessoas que possuem mesmo pensamentos e achamos que somos maioria”, avalia.

“Encontramos no mundo virtual um espaço para reproduzir nossos pensamentos. As redes não criaram os discursos, mas tornaram-se um meio fértil para eles, por várias razões, como a sensação de anonimato e as conexões de pessoas com outros que pensam de forma igual. Tudo isso gera em nós uma forma de empoderamento individual que não precisa passar por um filtro. O pensamento é que não temos compromisso com a verdade, temos compromisso com a paixão”.

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