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A subordinação e a violência contra corpos negros fazem parte do imaginário social brasileiro

Autor: Giselle dos Anjos Santos Data da postagem: 14:00 09/09/2019 Visualizacões: 467
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A subordinação e a violência contra corpos negros fazem parte do imaginário social brasileiro / Foto: Reprodução - Com Regras

As imagens do caso de tortura contra um adolescente negro no Supermercado Ricoy na Zona Sul de São Paulo chocaram o país na última semana, pelo teor de brutalidade e abuso. Mas ao mesmo tempo, tiveram pessoas que apoiaram a conduta dos seguranças como forma de plausível de repreensão à tentativa de furto de um chocolate.

Frente a esta discrepância, vale lembrar que o passado do Brasil está forjado pelas marcas da exclusão, já que dos nossos pouco mais de 500 anos de história, 354 foram fundamentados na experiência da escravidão, onde a violência racial foi instituída enquanto norma social. Nos 131 anos do período pós-abolição, que é muitas vezes denominado de “abolição inacabada”, a lógica de subordinação dos corpos negros vigente no contexto escravista se transformou, mas demonstra suas permanências de maneira muito explícita até os dias atuais.

Afinal, em que outra condição seria possível termos índices tão assustadores, como os que demonstram que um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos no país, o que representa 63 mortos por dia e 23.100 por ano (SENADO, 2016). Ou que apontam que aos 21 anos de idade, um jovem negro possui 147% mais chances de morrer por homicídio do que um jovem branco com a mesma idade (IPEA, 2016). Quando se trata dos jovens negros, o Brasil tem índices de assassinatos superiores a países em guerra, tal como o Afeganistão, Somália e Sudão. Além disso percebemos que a seletividade está presente tanto na definição dos alvos dos assassinatos em si, como também na comoção social frente a esses crimes. Portanto, fica explicito que somente em uma sociedade onde a subordinação e a violência contra corpos negros estão naturalizadas em seu imaginário social, é que são possíveis dados como esses.

Até porque, quantos de nós não fomos formados por meio de livros didáticos com imagens de homens e mulheres negros sendo açoitados? Essas referências são concomitantemente retroalimentadas no contexto atual por meio da mídia, especialmente, em programas de televisão com discursos de incitação ao ódio e apologia à violência policial. Esses programas, que defendem o “populismo punitivo”, estão relacionados a noções conservadoras, implicitamente e explicitamente racistas.

O caso de tortura do adolescente negro no Supermercado Ricoy, ao não ser um fato isolado, nos demonstra que a imagem do corpo negro sendo açoitado em praça pública no Pelourinho não apenas se mantém viva no nosso imaginário, como alguns desejam atualizá-la no século XIX, por meio do seu compartilhamento nas redes sociais. Uma sociedade que ainda não conseguiu encarar o seu passado fundamentado pela exploração e a violência, bem como reparar suas consequências atuais, permitindo que as desigualdades raciais acometam mais da metade de sua população, seguirá alimentando a mentalidade que naturaliza atos racistas contra corpos negros.

 

Giselle dos Anjos Santos – Pesquisadora especialista em Gênero, Raça e Interseccionalidade. Atua no Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT). Possui bacharelado em História (PUC-SP), mestrado em Estudos de Gênero e Teoria Feminista (UFBA) e atualmente cursa o doutorado em História Social (USP).

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