Festa para médicos da Unimed com cenário de favela revela a celebração da desigualdade e do racismo

Autor: Giselle dos Anjos Santos Data da postagem: 18:00 16/09/2019 Visualizacões: 1345
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Festa para médicos da Unimed com cenário de favela revela a celebração da desigualdade e do racismo / Foto: Divulgação - CEERT

A Unimed, operadora de planos de saúde, promoveu uma festa de luxo em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, que repercutiu na última semana por ter utilizado um cenário que representava uma favela. A decoração reproduzia diferentes elementos da cultura negra, em um ambiente sujo, que remetia ao “descuidado”. Além disso, tinham inúmeros trabalhadores/as negros/as servindo os 1.400 médicos associados da Unimed que participaram da festa temática, denominada de “País das Maravilhas”.

Mas, por que utilizar essas referências como forma de entretenimento? Este episódio, onde a vida na favela foi transformada em objeto exótico para um grupo de classe média alta, sendo brancos em sua maioria, evidencia a perversidade do racismo na nossa sociedade. Afinal, como já disse Helio Santos: “No Brasil a pobreza tem cor”.

As favelas representam na contemporaneidade, uma das mais explícitas consequências do nosso passado escravista e da dita “abolição inacabada”. A população negra, que corresponde à maioria no país – contabilizando segundo os dados oficiais 54% dos/as brasileiros/as – é acometida diariamente pelo racismo, que produz inúmeras desigualdades e vulnerabilidades no acesso à educação, saúde e lazer, condicionando este grupo as opções mais precárias de trabalho e moradia.

Todos os desafios vividos por quem é morador de favela, contrastam com os privilégios sociais dos que festejavam naquele cenário. Esta discrepância ilustra o abismo que diferencia as oportunidades oferecidas no exercício da branquitude ou da negritude no Brasil. Assim, quando a imagem da favela se torna instrumento de fetiche e escárnio, revela que uma parcela da nossa sociedade celebra a desigualdade e a segregação racial, que vivemos indiretamente. A partir de uma perspectiva colonialista, eles desejam que a população negra se mantenha apenas nas posições mais subalternas.

Porém, é uma pena informar para os que flertam com tais noções retrogradas, que a cada dia temos mais médicas e médicos negros formados, além de profissionais de outras áreas. Uma vez que o percentual de negros/as nas universidades triplicou nos últimos anos. Neste novo contexto, piadas e atos racistas não passam mais desapercebidas. 

Para a Unimed de São José do Rio Preto reparar o seu ato nefasto, mais do que pedir desculpas simplesmente, necessita desenvolver ações de promoção da equidade racial, fomentando essa discussão para a classe médica. As empresas no Brasil precisam decidir se investem na reprodução dos estereótipos que ratificam a desigualdade e a violência racial ou incidem na construção de novos valores sociais, baseados na justiça e na equidade. O lado que cada uma das instituições decidir ocupar revelará o seu compromisso social com o desenvolvimento do país ou com a celebração da desigualdade.     

Giselle dos Anjos Santos – Pesquisadora especialista em Gênero, Raça e Interseccionalidade. Atua no Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT). Possui bacharelado em História (PUC-SP), mestrado em Estudos de Gênero e Teoria Feminista (UFBA) e atualmente cursa o doutorado em História Social (USP). 

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