A pele branca e o mito da paz racial na América Latina

Autor: ENRIC GONZÁLEZ Data da postagem: 18:00 26/11/2019 Visualizacões: 321
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
Simpatizantes de Evo Morales em La Paz em 14 de novembro./imagem: GASTON BRITO MISEROCCH - Reprodução - El País

É um mito que na América Latina a questão racial seja menos sangrenta do que na parte anglo-saxã do continente

Em uma imagem, como em um texto, é quase tão importante o que aparece quanto o que não aparece. Um exemplo? Qualquer imagem da Argentina. Vamos olhar. E formular uma pergunta elementar: onde estão os negros? Porque a Argentina teve muitos escravos de procedência africana. De acordo com o censo de 1778, de 24.363 habitantes (os indígenas não eram contados), um terço era de negros e pardos. No Exército do Norte comandado pelo general José de San Martín, 60% da tropa era negra. Em meados do século XIX, entre 800.000 habitantes, pouco mais de 100.000 eram pardos e somente 20.000 eram negros. Posteriormente foram desaparecendo, sem que as causas sejam bem conhecidas, ainda que seja possível intuí-las: foram utilizados sistematicamente como carne de canhão na primeira linha de batalha, foram mantidos na pobreza e na insalubridade, foram empurrados ao branqueamento da pele através da mestiçagem.

Em relação às populações nativas, sofreram o extermínio na chamada Conquista do Deserto e sucessivas campanhas militares, como as do general Roca, e foram depois consumidas pela marginalização. Hoje, apenas 2% dos argentinos se consideram membros das etnias originárias.

A Argentina, dizíamos, é um simples exemplo de uma realidade continental. Sobre alguns elementos, como as denúncias de frei Bartolomé de las Casas contra a crueldade exercida sobre os nativos no começo do século XVI, e o fato de que muitos colonizadores espanhóis tiveram descendência com nativas, se construiu um peculiar mito segundo o qual na América Latina a questão racial seria menos sangrenta do que na América de colonização anglo-saxã. É, de fato, um mito.

A questão racial continua sendo um dos pontos fundamentais dos conflitos políticos, especialmente nos lugares em que são mais numerosos os membros de populações nativas e os descendentes de escravos. Jair Bolsonaro sabia que estava ganhando votos quando, após visitar uma comunidade quilombola em 2017, comentou jocoso que “o afrodescendente mais magro ali pesava sete arrobas” e que não serviam “para nada”. “Já não servem nem para procriar”, comentou, rindo.

A Bolívia é o único país latino-americano em que os povos nativos são maioria: 62% dos habitantes, de acordo com dados das Nações Unidas. Quem quiser captar a essência do conflito político e social que ameaça destruir o país deve levar muito em consideração esse fato. Seria bem engraçado escutar os argumentos do novo e espantosamente ilegítimo Governo (ilegitimidade que não justifica os desmandos cometidos por Evo Morales) sobre como são pagãos, selvagens e desprezíveis os índios com suas polleras (traje típico) e sua Pachamama, se não fosse pelo fato de que essas pessoas que assaltaram o poder com a Bíblia na mão encarnam o horror do supremacismo mais estúpido.

É difícil entender, a essas alturas, o prestígio de uma pele branca. O caso é que esse prestígio se mantém. O caso é que todas as oligarquias dessa parte do mundo (caudilhos e burocratas da revolução) veneram a pele branca e a origem europeia de antepassados tão famélicos e desesperados como qualquer imigrante. O caso é que as coisas não têm solução razoável se esse delírio da raça não for superado previamente.

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: