Chamada Pública: ReIntegrar com equidade de raça e gênero para egressos do sistema carcerário ACESSAR

SP faz 466 anos vibrante e desigual

Autor: Cida Bento Data da postagem: 11:28 23/01/2020 Visualizacões: 352
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
Vila Andrade, na zona sul, é o distrito com maior proporção de favelas (50% das casas). É lá que está Paraisópolis, uma das maiores da cidade Simon Plestenjak / Foto: UOL - Folhapress - 26.out.17 - Reprodução - Folha de S. Paulo

Nessa cidade plural, o apagamento das vivências negras sempre foi flagrante

A cidade de São Paulo aniversaria nesta semana. Considerada principal centro financeiro, corporativo e mercantil da América do Sul, é a 8ª mais populosa do planeta, com moradores de 196 países diferentes.

Possui as maiores populações de origens italiana, portuguesa, japonesa, espanhola e libanesa fora de seus respectivos países de ascendência.

São Paulo tem o maior contingente de nordestinos fora do Nordeste, segundo a Pnad, do IBGE, em sua maioria baianos, pernambucanos e cearenses.

Recebe desde 1997 a Parada do Orgulho LGBT, considerada a maior do mundo. Ou seja, é uma cidade marcada pela diversidade.

Um dos maiores centros financeiros do mundo, São Paulo deixou de ser uma cidade com forte caráter industrial para se transformar em cidade terciária, polo de serviços e negócios, sediando a Bolsa de Valores oficial do Brasil.

A diversidade, como frequentemente acontece, vem acompanhada da desigualdade: entre as regiões centrais e as periferias da cidade, é alarmante a diferença de investimentos realizados pelo poder público, os quais se concentram proporcionalmente nas regiões onde se instalou a elite econômica, em contraponto aos limitados investimentos feitos em regiões onde se encontra a população mais pobre, predominantemente nordestina e negra, nas bordas do município, áreas basicamente sem infraestrutura e equipamentos sociais.

O Jardim Ângela aparece em 2019 como o distrito mais negro, e Moema, o mais branco —e viver neles é viver em dois mundos apartados em relação ao acesso à saúde, à cultura, ao emprego formal e até mesmo em relação à média de idade ao morrer. É o que mostra o Mapa da Desigualdade da Rede Nossa São Paulo, de 2019.

No Jardim Ângela, as pessoas morrem, em média, com 58,9 anos. Já em Moema, com 80,5.

Para consultas no Programa Saúde da Família, enquanto o morador de Moema não aguarda um dia sequer, o do Jardim Ângela espera 3,43.

Os moradores do Jardim Ângela quase não têm equipamentos públicos de cultura, como centro cultural, teatro, cinema e museu.

Já o Butantã, bairro majoritariamente branco, é o campeão e dispõe de 54 equipamentos de cultura.

O mapa indica que a taxa média de emprego formal nos 15 distritos com maioria branca é quase o dobro da média dos distritos com mais pretos e pardos.

No entanto, essas situações não passam desapercebidas: a pesquisa "Viver em São Paulo: Relações Raciais" aponta que a maioria da população paulistana tem a avaliação de que o preconceito e a discriminação contra a população negra aumentaram ou se mantiveram na cidade, nos últimos dez anos.

E, para 75%, declarações, comentários ou piadas com conteúdo racista ou preconceituoso feitos por políticos estimulam o racismo ou preconceito.

Essa cidade plural, onde o apagamento das vivências negras sempre foi flagrante –basta ver as narrativas sobre o Bixiga, sede de diversos jornais e associações negras, como o Clarim D'Alvorada, ou sobre o bairro da Liberdade, que antes da imigração japonesa tinha forte tradição africana–, foi afetada por políticas governamentais embranquecedoras.

Assim, conforme a etimologia da palavra comemorar, que remete a recordar, lembrar, São Paulo pode comemorar seus 466 anos relembrando que em 1978 nasceu nas escadarias do Teatro Municipal o Movimento Negro Unificado, irradiando valores coletivos por uma cidade sem racismo justa e igualitária com diversos territórios, concretos e simbólicos, que perfazem, como definiu Caetano, o mais possível novo Quilombo de Zumbi.

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: