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A graciosidade dos nossos cabelos e a desgraça do racismo

Autor: Luciana Brito Data da postagem: 10:00 28/02/2020 Visualizacões: 192
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A graciosidade dos nossos cabelos e a desgraça do racismo/ Imagem: Reprodução - Divulgação - Nexo

É importante pensar em corpo, liberdade e direitos antes, durante e depois do carnaval

Nesses dias de carnaval, não faltarão fantasias de “nega-maluca”, perucas de cabelos black power, nádegas excessivamente grandes e falsas, reproduções jocosas do corpo de uma mulher negra. Não faltarão também cantoras, atrizes e celebridades exibindo seu “bronze-mulata”, que assim como as turistas, podem até trançar os cabelos para que nestes dias de folia rompam com a normalidade e experimentem a suposta parte divertida da negritude.

Como afirma o professor Kabengele Munanga, é difícil convencer as pessoas de que neste país existe racismo já que, ainda que ocasionalmente, o corpo negro tem esse suposto momento de celebração, ou uma aparente valorização. Lembro-me de certa feita, quando eu ainda era estudante de graduação na Universidade Federal da Bahia, quando uma colega do curso de história, uma moça branca da classe média de Salvador, disparou: “Ah, eu bem queria ser mulata. Não é bom ser símbolo sexual?”

Querer ter o cabelo, a cor, o corpo do negro (e da negra), além do tal “samba no pé” e outros atributos tidos como “naturais” às pessoas negras, é sinal que vivemos numa sociedade em que o corpo negro é algo celebrado? Podem as pessoas negras celebrarem e vivenciarem sua corporeidade de forma livre e segura? Ao longo da nossa formação, pessoas negras receberam mensagens que confirmassem a beleza e naturalidade dos seus atributos físicos, inclusive como características humanas?

Quando visitou o Brasil entre os anos de 1850 e 1851, o zoólogo alemão Hermann Burmeister tinha a intenção de se alinhar ao debate muito em voga nos Estados Unidos e na Europa sobre a superioridade dos povos brancos e a animalização dos povos africanos e indígenas. O resultado das suas observações no Rio de Janeiro foram publicados na obra "The black man: comparative anatomy and psychology of the African Negro" ("O homem negro: anatomia e psicologia comparadas do Negro Africano"), lançada nos EUA escravista, em 1853. Burmeister discorreu longamente sobre o corpo das mulheres africanas e afro-brasileiras. Reclamou que as mulheres brancas estavam o tempo todo recolhidas nas suas casas e, quando nos espaços públicos, estavam sempre cobertas. Foi observando as mulheres negras trabalhando que o cientista escreveu suas impressões sobre os braços, pernas, cabelos, tamanho dos pés e até mesmo o comportamento daquelas mulheres. Um das seus registros me chama muito atenção, porque revela uma impressão num dado momento histórico que caiu no imaginário popular e persiste até hoje, que é o mito da masculinidade do corpo da mulher negra. Assim ele escreveu: “o braço da fêmea do negro é relativamente mais longo que o da europeia, e que sua perna também ultrapassa a daquela em comprimento, isso indica um certo nível do tipo masculino”.

Para a ciência daquela época, o corpo revelava traços não somente físicos, mas da personalidade. Assim, as características supostamente masculinas do corpo das mulheres negras, observadas por Burmeinster enquanto trabalhavam descalças vendendo alimentos, ou agachadas lavando roupa com as saias dobradas até os joelhos, com braços e dorsos à mostra, permitiram ao observador criar evidências que seriam muito bem quistas aos defensores da escravidão. Tais afirmações fortaleciam a ideia de que as mulheres africanas podiam trabalhar tanto quanto os homens, e, no caso daquelas que ele chamava de mulatas, os apetites sexuais eram masculinos também.

A narrativa de Burmeister também flerta com o erotismo, uma vez que na sua obra ele descreve cenas de nudez das mulheres negras, que eram por ele observadas enquanto distraidamente tomavam banho. Esse viajante também não deixou de afirmar que em diversos momentos foi alvo da investida dessas mulheres.

Essa ideia da masculinização do corpo das mulheres negras, quando trazida para a contemporaneidade, nos lembra episódios de racismo e sexismo dos quais foram alvo a tenista Serena Williams e a ex-primeira dama dos EUA Michelle Obama. Elas frequentemente foram acusadas de terem o corpo forte demais, masculino demais, agressivo, inapropriado. Serena foi alvo de especulações de toda ordem, inclusive de ser, na verdade, um homem. Já Michelle Obama, dentre outras coisas, causou espanto quando tirou uma foto oficial na casa branca trajando um vestido que deixava seus braços à mostra: essa parte do seu corpo foi considerada musculosa demais, inapropriada para estar à mostra, afirmaram os críticos.

Resgatar essa narrativa de Burmeister, ao meu ver, é muito apropriado para pensar sobre os sentimentos suscitados pelos corpos negros. Primeiro, porque ela se alinha a uma ideia de que o corpo negro é público, é de acesso de quem quiser e é objeto de qualquer tipo de reação, seja ela de um suposto afeto e falsa valorização, de uma curiosidade aparentemente carregada de inocência, ou violência física, dada a fobia gerada por esse corpo.

No livro "The erotic life of racism" ("A vida erótica do racismo"), Sharon Patricia Holland faz uma análise muito interessante sobre aquilo que ela chama de “pertencimento familiar”, algo fundamental às práticas racistas cotidianas. Aquilo que ela considera o caráter erótico do racismo é o desejo de possuir e consumir, que se manifesta em relações de autoridade do branco e subjugação do negro. Barreiras e limites do convívio social são desrespeitados e uma intimidade forjada possibilita que o corpo negro seja acessado livremente.

Isso se manifesta, por exemplo, quando Burmeister reconhece que não pode acessar os corpos de mulheres brancas no Brasil Imperial, mas pode observar as mulheres negras tomando banho, discorrer sobre seus corpos e produzir verdades sobre eles. Esse sentimento, ou prática, não ficou congelado no século 19.

O que caracteriza uma relação de autoridade e poder nessa “intimidade” no convívio de pessoas negras e brancas, sejam elas amigas ou desconhecidas, é a falta de reciprocidade, uma vez que é impossível que as pessoas negras acessem o corpo branco com a mesma liberdade com que seu corpo é invadido. O corpo negro é objeto de curiosidade e “investigação”, sendo alvo de especulações sobre suas características e cuidados, sobretudo no que diz respeito aos hábitos de higiene. A textura dos cabelos também parece ser algo particularmente intrigante.

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A teórica Grada Kilomba, mais uma vez, nos auxilia muito nesse sentido. Uma das mulheres que entrevistou na sua pesquisa sobre racismo cotidiano relata o quão intrigante e acessível é seu corpo para pessoas brancas. Essa informante, uma mulher afro-alemã, se percebe invadida devido ao bombardeio de perguntas sobre seu cabelo, sua pele, seu corpo e suas origens. O cabelo então é fruto de muita curiosidade: a todo momento, ela deve explicar o porquê de mantê-lo de determinada forma, respondendo a opiniões alheias e preferências de outras pessoas sobre o seu próprio cabelo — ou seja, ela é um objeto público. Os códigos de convívio e privacidade que norteiam aquela cultura não se aplicam ao seu corpo.

Ainda sobre cabelos, Joice Berth, autora de “O que é empoderamento”, nos ajuda a pensar sobre a importância do cabelo para a formação das nossas subjetividades. Berth também nos ajuda a entender o sentido político da afirmação dos cabelos naturais para as pessoas negras. Uma vez que todos os traços fenotípicos e características físicas africanas foram demonizadas, ridicularizadas e negativadas, não só pela ciência, mas sobretudo pela cultura de massa, o cabelo, sobretudo para as mulheres negras, pode ter sido (ou ainda ser) um fardo sobre nossas cabeças.

Ridicularizado, o cabelo pode trazer dor, desvantagem e impedimentos no convívio social, no mercado afetivo e sobretudo no mercado de trabalho. Assim, nas sociedades ocidentais, ter o cabelo liso significou privilégios de toda sorte. Cabelos são tão importantes que Berth os coloca como algo central no seu debate sobre o significado de empoderamento.

Resgatando bell hooks, é algo extremamente político o sentimento básico de “gostar de si”, sem carregar ao longo da vida o fardo de negar as características que marcam sua ancestralidade. Por isso que o movimento negro nas Américas — obviamente Brasil e Estados Unidos inclusos — tanto insiste no cabelo como forma de questionar padrões estéticos que desumanizam pessoas negras.

Reencontrar-se pela aceitação dos cabelos pode significar um reencontro consigo mesma, uma libertação. Para refletir sobre essa experiência, recomendo o texto de Alice Walker que descreve como deixar o cabelo livre pode significar um processo de libertação do corpo e do eu. Assim, cabelo também é parte íntima do corpo, porque carrega nossos medos, mas também pode expressar nossa segurança, nosso manifesto diante do mundo. Na canção “Don’t touch my hair” ou “Não pegue no meu cabelo”, Solange Knowles trata muito bem da função do cabelo nas suas subjetividades quando ela diz, em tradução livre:

Não toque nos meus cabelos
Eles são os sentimentos que eu visto
Não toque na minha alma
Esse é o ritmo que eu conheço
Não toque na minha coroa
Ela representa a visão que eu encontrei
Não toque no que está lá
Ele representa os sentimentos que eu visto
Eu sei que o cabelo já foi algo amplamente discutido, mas é importante insistir nesse debate, pois que esse tema não está superado. Cabelos, para pessoas negras, ao mesmo tempo que carregam em si dimensões muito pessoais, podem nos tornar alvo de diversas reações alheias. No nosso racismo cotidiano, a rejeição pode ser manifesta na forma de um falso comentário inocente ou de uma reação física diretamente violenta.

Elenco aqui alguns casos chocantes, e bem recentes.

No dia 25 de janeiro, um sábado, um passeio de família terminou em violência racial contra duas meninas gêmeas de três anos de idade num metrô de Salvador. Quando se aproximava da catraca de acesso à estação com as duas filhas, a mãe presenciou a reação de um dos seguranças, que expressava profunda rejeição à aparência das crianças. Quando o mesmo avistou o cabelo “black power” das duas, num tom jocoso, entre o espanto e o riso debochado, exclamou: "misericórdia!" Em seguida, as chamou de “bucha 1 e bucha 2”.

A despeito da denúncia da mãe, mais profundo foi o efeito do comentário racista do segurança, um homem branco, enquanto dois outros — esses, homens negros — assistiram a tudo sem reação. De acordo com a mãe, as meninas “quiseram molhar o cabelo, botar creme, já quiseram prender o cabelo e botar o laço. Então, eu percebi uma mudança já, de aceitação.”

É por isso que comecei esse texto falando do jogo de intimidade, autoridade e hierarquia que marca a interação entre pessoas negras e brancas nas práticas cotidianas de racismo. Ao avistar dois corpos negros, ainda que infantis, o segurança sente-se à vontade de expressar abertamente seu racismo, ainda que diante de duas outras pessoas negras, seus colegas de trabalho. Além disso, ele interfere “sem pedir licença” no longo trabalho de valorização do corpo e características físicas das meninas, algo promovido pela mãe delas. Aliás, a mãe, que é uma pessoa chave na formação das crianças, foi ignorada por ele na abordagem, o que revela aqui também uma hierarquia de gênero. Mesmo sendo um estranho, tamanha foi a violência, que o segurança deixou uma marca difícil de ser esquecida.

O outro episódio de racismo, também gravíssimo, aconteceu dias depois, também em Salvador, envolvendo um adolescente de 16 anos. Abordado próximo da sua casa por um policial enquanto caminhava com amigos, o menino vivenciou momentos de horror, que certamente mudaram sua vida. Colocado contra a parede de forma violenta, ao mesmo tempo em que era agredido com socos e pontapés, o policial, um homem branco, lhe disse o seguinte: “Você pra mim é um ladrão. Você é vagabundo! Essa desgraça desse cabelo...”

No vídeo gravado por um morador que registrou a cena, as ofensas e agressões não pararam por aí. Dias depois, ao prestar uma entrevista, a mãe do garoto (novamente a mãe) relatou o sofrimento do jovem e o significado do cabelo para seu filho. Deixar o cabelo “black” era fruto de uma longa jornada de empoderamento através da estética, da aceitação do cabelo e das suas características físicas. A ação policial fez o jovem recuar na sua jornada: “Não vou usar mais. Vou cortar”. Ele ainda disse: “É mais que moda, é a minha identidade negra que agora está ferida”. Percebemos que o cabelo tem o significado que tratamos até aqui, de informar das nossas subjetividades e harmonização da relação entre o nosso corpo e nossa identidade.

As gêmeas e o garoto foram acolhidos e homenageados num evento chamado abraço coletivo, promovido por diversas entidades negras de Salvador, inclusive a Marcha do Empoderamento Crespo, um coletivo que visa fortalecer o empoderamento da juventude negra, sobretudo, pela valorização da sua estética.

Podemos nos perguntar, como faz sentido o debate sobre o caráter erótico dos atos de racismo e do desejo nesses episódios? Estão no prazer, quase narcisístico, de exercer autoridade sobre o corpo negro e de assistir seu sofrimento. Esses corpos com características específicas, quando acessados, extinguem todas as barreiras e limites do direito, da convivência respeitosa e da cidadania.

Nos Estados Unidos, no ano passado, o estado da Califórnia foi pioneiro em aplicar uma lei que proíbe que escolas e locais de trabalho exijam que trabalhadoras e estudantes não utilizem cabelos black power, tranças ou dreadlocks (rastafári). Naquele mesmo país, DeAndre Arnold, um adolescente da cidade de Houston, no Texas, foi proibido de participar da cerimônia de formatura da sua escola de ensino médio, a não ser que cortasse os cabelos. DeAndre, que usa dreadlocks, com o apoio da família, recusou-se a cortar o cabelo e não participou da cerimônia.

Esse episódio está longe de ser “coisa dos Estados Unidos”, uma vez que, pelo menos nas escolas públicas militarizadas do Recôncavo baiano, a exigência é a mesma: meninos e meninas que usam cabelos black power devem “adequar” seus penteados à estética militar, ou estão “livres” para deixar a escola e procurar uma outra.

DeAndre, o garoto do Texas, foi homenageado pela equipe de direção do filme “Hair love”, que ganhou o Oscar neste ano de melhor animação curta-metragem. De acordo com o diretor do filme, Matthew A. Cherry, é fundamental que o cabelo crespo seja visto pela sociedade como algo natural.

Portanto, a pessoa que se transveste de negro, ou negra, colocando uma peruca de “cabelo de negro”, não entenderá nada disso. Nesse caso, o cabelo falso está no lugar do deboche e da destruição, processo bem distinto de quem carrega essa coroa todos os dias. Para aquelas pessoas é possível arrancar a “negritude recreativa” e jogá-la fora na quarta-feira de cinzas, voltando ao exercício dos privilégios de uma vida “normal”. Enquanto isso, durante e após o carnaval, as pessoas negras voltam para a anormalidade do seu racismo cotidiano, de preferência combatendo-o, pois não temos sossego nem nos dias de folia.

Bom carnaval e viva a graça dos nossos cabelos. Eles são beleza pura.

 

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