EDITAL EQUIDADE RACIAL

ACESSAR

Cida Bento reflete sobre a branquitude e o impacto do racismo na crise do coronavírus

Autor: Bruna Ribeiro Data da postagem: 11:00 17/04/2020 Visualizacões: 3054
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
Cida Bento reflete sobre a branquitude e o impacto do racismo na crise do coronavírus

No dia 7 de abril, Cida Bento, diretora-executiva do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdes (CEERT), refletiu sobre o tema Pactos da Branquitude na Crise do Coronavírus em uma transmissão ao vivo no Instagram da organização. O diretor de projetos Daniel Teixeira mediou a conversa.

No bate-papo, Cida falou sobre branquitude, territorialidade, educação, entre outros temas. Sugeriu a importância de ressignificar a identidade dos brancos na sociedade, também formada a partir dos benefícios herdados da escravidão; e comentou como a população negra pode ser mais prejudicada pela contaminação pelo coronavírus. Confira trechos da conversa:

Daniel Teixeira: Cida, você poderia explicar um pouco da sua pesquisa sobre branquitude?

Cida Bento: O primeiro ponto é que sempre me incomodei muito com o fato das relações raciais no Brasil serem tratadas como um problema de negros. Muitos estudos reportaram a questão dos negros, os desafios e dificuldades, mas os brancos sempre ficaram invisíveis no processo.

O segundo ponto foi quando li A Integração do Negro na Sociedade de Classes, de Florestan Fernandes. Em algum momento ele fala que a escravidão deformou a personalidade do negro impedindo que ele fosse um trabalhador livre. Fiquei surpresa dele não ter falado da deformação da personalidade do branco, porque ele era uma pessoa agudamente consciente das relações raciais. 

A partir dos dois pontos iniciais, temos um grande problema na invisibilidade do branco nesse cenário. O terceiro ponto diz respeito a quando eu trabalhava com o movimento sindical. Era muito comum aparecer a situação do negro como legado da escravidão e nunca aparecia o legado da escravidão para os brancos, tema muito central nas discussões sobre relações raciais.

Daniel Teixeira: Recentemente personalidades como o ator Lázaro Ramos, a acadêmica Djamila Ribeiro e a cantora Teresa Cristina fizeram referências nas redes sociais ao conceito de Pacto Narcísico da Branquitude. O que o o conceito tem a ver com cotidiano que a gente vive hoje?

Cida Bento: Vou responder com um exemplo. Pesquisadores da França sugeriram que a África fosse um campo de teste para as questões do coronavírus. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, criticou o racismo, dizendo que os comentários não contribuem em nada para avançar e vão contra o espírito de solidariedade. Assim como ele, outros africanos ficaram indignados de como os franceses trouxeram naturalmente essa questão. Aqui no Brasil, figuras do governo federal ridicularizaram os chineses e indígenas.

Há um lugar da branquitude que é colocar todos que não são brancos em uma condição de inferioridade. Isso é um pacto. Costumo dizer que as pessoas de diferentes lugares do mundo inteiro não se encontram diariamente em determinado horário para discutir como vão discriminar. Mas apesar disso, são muito similares as formas de discriminação, trazendo o conceito de pacto, no sentido de privilegiar determinado grupo seja lá em qual situação, mantendo esse grupo como referência de beleza e eficiência e como herdeiro dos benefícios simbólicos e concretos da escravidão. 

Esse pacto não é formalizado e nem verbalizado. É um pacto de proteção mesmo. O conceito do narcisismo é tratado na literatura como um pacto de morte, justamente pela exclusão de tudo e de todos os que não são brancos nesse caso. Por isso é um pacto de morte. 

Eu tenho me lembrado muito disso quando vejo a imagem das pessoas influentes, que lideram a economia, a saúde e a política, durante a crise do coronavírus. São todos homens brancos, com mais de 50 anos, viciados em uma maneira impulsionada pelo medo de lidar com poder e dinheiro e de pensar o Brasil majoritário que não é branco.

Por outro lado, o Brasil por si só se reconhece minoria e tem trazido o tempo inteiro movimentos, como o das mulheres negras. O branco tem muito medo de ser minoria e em alguma parte dele, ele sabe que aquilo que ele tem como privilégio foi expropriado dos negros. Durante quase 400 anos de escravidão, entre pouco mais de 500 anos de Brasil, quem trabalhou no país foram os negros. Esse lugar do branco aciona o medo. Os negros são credores que incomodam. 

No princípio do debate sobre o conceito da branquitude se falava da reação dos brancos a uma voz negra que crescia. Surge exatamente como reação às lutas dos direitos civis e a uma presença negra que aparece e reivindica. 

Por isso eu trouxe essa dimensão da nossa voz e do que o negro representa. A sua agressividade, a sua sexualidade que é uma força e a inventividade de quem está fora da caixa assustam. 

Daniel Teixeira: E como todo esse contexto se apresenta na crise do coronavírus?

Cida Bento: O negro faz parte do grupo de risco por muitos fatores, pela condição econômica e financeira, por ser o grupo que precisa sair para a rua em busca dos recursos que nunca chegam e por estar em pequenas casas.

Eu mesma fui criada em uma casa, onde os oito filhos dormiam na sala. Meu pai colocou quatro beliches e eu e minha irmã, as únicas mulheres, ficávamos em uma beliche dividida por uma cortininha. Essa é a realidade de quantas famílias no Brasil? Então se sabe muito bem quem é o grupo de risco. A população negra também apresenta um elevado índice de diabetes e pressão alta. 

Por outro lado, é do nosso grupo que saem as soluções. Na imobilidade de grande verborragia de quem está apenas debatendo o problema, há um movimento de negros absolutamente incrível na sociedade civil buscando as próprias saídas, pois sabemos que estamos por conta própria. 

É interessante, porque os negros despertam muito medo por serem exatamente quem são - com esse grau de possibilidade de buscar alternativas para a sua sobrevivência e construir o mundo sob outra perspectiva. 

Daniel Teixeira: E qual é o caminho para envolver todos na busca de novas perspectivas?

Cida Bento: Ultimamente eu acho que o mais importante é ressignificar o branco para ele mesmo e para os negros. Ressignificar concreta e simbolicamente é o coração do trabalho. Trazer o branco para essa discussão tem sido um campo fundamental para mim e também evidenciar o quanto ele está apavorado em ser minoria.

O coronavírus e a crise que estamos vivendo estão propiciando que a gente explicite tal cenário. A despeito de todos os absurdos, ainda há um percentual alto da população que apoia um segmento abertamente racista, misógino e homofóbico. 

O psiquiatra e intelectual Frantz Fanon traz a ideia de que há uma figura negra assustadora no inconsciente europeu. Ele traz essa dimensão. Há um trecho da obra Peles Negras, Máscaras Brancas em que o autor traz a pesquisa que realizou com mais de 500 pacientes. Quando ele perguntava o que era ser negro, a resposta sempre vinha ligada ao biológico e ao físico, que mais se parecia com o imaginário de um boxeador ou estuprador, por exemplo - o imaginário ligado justamente ao medo. 

Jean Paul Sartre traz que o medo antissemita ou o medo do racista não é o medo do judeu ou do negro. Podia ser qualquer outro grupo. O medo dele é o medo da vida e da condição humana. Esse é o medo do racista, também quando Fanon traz a fantasia sobre o biológico, sexual, forte e agressivo.

Daniel Teixeira: Como podemos relacionar o debate com a territorialidade?

Cida Bento: Acredito que a branquitude também é definida como territorialidade. É bem interessante, porque pressuporia uma separação até física de território e de espaço. Analisando São Paulo, uma das regiões em que há maior desigualdade e violência contra o negro na cidade é muito próxima de uma das áreas mais ricas.

Penso que agora essa territorialidade tão atravessada pelo coronavírus também gera a discussão de como lidar com as regiões de favelas de São Paulo próximas a áreas ricas. Se a política não considerar isso, se achar que pode deixar a ‘negrada’ morrer na favela, haverá um grande equívoco, pois precisamos sair dos nossos territórios para circular e não estamos tão longe assim. 

Daniel Teixeira: E como a territorialidade se manifesta na educação?

Cida Bento: A questão da territorialidade está intimamente ligada à evasão escolar da criança negra e à nossa saída de lugares de onde a gente não se sente parte. Saímos das escolas, porque sentimos arduamente que não é um lugar para nós. 

Eu comecei a vida como professora primária e escolhi a faculdade de psicologia, porque havia o magistério e acredito que a educação tem um papel fundamental. Um autor africano diz que os professores não têm como mudar a discriminação e o impacto disso nas crianças brancas e negras, mas pode criar outras experiências para elas.

Eu sempre concebi a educação como um lugar onde todos os programas deveriam ser voltados para as crianças brancas e negras e não apenas para as crianças negras, porque a criança branca precisa aprender outro lugar para ela que não o de uma pretensa superioridade que ela aprende desde cedo. Eu penso o tempo inteiro: Como a escola propicia uma interação entre alunos brancos e negros de outra maneira?De uma maneira confortável, favorecendo que todos possam dar o melhor de si espiritualmente, afetivamente, emocionalmente e cognitivamente, sendo capaz de trazer as culturas. Há muito da cultura africana que favorece o crescimento de crianças brancas e negras, porque as traz em sua inteireza. 

Daniel Teixeira: Por fim, diante disso tudo, como ressignificar o branco?

Cida Bento: A mudança está dentro de um cenário onde brancos e negros convivam. Quando estou em uma instituição, estou sempre lidando com brancos e ressignificando brancos e negros. Se estivermos dentro de Universidade será assim e se estivermos em instituições de saúde e de política também. 

Ressignificar é não deixarmos escapar situação nenhuma em que possamos lembrar qual é a parte branca e qual é a parte negra daquela história, muitas vezes aguentando pressão. Mas o que tenho observado é que trabalhar nas instituições onde há racismo institucional e onde a branquitude fica mais explícita é justamente trabalhar com concepções e com a história.

Sempre que o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) está em alguma instituição é porque foi chamado. Então a primeira pergunta é: Por que nos chamaram aqui? É a alta liderança que vai dizer por que o CEERT está lá. Geralmente a resposta é o reconhecimento de que a instituição precisa ser mais diversa, pois não há negros, especialmente mulheres negras. Depois que a instituição diz isso, começamos um trabalho para ressignificar negros e brancos lá dentro. É preciso haver um primeiro passo.

Diante de tudo o que está acontecendo, como consideração final, posso dizer que oscilo entre o desespero do que será nos próximos dias para a nossa população pobre, periférica, negra e indígena e entre a esperança de saber que somos capazes de reinventar esse país, com todo o preço que já pagamos e ainda vamos pagar. Às vezes dói e às vezes é esperança.

 

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: