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Covid-19 nos cadastros de saúde

Autor: Cida Bento Data da postagem: 09:54 30/04/2020 Visualizacões: 515
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Covid-19 nos cadastros de saúde

De preto e de louco todo o mundo entende um pouco; negar desigualdades afeta luta contra vírus

“De preto e de louco todo o mundo entende um pouco.” Costumo utilizar frequentemente essa expressão em minhas palestras e textos. E me lembrei dela, no domingo (26), quando uma jornalista de um importante jornal televisivo disse que "apenas 5% dos pretos" têm morrido de Covid-19.

É uma pena que num assunto tão sério como o das relações raciais, num país onde a maioria da população é negra (53%), não pudemos contar nessa reportagem com uma especialista que abordasse adequadamente esse tema.

Como destaquei na coluna anterior, o Brasil coleta o dado cor/raça há 148 anos, e há uma extensa e qualificada literatura sobre esse tema, inclusive na área da saúde.

Importantes institutos de pesquisa, como IBGE, Ipea, Dieese e Fmerc e Fundação Seade, dentre outros, utilizam as categorias: branca, preta, parda, amarela e indígena. E o somatório das categorias preto e pardo constitui o que chamamos de população negra.

No entanto, os desafios no tratamento do dado raça/cor estão sempre presentes, como nos mostra a nova ferramenta do Ministério da Saúde com registro de casos suspeitos sobre a Covid-19 (e-SUS VE), em funcionamento desde 27 de março.

Dada a importância de alcançar com precisão o impacto da Covid-19, usando a ciência para orientar as políticas públicas, algumas informações têm preenchimento obrigatório, dentre elas sexo, idade, unidade federativa e tantas outras. Perfeito, é disso que precisamos!

No entanto, a variável “raça/cor”, nessa ferramenta, não tem preenchimento obrigatório, o que traz como consequência 97% de não preenchimento desse dado nos sistemas de notificação (e-SUS VE).

Aqui vale destacar que uma campanha virtual sobre a importância desses dados vem resolvendo o problema de não resposta em muitos cadastros públicos e privados do Brasil.

A despeito disso, analisando os dados preenchidos, os pretos apresentam risco maior de morrer igual a 62% em relação aos brancos. Os riscos são maiores também para os pardos e os indígenas.

O aumento dos óbitos por coronavírus em São Paulo chegou a ser até dez vezes maior em bairros com piores condições sociais. Na faixa etária de 40 a 44 anos, o risco de morte é dez vezes superior. Enfrentar o desafio da desigualdade nas periferias exige, sim, o reconhecimento de diferentes saberes e uma estrutura forte.

Assim é que o hospital da Brasilândia, bairro mais negro da cidade e aquele com mais mortes (81), deveria ter ficado pronto em 2017, situação em que teria 305 leitos, mas sua construção havia sido interrompida e só foi retomada recentemente.

Como esse, muitos equipamentos de saúde foram prejudicados pelo Brasil afora. O Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) aponta que, em 2019, o SUS perdeu R$ 20,2 bilhões em razão do teto de gastos, o que gerou a falta de leitos nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) inclusive nos estados do Norte e Nordeste, impedindo uma resposta mínima à pandemia.

Nesse sentido, o Inesc, em consonância com inúmeras instituições brasileiras, reivindica a revogação imediata do teto de gastos e a recomposição dos orçamentos.

Enfim, com certeza toda a população brasileira está sendo profundamente atingida pela pandemia em diferentes níveis de suas vidas e duramente afetada por esse processo.

No entanto, conhecer como as mulheres, os indígenas, os quilombolas, os negros e as negras, os moradores de periferias, os jovens, os idosos estão sendo diferencialmente atingidos ajuda a tomar decisões de toda ordem, tais como: onde ampliar o número de leitos, de profissionais de saúde, de provimento de alimentação e produtos de higienização, de ambulâncias, de diversidade de campanhas públicas, etc...

A negação das desigualdades ou a improvisação no tratamento delas só atrasa e fragiliza o enfrentamento da pandemia.?

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