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CONTRA A IGNORÂNCIA: Pesquisador e professor, Carl Hart quer que falemos mais sobre drogas para reparar danos de políticas racistas

Autor: EDUARDO CARVALHO Data da postagem: 10:20 29/09/2021 Visualizacões: 215
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Carl Hart, pesquisador, professor e psiquiatra/Reprodução: Uol

Preste atenção: as drogas, tipicamente reconhecidas como substâncias nocivas à vida, podem ter efeitos positivos se usadas com responsabilidade. Quem defende o ponto é o pesquisador Carl Hart, primeiro cientista afroamericano titular na Universidade de Columbia, onde também é professor associado dos departamentos de psicologia e psiquiatria.

Hart é membro do Conselho em Assuntos de Abuso de Drogas e pesquisador da Divisão de Abuso de Substâncias do Instituto de Psiquiatria de Nova York. E, com tudo isso, agora expõe outra característica: é usuário responsável de drogas. O debate é polêmico em nossa sociedade, e a própria "saída do armário" do pesquisador foi recebida com críticas, principalmente nos Estados Unidos.

A ideia de Hart é justamente essa: fomentar a discussão. Colocando-se como parte desse jogo, ele lança agora no Brasil ''Drogas para adultos'' (Editora Zahar), na busca por um debate real e sem cerimônia sobre como vemos o tema e o que podemos mudar no agora. Para ele, é preciso sair de uma zona infantil na qual abordamos o tema até agora e convidar todos a debater na sala de gente grande.

"As pessoas estão morrendo por ignorância, não por causa dos opioides", disse em entrevista a Ecoa. Na conversa abaixo, ele compartilha um outro lado da conversa sobre drogas, sua relação com antirracismo, saúde e igualdade.

Ecoa - Apesar de citar outras histórias, casos e estudos, o maior protagonista - contém spoiler - é você, que abertamente afirma fazer uso de crack, opioides e metanfetaminas, entre outros. Acredita que esse seja o caminho - utilizando de trajetória pessoal - para mais gente pular 'fora do armário' em relação ao tema?

Carl Hart - Eu nunca fumei cocaína. Fumar é um dos meus jeitos menos preferidos de uso. No fim do livro, pedi para que pessoas com privilégio "saíssem do armário" sobre o uso de drogas numa tentativa de apresentar um retrato mais fiel do "típico" usuário de droga e para reforçar o absurdo das leis atuais contra as drogas. Como fiz esse "pedido", era necessário que eu fizesse o mesmo. Então por isso revelei tanto sobre meu uso pessoal. É isso que chamamos de liderança.

"Espero que as pessoas leiam, para que vejam como fomos intencionalmente enganados numa tentativa de garantir que a gente não tenha conversas de adulto sobre drogas." Carl Hart, sobre o livro "Drogas Para Adultos"

Numa entrevista recente, você chegou a comentar que as drogas mais usadas no período da pandemia eram álcool e cafeína, o que nos torna, na concepção, usuários. Por que se tem uma leitura sem preconceito sobre esses produtos e o mesmo não acontece com outras drogas?

Tanto o álcool quando o café têm lobbies gigantes com muito dinheiro. O lobby garante que essas substâncias não sejam apresentadas numa visão restrita e negativa que apenas reforça seus efeitos nocivos. Não existe lobby fazendo o mesmo pela cocaína ou heroína.

O autor Michael Pollan, inclusive, escreveu recentemente no "Guardian" sobre o vício em cafeína e se não estaria na hora de largá-lo... Isso é um caminho possível? A percepção de outras substâncias como drogas muda de alguma maneira como a sociedade vê a questão?

Não. Muitas pessoas se beneficiam do uso da cafeína e gostam disso. Seria tolo, na minha visão, proibir a cafeína, assim como é tolo proibir a cocaína. O objetivo é reconhecer que todas as substâncias psicoativas que as pessoas procuram têm potenciais efeitos benéficos, assim como nocivos. Devemos focalizar nossos esforços educacionais para ensinar as pessoas a minimizar resultados prejudiciais, enquanto maximizamos os resultados benéficos.

De acordo com o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças), nos Estados Unidos, há um cálculo de que o número de mortes por overdose — essencialmente devido aos opioides — aumentou quase 25% entre julho de 2019 e julho de 2020. Por que precisamos desmistificar esse elemento causal das drogas que leva ao óbito?

É importante para quem nos lê saber que os dados divulgados pelo CDC são errôneos. Esses números podem incluir qualquer pessoa que tenha morrido prematuramente com qualquer substância em seu corpo. Um grande número dessas mortes não envolve opioides. No meu livro, mostro que reportagens na imprensa frequentemente alegam que estamos vivendo uma "epidemia" de overdose por opioides. As pessoas estão morendo por ignorância, não por causa de opioides. Para quem talvez não saiba, opioides são medicamentos contra a dor como oxicodona e heroína. Algumas pessoas também usam essas drogas para ficarem chapadas. Talvez essa seja a única razão para que os opioides tenham sido culpados pela "crise de overdoses" recente. Leve em consideração o ano de 2018, por exemplo. Mais de 45 mil americanos morreram com pelo menos uma droga opioide em seu corpo. Isso significa que uma droga opiácea provocou todas essas mortes? Eu acredito que não. Por favor, não me leve a mal. Não estou sugerindo que overdose por opioide não é um risco real. É, sim.

Mas a probabilidade de ela ocorrer está exagerada. Por exemplo, é certamente possível morrer depois de ingerir muito de uma única droga opioide, mas essas mortes representam apenas cerca de um quarto das milhares de mortes associadas a opioides. Drogas opioides batizadas (por exemplo: fentanil) e opioides combinados a outros sedativos (incluindo álcool ou a benzodiazepina) provocam a grande maioria dessas mortes. Em outras palavras, muitos dos usuários que morreram provavelmente não sabiam que a droga que tomaram estava contaminada. Outros não sabiam que misturar opioide a outro sedativo aumenta o risco de overdose.

"A conclusão é: as pessoas não estão morrendo por causa dos opioides, estão morrendo por causa da ignorância". Carl Hart, pesquisador, professor e psiquiatra 

A mim custa muito caro o debate sobre consumo de estimulantes: sou negro, jovem e morador de uma das maiores favelas do Brasil, a Rocinha. Mesmo sem usar, se está atrelado ao forte estereótipo de consumo (moradores) ou mesmo venda (tráfico). Como quebrar essa faceta da violência e do racismo?

A relação enviesada da sociedade com as drogas inspirou a chamada "guerra contra as drogas". Uma retórica política insensível e políticas e práticas draconianas se tornam a norma, resultando na desumanização dos usuários e vendedores de drogas. Só no estado do Rio, a polícia mata mais de mil pessoas por ano. As vítimas são, geralmente, pobres, jovens e pretas, frequentemente espectadores inocentes. Enquanto isso, os problemas reais — por exemplo: pobreza, educação deficiente, falta de emprego — enfrentados por essas comunidades são ignorados. Temos de ser honestos e reconhecer que as drogas não são o problema. Houve um tempo em que jogávamos de lado o estrago feito sob o pretexto de acabar com as drogas em uma comunidade. Isso permitiu o crescimento de uma polícia antidrogas racista e seletiva, que, até hoje, provoca danos incalculáveis.

Como avançar com uma política real para drogas em cenários de crescente conservadorismo, muito atrelado a religião e costumes?

Nós devemos imediatamente regular a venda e o uso de drogas, assim como fazemos com as drogas álcool e tabaco. Isso vai ajudar bastante para eliminar os vastos danos causados pelas políticas proibicionistas atuais. Começaria a fazer as pazes com práticas vergonhosas do passado dando lugar a princípios de direitos humanos que concedem a adultos o direito sobre seus próprios corpos.

Há bons exemplos pelo mundo de política real para as drogas? Como aplicá-las em países como Brasil e Estados Unidos?

O Brasil, assim como os EUA, tem uma política de drogas para seus cidadãos ricos e outra para os cidadãos pobres e desprezados. Nós deveríamos ser submetidos à política que é dirigida aos ricos.

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