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O que essa onda gourmet tem a ver com a desigualdade social?

Autor: Valter Palmieri Júnior Data da postagem: 14:00 28/09/2015 Visualizacões: 1389
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O consumo preserva a diferenciação social: quanto maior a integração da população ao universo cultural do consumo, mais intensa é a discriminação e a criação de nichos. Assim, o estilo gourmet surge da capacidade de produzir, diferenciar, praticar e ressignificar o consumo.

Basta observar as prateleiras dos supermercados ou as fotos de pratos sofisticados nas redes sociais para concluir que a intensa onda gourmet invadiu a vida de parte considerável da classe média brasileira nos últimos anos. Millôr já dizia que “o gourmet é um comilão erudito”. A moda é adquirir erudição via delivery?

Do lado dos ofertantes (indústria e comércio de alimentos) há um ganho considerável com a ampliação da diferenciação de seus produtos vendidos: diet ou fitness (light, diet, funcional, “detox”), natural (vegetariana, vegana) e calórica ou estética (gourmet, linha premium).

Mesmo quando um novo nicho nasce por meio de um movimento crítico ao modelo de alimentação industrializada (sustentável e orgânico), passa a ser produzida e consumida por uma lógica de mercado, que tem o poder de englobar as críticas, reificando-as em suas mercadorias.

Ao criar uma maionese gourmet com um toque de azeite mediterrâneo, um achocolatado orgânico ou inúmeras opções de cervejas importadas e artesanais, por exemplo, o preço adicional desses novos produtos supera o custo adicional, aumentando, dessa forma, a margem de lucro.

Além disso, o marketing propiciado pela “inovação” culinária favorece a imagem da empresa, fortalecendo sua marca e ganhando novos apreciadores.

Porém, não podemos entender essa onda gourmet apenas por uma lógica microeconômica por parte da empresa. É necessário compreender a lógica social do consumo e relacioná-la com as mudanças recentes da sociedade brasileira.

A alimentação, aspecto tão importante da esfera cultural e social, passa a ser subordinada a uma lógica do mercado, que massifica, homogeneíza e pasteuriza os produtos alimentares e ao mesmo tempo globaliza e diferencia, criando milhares de opções de pequenas variações de um mesmo e único produto.

Não é de hoje que o consumo é uma forma de demonstrar prestígio e status: Thorstein Veblen, há mais de um século, já fazia referência ao papel do consumo conspícuo na distinção social, crescente com o desenvolvimento da indústria moderna, que, ao formar maiores espaços urbanos, com meios de comunicação mais avançados e maior mobilidade populacional, expunha os indivíduos à observação de muitas pessoas: a reputação social era diretamente relacionada à prática de exibir o consumo de bens e impressionar os observadores em relação à capacidade de pagar.

Já nos anos 1950 e 1960, a massificação dos bens de consumo nos países mais desenvolvidos, juntamente com o crescimento dos centros urbanos, maior poder da publicidade, popularização da TV, grandes centros de compra etc., tornaram o consumo no capitalismo um tema ainda mais central.

O sociólogo Jean Baudrillard afirma que essas mudanças nas décadas posteriores ao segundo pós-guerra formaram uma ideologia do consumo, pois a abundância de objetos de consumo criava uma ilusão de “salvação”, tanto para felicidade, como para a igualdade social.

Porém, a massificação das mercadorias ocorria junto à ampliação da desigualdade em relação à manipulação dos significantes sociais do consumo. Isso ocorre, pois, a estrutura social de privilégios se reproduz por meio do crescimento econômico e é por isso que toda “abundância” convive com a “penúria”.

A concepção de luxo e consumo mais sofisticado se modifica com o tempo. O que é gourmet hoje pode, amanhã, se tornar algo trivial. Um dos elementos que possibilita isso é a tecnologia que, em um curto espaço de tempo, faz com que os bens de luxo se tornem mais baratos, ao massificar a produção por meio de redução de custos.

Ao mesmo tempo, ocorre uma criação de novos “produtos gourmets”, a fim de preservar a distância social, com a criação de novas formas para manter a estrutura de diferenciação, em relação ao tipo de trabalho, nível cultural, saber, poder etc.

Bourdieu esclarece que o modo de consumo é um código, um símbolo e mesmo quem adquire poder aquisitivo pode não ter condições de participar. As preferências e gostos de consumo individuais são determinados pela classe social a que pertence e pela trajetória de vida e suas peculiaridades individuais. Portanto, o consumo deve ser entendido como distinção de classe e reprodução dessa distinção.

Dessa forma, o gosto, por ser uma construção social, une e desagrega. Une os iguais, que através das redes sociais irão “compartilhar” e “curtir” o modo gourmet de preparar uma refeição ou escolher um prato em algum sofisticado restaurante. E que, ao criarem essa interação por uma simples foto de uma refeição, reafirmam sua posição social.

O que se observa no cotidiano da onda gourmet é justamente o exótico, que simboliza sofisticação. Não importa se o espaguete à bolonhesa (receita da vovó) ficou mais saboroso que o risoto Parma ao molho de papaya com aspargo ensinado pelo chef do momento: o que verdadeiramente importa é o que fica bem na foto, aquele que vai trazer maiores curtidas e comentários, que pareça ser exclusivo e poucos fariam ou teriam o privilégio de experimentar.

Nos últimos anos ocorreram consideráveis mudanças sociais, com maior acesso ao consumo, desde viagens de avião até TV tela plana. A mobilidade social propiciada principalmente pelas melhorias no mercado de trabalho e facilidade ao crédito favoreceu a maior integração da população a determinados bens de consumo.

Mas o consumo integra e discrimina ao mesmo tempo, para preservar a diferenciação social: quanto maior a integração da população ao universo cultural do consumo, mais intensa é a discriminação e a criação de nichos. O estilo de vida gourmet é, dessa forma, constituído a partir da capacidade de produzir, diferenciar, praticar e ressignificar o consumo.

A palavra gourmet se transforma em um adjetivo massificado que vai aos poucos perdendo valor simbólico para as classes sociais mais sofisticadas e acaba saindo de moda. Assim, o adjetivo pode até perder seu sentido original, mas certamente outros virão, para a continuidade da preservação da diferenciação social, que é a lógica que rege o consumo na sociedade contemporânea.



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