Gravidez trans causa polêmica no Equador

Autor: Cristina Fontenele Data da postagem: 09:34 27/10/2015 Visualizacões: 1469
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Diane revela que encontrou em seu noivo Fernando um homem trans que se sente muito seguro com sua masculinidade sem se importar com o que dirão.

"Vou ser mamãe, meu noivo, Fernando Machado, está grávido de mim!”. Com esta declaração, em sua conta no Twitter, a ativista LGBT equatoriana [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais] Diane Rodríguez comunicou ao público que ela e o companheiro irão ser pais.

O fato de Diane ser trans feminino e Fernando ser trans masculino repercute mundialmente e divide a opinião de internautas, que se revezaram entre comentários de felicitação, de crítica e de sarcasmo.

Aos 33 anos, Diane Rodríguez é uma equatoriana da cidade de Guayaquil, diretora da Associação Silueta X, organização que defende os direitos dos LGBTI. Preside também a Federação LGBTI do Equador na Assembleia Nacional, em Quito, entidade não governamental que conta com o apoio de 60 associações e coletivos LGBTI e do Ministério da Justiça. Em 2013, concorreu à Assembleia Nacional, sendo a primeira transexual a candidatar-se a um cargo eletivo no Equador.

Diane conta à Adital que, após uma separação amorosa, na qual realizou uma "união de fato”, ela sentiu necessidade de conversar com homens transfeministas para compartilhar a "má transmasculinidade” que estava se configurando no Equador. Diane decidiu escrever para vários rapazes ativistas que fossem homens trans e foi, então, que conheceu o venezuelano Fernando, de 22 anos, que, mais tarde, se tornaria seu noivo e pai do seu filho. "Ele era o tipo de homem que eu buscava para duas coisas: desconstruir o sistema patriarcal entre os transmasculinos e, claro, a própria masculinidade, e poder desenvolver algo em conjunto como uma relação ou noivado.”.

Sobre a inesperada gravidez, a ativista explica que, após vários meses de relacionamento, embora planejasse ter um filho de "forma indireta”, não imaginava que, tão rapidamente, iriam ser pais, tendo em vista que ambos se recuperavam de uma terapia hormonal. Ao receber a notícia, ela confessa que ficou em choque, "porque uma coisa é o desejo e outra coisa é a materialização do desejo.”.

Ela conta ainda que as famílias de ambos, porém, foram bastante receptivas e ficaram muito felizes. Diane pontua que, quando se faz uma transição de gênero, em geral, as mães acreditam que nunca haverá netos. "Para ambas as famílias, estamos convertendo nossas mães em avós”.

Atendimento médico

No atendimento da ecografia para determinar a gravidez, a ativista desabafa que, se pudesse, gostaria de voltar no tempo e refazer o exame. "Eu esperava que, durante a ecografia, dissessem: Felicitações!!! Vão ser pais ou algo parecido.”.

No entanto, segundo Diane, a médica da Aprofe (Associação Pro Bem Estar da Família Equatoriana), ao realizar o exame, se dedicou a dar aulas de Biologia, Anatomia e uma combinação de "moralismo religioso”. A ativista revela que a instituição pediu desculpas após o escândalo nas redes sociais, quando o casal tornou público um vídeo que mostra o diálogo entre a médica e Fernando.

No vídeo, a médica diz a Fernando: "Tem um útero e um ovário normal. Como de qualquer mulher! Você é uma mulher! Perfeitamente!”. Ao que Fernando questionou: "Não sei por que me diz isso””. A doutora então perguntou: "Quero dizer que você é uma mulher e, então, é lésbica?”. E o diálogo enveredou para uma quase discussão, na qual a médica determinava que, se Fernando não tem testículos, ele não seria homem.

Repercussão

Nas redes sociais, a repercussão sobre a gravidez de Fernando foi controversa. Mesmo com o apoio da maioria dos amigos, Diane conta que quatro pessoas LGBT no Equador utilizaram as redes para tecerem comentários "péssimos, discriminatórios, heterossexualizados, mas, sobretudo, indignantes”. No entanto, o balanço feito por ela é de que 95% foram a favor e 5% contra o fato.

O casal foi defendido por várias pessoas, inclusive, "muitíssimos” heterossexuais. Diane diz que, além da comunidade LGBT do Equador, as de outros países, como Peru, Colômbia, Venezuela e Chile, postaram fotos do casal e mensagens de solidariedade.


"A comunidade LGBT de diversos países apoiou o casal. Para Diane, essa gravidez representa a expressão dos diversos tipos de família."

Para Diane, a comunidade LGBT se sentiu muito identificada com a gravidez, principalmente "porque é uma gravidez de dois ativistas.”. Ela comenta que, por isso, o impacto é mais profundo e, devido ao objetivo social, é importante tornar o fato público, pois, dentro da diversidade LGBT existe ainda uma maior diversidade e infinitas configurações, que revelam como a sexualidade é complexa.

Especificamente para o Equador, a gravidez de Fernando representa o início da Campanha Famílias Diversas. "Será a prevalência e o reconhecimento das famílias em seus diversos tipos, reconhecida na Constituição da República do Equador, em seu artigo 67.”, reflete Diane.

A ativista avalia que, no atual governo, houve avanços significativos em matéria dos direitos e políticas públicas para os LGBT. No ano passado, a união homoafetiva foi reconhecida e, agora, lutamos pela reforma na Lei do Registro Civil, para compreender a identidade de gênero, uma mudança que beneficiará, diretamente, a população trans e intersexual.

Veja abaixo o vídeo com o diálogo da médica com Fernando durante a realização da ecografia:

https://www.youtube.com/watch?v=r-K6iFvFaCI



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