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A “decepcionante” descoberta sobre o príncipe encantado que era negro

Autor: Leopoldo Duarte Data da postagem: 21:10 28/12/2015 Visualizacões: 1403
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John Henry (Disney)

No último final de semana um dos grandes mistérios do YouTube Brasil foi explanado. A identidade (pouco secreta) do namorado – diretor, assistente, coadjuvante etc. – de uma das YouTubers que despontaram em 2015 foi revelada.

E apesar de toda a rasgação de seda feita por ela sobre os predicados do seu boy feita em um video, para decepção de muitos fãs, o príncipe encantado imaginado idealizado por eles não era… branco. Como se houvesse alguma lei ou feitiço que impedissem homens negros de serem parceiros afetivos dignos de enaltecimento. Possivelmente porque essa barreira de fato existe: a cultura.

Infelizmente para esse ex-anônimo o segredo veio à tona trazendo todo tipo de chorume racista — talvez a razão pela qual o próprio evitou botar a cara no sol desde o início. Frustrantemente, para ele também, apagou-se a aura construída por sua namorada branca em torno dele. Se até semana passada a simples menção a ele produzia desejo e inveja, hoje sabemos que a realidade de sua cor trouxe inúmeros lamentos de decepção. Afinal, como uma menina tão admirável (leia-se branca) como ela pode namorar um “negão” desses (leia-se “qualquer”)?!

É curioso perceber como apesar de, na maioria dos filmes e histórias de Princesas, o Príncipe geralmente ser um papel secundário, o fato dele ser sempre branco — ou de pele clara — faz com que o público deposite nele todo tipo de virtudes gratuitamente. Como apesar da participação e construção do personagem “Príncipe” ser frequentemente superficial, o tom de sua pele o impregna de atributos positivos raramente ilustrados durante a narrativa. Em sua maioria eles costumam ser apenas herdeiros de algum reino distante e desconhecido, dentro de algum contexto histórico-social onde as mulheres eram meros objetos a serem protegidos, mas ainda assim o público consegue projetar neles uma postura compreensiva, altruísta e até antimachista.

Impressiona que, em contos de fada, monarcas brancos sejam considerados justos não somente por seus camponeses como também pelos espectadores contemporâneos. Chega a ser cômico como até um explorador inglês, parcialmente responsável pela dizimação de boa parte dos povos indígenas da América do Norte, já foi pintado como um parceiro merecedor de uma princesa índia de uma tribo hoje inexistente. Parece que todas as crueldades históricas cometidas por homens brancos foram transmutadas pela indústria cultural do ocidente através dessas narrativas que inspiram e educam nossas crianças. Sejam elas brancas, asiáticas ou negras – americanas e africanas.

Seria ótimo se esse tipo de romantização fosse restrita ao entretenimento infantil, mas lembrando de personagens como Hannibal Lecter e Dexter Morgan podemos perceber que até o canibalismo e a psicopatia de assassinos em série são aceitáveis quandoexecutadas por homens brancos. Assim como a possessividade abusiva de Edward Cullen e Christian Grey. Como se a tela pele branca possuísse algum tipo de verniz de pureza que repelisse qualquer tipo de vício e vilania, que impedisse que as falhas de deliquentes brancos recaíssem sobre os demais. Dando a pessoas brancas o privilégio de serem consideradas o modelo padrão de inocência até provas (irrefutáveis) do contrário. No caso masculino, mais especificamente, construindo uma fachada de nobreza encantadainabalável. Enquanto que toda pessoa negra precisa comprovar o seu valor para se redimir pela má fama atribuída a sua cor.

Voltando ao namorado da vlogueira, entristece perceber como pessoas adultas e pretensamente conscientes politicamente, tendo munido-se somente dos elogios gravados em vídeo acabaram construindo, majoritariamente, uma imagem mental de um parceiro branco e esteticamente padrão. Em clara associação restrição das qualidades e virtudes a pessoas eurodescendentes.

A declarada decepção desses espectadores com a negritude do parceiro descrito como desejável em nada surpreende quem reconhece que a mesma cultura que deposita virtudes discriminadamente na branquitude, é a mesma que rotula homens negros como marginais, violentos, abusivos, incultos, braçais, descartáveis e incorrigíveis. A mesma que limita os envolvimentos com homens negros a um exotismo erótico.

Nem tampouco surpreende a inocência daqueles que esperavam que o mesmo homem misterioso que tanto se esforça – e suporta – para ser um Excelente namorado fosse loiro dos olhos azuis. Há séculos que esse tipo de fenótipo já vem embrulhado como um troféu e não precisa reforçar tanto o seu lugar no pódio das escolhas afetivo-sexuais vigente na sociedade brasileira ocidental globalizada.

O que realmente me incomoda nessa história toda é que apesar desse público seguidor projetar uma identidade pró-feminismo – igualitária? -, essas pessoas ainda preservam um conceito machista – além de racista – de par ideal. Será que a problematização desse imaginário termina depois de rompida a exigência do comportamento donzela-princesa ou podemos esperar que esse episódio sirva para a desconstrução dessa armadura branco-dourada? Quem sabe daqui a mais 127 anos…

As discussões em torno da repercussão racista da imagem do ex-par-exemplar revelou que boa parte dos fãs está mais preocupada no impacto disso tudo na reputação da mocinha-ídolo do que em como o ex-mocinho atacado está lidando com a coletiva rejeição “velada” . O zelo maior de muitos comentaristas parece estar na reafirmação de que cor não importa mesmo diante de provas inegáveis do contrário. Ou na repetição de que ele continua sendo admirável “mesmo não sendo branco”.

Talvez seja o momento de encararmos a ode ao macho branco presente nos contos de fada, nas comédias românticas, nos romances melosos e dramáticos etc. É preciso reavaliarmos como essa hipervalorização tem efeitos racistas nada fictícios perceptíveis não só na fetichização de homens de outras etnias quanto na deficiência de afetividade dirigida aos mesmos. Já está mais do que na hora dessa gente pretensamente desconstruída confrontar a realidade de que suas “preferências” afetivo-sexuais são pautadas na supremacia da branquitude. Talvez seja necessário sermos honestos e reconhecermos que não dá pra desconstruir muita coisa enquanto continuarmos privilegiando protagonistas brancos.

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