No Maranhão, literatura periférica é ferramenta de formação a professores

Autor: Redação Carta Educação Data da postagem: 13:00 11/01/2019 Visualizacões: 487
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A partir de professores leitores, projeto quer fortalecer a alfabetização de jovens e adultos / Foto: Divulgação - Reprodução

Um dos principais desafios da Educação de Jovens e Adultos (EJA) é fazer com que os estudantes que, em algum momento da vida deixaram a escola ou foram expulsos dela, superem as dificuldades educacionais e estabeleçam vínculos com as instituições, para que não voltem a compor os dados de evasão.

No município de São Luís, no Maranhão, perseguir melhores índices para os alunos passa também por qualificar os professores, ação feita em parceria da Secretaria Municipal de Educação, com a Fundação Vale e a Ação Educativa.

Desde 2015, é realizado um projeto de formação com os docentes que tem por objetivo fazer com que eles reflitam sobre suas práticas e as aproximem da realidade dos educandos – integram o projeto os professores que atuam nos anos iniciais da EJA, com a alfabetização de adultos.

O mote do projeto é inserir a Literatura como ferramenta pedagógica em sala de aula, o que implica em, antes de tudo, fazer dos professores leitores em potencial. O trabalho começa por escolher as obras e os autores que integram a iniciativa.

“Escolhemos a literatura periférica, voltadas às questões de raça e gênero, para uma maior integração com a vida dos professores e estudantes”, conta Andreia Prestes, especialista em educação da Fundação Vale.

Estão, entre os escolhidos, a autora Conceição Evaristo e sua obra “Insubmissas Lágrimas de Mulheres; Elizandra Souza e o seu livro “Águas da Cabaça”; Jarid Arraes, com o livro “Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis” e Geovani Martins, com a obra “Sol na Cabeça” e Milena Carvalho, o livro, Quem é essa mulher.

Elizandra, escritora nascida em São Paulo, no Grajaú, região sul da cidade, foi uma das que participou do processo de formação com os professores. “Lembro que diante o grupo de professores, composto em maioria por mulheres negras, perguntei: se elas fossem um livro, qual seriam? Fiquei surpresa com o silêncio inicial e com uma única menção ao “Pequeno Príncipe”, o que fez com que a maioria aderisse à mesma obra”, relembra.

Ela conta que, naquele momento, ficou claro que as professoras não tinham o hábito da leitura, um livro de cabeceira com o qual se identificassem. É daí que ela vê a importância da aproximação com narrativas que estabeleçam uma representatividade.

“Estamos acostumados com os clássicos que nem sempre narram histórias de proximidade com a nossa realidade”, observa. “O desafio era promover o encantamento e foi o que tentei como escritora negra, periférica, mas leitora, antes de tudo”, observa.

O livro da autora, “Águas da Cabaça” reúne poesias autorais e citações de escritoras negras, como Conceição Evaristo, J. Nozipo Maraire do Zimbábue e Paulina Chiziane, de Moçambique. “Todas que foram importantes para minha formação como leitora e escritora”, afirma Elizandra. Os capítulos do livro são nomeados a partir de citações dessas mulheres, e também dão o tom às poesias da autora, que vão de denúncias de racismo, violência doméstica, a textos que narram relações amorosas.

Além de um bate-papo com os autores, os professores participantes recebem os livros e uma publicação com orientações pedagógicas de como desdobrá-los em sala de aula. Os professores também receberão um vídeo com as memórias do projeto, um livro com textos inéditos dos autores participantes e uma publicação que reunirá as próprias narrativas que construíram ao longo do processo.

“O esforço é de fazer com que os professores entendam que a história de vida deles e dos alunos importa. Isso é uma estratégia poderosa para criar interesse com a escola e com os estudos”, atesta Elizandra.

Em 2018, a formação se concentrou no município de São Luís (MA) e formou 250 professores, mas já foi realizada em Açailândia, Itabira (MG) e Canaã dos Carajás (PA).

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