UNEAFRO 10 anos e a luta negra pelo direito à educação

Autor: Douglas Belchior Data da postagem: 15:10 07/03/2019 Visualizacões: 562
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Aula em Núcleo da Uneafro-Brasil na Zona Leste de São Paulo / Foto: Reprodução - Negro Belchior

"Que noite mais funda calunga
No porão de um navio negreiro
Que viagem mais longa candonga
Ouvindo o batuque das ondas
Compasso de um coração de pássaro
No fundo do cativeiro"

- Vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas (Yáyá Massemba)

Era tarde de quinta-feira, 5 de Março de 2009. Um grupo de cerca de 100 jovens, mulheres e negros, estudantes e ativistas, ocuparam, num ato político e simbólico, a Faculdade de Medicina da USP, uma das mais elitizadas de uma das Universidades Públicas mais desiguais do mundo. Em marcha, os manifestantes fecharam as pistas da Av. Dr. Arnaldo e caminharam para a Av. Paulista, onde no Masp, encerram o feito histórico: a fundação da União de Núcleos de Educação Popular para Negr@s e Classe Trabalhadora, a Uneafro Brasil.

A Uneafro se construiu nestes 10 anos como um movimento que concilia ação comunitária de educação popular e luta política institucional. São 10 anos de luta coletiva a partir de onde se escreveram histórias de superação na vida de milhares jovens, negras, negros e periféricos.

Enquanto organização do movimento negro, este grupo escolheu enfrentar o racismo, a violência do estado e da polícia, o genocídio negro, o machismo, a lgbtfobia e as desigualdades sociais e econômicas através da ação direta na vida das pessoas, no dia a dia das comunidades marcadas pelos conflitos e pela violência, através de um trabalho permanente e comunitário de prática da educação popular.

A principal missão da Uneafro é tirar o corpo negro e pobre da linha do tiro, do contingente encarcerado pelo estado, da fila do hospital e dos números das estatísticas da violência. Para isso, desenvolve ações que busca oferecer oportunidades de estudo e trabalho, sempre acompanhada por uma permanente formação cidadã, justamente para que esses jovens alcancem a compreensão dos motivos que geram tanta violência, desigualdade e injustiça.

A partir deste exercício, o passo seguinte é a do estímulo ao enfrentamento dos desafios, a superação das dificuldades através da organização política, do estudo, do trabalho coletivo, sempre em busca de melhorias concretas para a vida de cada um dos que passam pela Uneafro, bem como das comunidades onde os trabalhos se desenvolvem.

Aula Núcleo XI de Agosto – Uneafro Poá-Itaim Paulista – 2018 / Foto: Thiago Fernandes

Sonhamos, lutamos e conquistamos resultados. Mas os desafios são maiores!

Em 10 anos de trabalho, centenas de professores voluntários, pilar fundamental do projeto, se engajaram. Mais de 15 mil estudantes foram atendidos. Centenas de jovens negras, negros e pobres chegaram em Universidades, conseguiram melhores empregos, aumentaram suas rendas e mudaram a trajetória histórica de suas famílias. Um número incontável de comunidades e bairros periféricos foram impactados.

A ação política, tão permanente quanto o trabalho de base, se deu com radicalidade na luta contra o racismo, o machismo e homofobia e as desigualdades socais, por reparação histórica e humanitária para o povo negro e indígena, por políticas públicas para o povo negro e periférico, por cotas raciais em universidades, concursos públicos e por políticas públicas transversais a todas as áreas da sociabilidade, pelo fim da polícia militar, da violência do estado e do genocídio negro.

Temos consciência da contribuição histórica desta movimentação, para alcançarmos o estágio em que vivemos hoje, tanto do ponto de vista das conquistas de oportunidades, do acesso a negros em lugares sociais nunca antes navegado, do resgate da autoestima negra, do empoderamento preto e da proliferação do ativismo negro que vivenciamos hoje, quanto do ponto de vista dos desafios, da reação odiosa a que somos vítimas tanto por parte do estado, ocupado por nazi-faci-racistas, quanto da violência generalizada que contamina a população e proporciona humilhações públicas, linchamentos e assassinatos de negros nas ruas, supermercados, bancos, estações ferroviárias e afins.

Avanço e progresso social da comunidade negra

“Você não pode enfiar uma faca de nove polegadas nas costas de uma pessoa, puxar seis polegadas para fora, e chamar isso de progresso!”. A frase de Malcon X, expressa o caráter e o ceticismo quanto à ideia de progresso racial que vivenciamos nos últimos anos.

O percentual de negros no nível superior deu um salto e quase dobrou entre 2005 e 2015.  Em 2005, um ano após a implementação de ações afirmativas, como as cotas, apenas 5,5% dos jovens pretos ou pardos na classificação do IBGE e em idade universitária frequentavam uma faculdade. Em 2015, 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos chegaram ao nível superior, segundo o IBGE.

Comparado com os brancos, no entanto, o número equivale a menos da metade dos jovens brancos com a mesma oportunidade, que eram 26,5% em 2015 e 17,8% em 2005. Também objeto de pesquisas, sabe-se que os anos de ensino influenciam no salário: quanto maior a escolaridade, maior o rendimento do trabalhador. De novo nossa comunidade fica pra trás.

Neste lá e cá de avanços e retrocessos, a luta dos cursinhos e do movimento negro tem sim resultados expressivos. Depois de mais de 15 anos desde as primeiras experiências de ações afirmativas no ensino superior, o percentual de pretos e pardos que concluíram a graduação cresceu de 2,2%, em 2000, para 9,3% em 2017.

Mas, apesar do crescimento, os negros ainda não alcançaram o índice de brancos diplomados. Entre a população branca, a proporção atual é de 22% de graduados, o que representa pouco mais do que o dobro dos brancos diplomados no ano 2000, quando o índice era de 9,3%. Uma revolução silenciosa, apesar das limitações. Ou poderíamos dizer: um movimento de saída da faca que, no entanto, continua cravada nas cotas do povo negro e que, no governo Bolsonaro, tende a ser empurrado de volta até as profundezas da alma.

 

Professor Salloma Salomão em Aula Pública da Uneafro Brasil na USP – 2018 / Foto: Thiago Fernandes

Somos resultados das lutas de quem veio antes e de quem luta hoje

O acesso aos espaços de formulação de conhecimento sempre foi objeto da prática cotidiana, do desejo e das lutas do povo negro. A contribuição de africanos e seus descendentes para as diversas ciências e áreas do conhecimento humano sempre foi fundamental e remonta tempos e espaços para muito além do período da escravidão ou da relação espacial África-América. Em Gênios da Humanidade, Carlos Eduardo Dias Machado e Alexandra Baldeh Loras, nos ajudam a perceber o quanto contribuímos para o avanço da humanidade em todas as suas dimensões.

A história dos cursinhos comunitários e populares organizados por e para a comunidade negra remonta nossa resistência à escravidão e todo o mais de um século desde a abolição. Se houve, em 1824, lei que proibiu acesso de negros nas escolas públicas que surgiam, é porque existia a demanda por esse direito. Pós abolição, para além dos fundos de quintal onde as rodas de educação popular se formavam para passar, dos mais velhos aos mais jovens, os conhecimentos ancestrais das religiões africanas, da capoeira e em seguida, do samba – que logo evoluem para “escolas de samba”, logo se formou o mais ambicioso projeto político negro brasileiro, a Frente Negra Brasileira que, sabemos, tinha como um dos pilares de sua atuação, a alfabetização da população negra.

O Teatro Experimental do Negro, com o multifacetado Abdias do Nascimento, as experiências regionais de organização negra em diversos estados brasileiros até a formação do MNU – Movimento Negro Unificado, em 1978, sempre viram na luta pelo direito à educação, uma prioritária bandeira de luta. O Geledés Instituto da Mulher Negraé outra organização, fundada em 1988, que tem como ação principal o enfrentamento ao racismo com foco na mulher negra e com especial olhar para a importância da educação como estratégia de mudança da realidade.

Ainda no final dos anos 80 e início dos 90 surgem iniciativas específicas voltadas para a luta por acesso de negras, negros e pobres em universidades. O Núcleo de Consciência Negra na USP (1988), em São Paulo;  O Instituto Steve Biko (1992), na Bahia; O PVNC – Pré Vestibular para Negros e Carentes (1992), no Rio; A Educafro – Educação e Cidadania para Afrodescendentes e Carentes (1998); E, como irmã mais nova, a Uneafro Brasil, fundada em 2009. Cito aqui apenas as que se constituíram em redes e movimentos, mas foram muitas e diversas as experiências de organização política negra e periférica em torno da luta por educação e acesso à universidade. Este foi o movimento social e político que fortaleceu nas ruas, ao lado do movimento negro geral, a defesa por políticas públicas para a comunidade negra, sobretudo a disputa na sociedade, por cotas raciais nas universidades, pela Lei 10639 – História da África, dos Africanos e sua cultura nas escolas, e pelo Estatuto da Igualdade Racial.

Registros das experiências históricas do povo negro organizado em luta por acesso à educação, universidade e melhoria de vida a partir dos cursinhos comunitários e populares podem ser verificados em trabalhos acadêmicos de importantes estudiosos contemporâneos tais como Cloves Alexandre de Castro, Lajara Janaina Lopes Corrêa, Alexandre do Nascimento, Nadir Zago, Dulce Consuelo Andreatta Whitaker,   Marco Antonio Betinne e Livia Santos, Flavia Mateus Rios.

Sim, os cursinhos populares e comunitários são parte desta linda história de resistências e vitórias. São continuidade da luta histórica do povo negro por liberdade, por dignidade e pela vida.

E assim será, até a vitória, aprendendo a ler, para ensinar nossos camaradas.

Vida longa à Uneafro Brasil!

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