Capoeira na escola é uma janela para a desconstrução do racismo

Autor: Camila Hungria Data da postagem: 19:00 05/07/2019 Visualizacões: 332
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Capoeira na escola é uma janela para a desconstrução do racismo/Imagem: Reprodução - Lunetas

Por que trazer aproximar as crianças da Capoeira? Muito além de um jogo ou uma dança, a Brincadeira de Angola ensina História, Cultura e muito mais!

rincar de princesa, de dinossauro, de monstro, de jogador de futebol, mas também de Zumbi dos Palmares. Aprender a usar o corpo no ritmo do berimbau em um jogo dançado. Fortalecer a autoestima com novos referenciais. Ampliar visões de mundo. Aproximar crianças, brancas e negras, da cultura africana. Levar a Capoeira para a Educação Infantil traz um pouquinho disso tudo, e muito mais. E essa é a proposta do projeto Brincadeira de Angola.

Desde 1998, o projeto leva a Capoeira para crianças do Brasil e de outros países, por meio de aulas em escolas públicas e particulares, e em projetos sociais de acolhimento de crianças refugiadas e em situação de vulnerabilidade, e também atua na formação de professores de todo o mundo ministrando cursos pagos e gratuitos.

Capoeira = patrimônio do Brasil: Em 2014, a Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) declarou a roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Por que trazer a Capoeira para dentro das escolas?

Ancorada no conceito da educação integral e desenvolvimento das potencialidades sócio-artísticas-culturais das crianças, a abordagem proposta pelas aulas da Brincadeira de Angola não coloca o foco na atividade física, mas sim no objetivo de apresentar às crianças o caráter lúdico e a historicidade da Capoeira.

“Quando a gente trabalha com crianças, trabalhamos nesse mundo simbólico, no mundo da fantasia e para isso utilizamos todo tipo de recurso teatral, desde fantoches, bolas e contação de histórias”, explica Aline Cristine da Silva, capoeirista e professora do método.

Aline Cristina durante uma roda de capoeira./Imagem: Reprodução - Lunetas 

Nas aulas de Capoeira não são só as crianças que aprendem, os adultos também aprendem muito sobre o universo da infância e sobre como as crianças olham e se percebem no mundo. “Aprendi muito sobre empatia. Quando a criança chega chorando, ela está precisando de alguém que entenda o seu sentimento”

“Quando vou trabalhar uma simples parada de mãos, é muito mais do que o desenvolvimento de uma capacidade motora.  Para executar este movimento a criança terá que enfrentar sentimentos como medo, insegurança e frustração, trabalhando a tolerância ao erro, a resiliência e a capacidade de autossuperação”, explica.

Crianças durante aula de capoeira/Imagem: Reprodução - Lunetas 

O método da Brincadeira de Angola foi criado pelo Mestre de Capoeira Omri Ferradura Breda. Para ele, o trabalho com a capoeira nas escolas é importante para crianças brancas e negras, pois abre uma janela de conhecimento e valorização da cultura negra, e consequente trabalho de desconstrução e combate a práticas racistas presentes na sociedade.

“A valorização da cultura negra acontece em um processo de emancipação mental, descolonização simbólica e desconstrução de valores racistas. Crianças brancas precisam de referenciais positivos negros para compreenderem como podem vir a ser agentes de transformação dentro da sociedade que as privilegia. Crianças negras precisam destes mesmos referenciais para fortalecerem sua autoestima, construírem uma história e terem ferramentas para enfrentarem o racismo”, disse Omri.

Como mulher negra, Aline reforça a importância do trabalho com a capoeira para desconstrução de valores racistas e estereótipos de gênero.

“Trabalho em escolas onde a maioria das crianças são brancas. Estar nesses lugares sendo mulher e negra é muito importante para as crianças e para mim também, por poder levar a nossa cultura para esses lugares e estar conscientizando as crianças brancas e empoderando as crianças negras. Porque a representatividade de forma positiva é muito importante”, disse.

“Aula de capoeira não é remédio. É linguagem artística”

Mas Omri alerta para a falsa ideia de que ter aulas de capoeira é um caminho definitivo para acabar com o racismo. “A aula de capoeira não é ‘remédio'”, afirma. Nesse sentido, o projeto político pedagógico da escola deve estar, também, comprometido com o combate ao racismo.

“A primeira imagem de personagens negros em livros didáticos é em situações a-históricas, posto que não se apresenta a História pré-colonial africana, em sua riqueza e diversidade. Os africanos de diversas origens são chamados pelos nomes genéricos de ‘negro’ ou ‘escravo’, e sua cultura é apresentada como selvagem. As fotos ou gravuras em que aparecem são sempre relacionadas à escravidão ou a papéis subalternos na sociedade moderna, como faxineira ou porteiro”, explicou. “Os valores que estigmatizam a população negra são confirmados pela educação escolar em diversas ações e omissões”

Mestre Ferradura com as crianças durante a aula./Imagem: Reprodução - Lunetas 

Um reflexo disso são situações de racismo vivenciadas dentro do ambiente escolar. O mestre de Capoeira comenta que já presenciou momentos de discriminação entre as crianças durante suas aulas.

“Nestes casos sempre cabe reflexão e ação específica com pequenas rodas de conversa, tentando ajudar a conscientizar.

“Apesar disso, é preciso ter clareza de que a aula de capoeira não vai resolver os problemas de racismo na sociedade”, pondera o professor

Ainda assim, entendendo o espaço da aula de capoeira como um momento de expressão de uma linguagem artística, cultual e política, Omri vê no seu trabalho potência para contribuir para um futuro melhor.

“Uma criança criada em um ambiente de valorização de heróis negros, cantando músicas que ressaltam positivamente personagens negros e vendo mestres negros durante sua formação terá referenciais positivos para se espelhar e construir uma autoimagem positiva. Isso aumenta a chance desta criança vir a ser um adulto consciente e um agente de transformação social”, finalizou.

“A capoeira nos leva a reconhecer e aceitar o outro com as suas diferenças e isso é muito bacana”, concorda Aline.

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