'Não nos interessa encher a universidade de gente preta para servir ao sistema'

Autor: Vitor Taveira Data da postagem: 17:00 31/07/2019 Visualizacões: 258
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'Não nos interessa encher a universidade de gente preta para servir ao sistema'/Imagem: Reprodução - Século Diário

Em entrevista, Douglas Belchior, do Uneafro, fala sobre o papel transformador dos cursinhos populares

Ativista do movimento negro e da educação popular, Douglas Belchior, coordenador do Uneafro, rede de cursinhos populares surgida em São Paulo, foi um dos convidados para o curso de formação de professores promovido neste sábado (27) pelo Cursinho Popular Risoflora, em Vitória. O evento, gratuito, contou também com intervenções culturais e palestra da professora Roberta Traspadini, do Observatório de Educação Popular da América Latina (Obepal).

Confira a entrevista que Douglas concedeu ao Século Diário.

O que você entende como educação popular? Que tipo de iniciativas está ligado a esse conceito?

- Existe um conceito politicamente forjado de educação popular, defendido no campo progressista, que se caracteriza primeiro por uma educação libertadora, de compromisso radical com o povo brasileiro, com os povos oprimidos, e de respeito fundamental, de reconhecimento do conhecimento e das experiências de resistência desse povo como elementos educadores em nossa sociedade. Há formas diferentes de praticar, mas que carregam esses mesmos princípios.

A igreja progressista se alimentou disso por muito tempo, vertentes da esquerda também. Talvez a maior expressão dessas dinâmicas em nossos dias seja a existência de cursinhos populares. A prática de educação popular pode ser promovida institucionalmente, mas ela é mais interessante, se fortalece ainda mais, quando isso é feito com uma população organizada. Mais do que obedecer princípios e práticas do ponto de vista político-ideológico, é importante que as iniciativas sejam promovidas pelo próprio povo. E os cursinhos populares são exemplo prático em nossos dias.

Qual a relação da educação popular com o povo negro no Brasil?

- Se fizemos um recorte a partir da experiência racial brasileira, a motivação pela qual existem cursinhos populares é a luta política pelo direito à educação e a estratégia de educar para chegar a um melhor lugar.

Fazendo paralelo, a educação sempre foi elemento que justificou e provocou o povo negro organizado. Antes da população branca, essa era uma demanda primeiro nossa, pois a escola quando nasce atende aos brancos. Mesmo naquela época, a educação sempre foi objeto da ação política dos negros organizados. O letramento sempre foi algo muito preeminente. Mesmo nos tempos da escravidão, a Revolta dos Malês [realizada por negros escravizados na Bahia] carrega como símbolo a importância do letramento como elemento de luta. Se existiram leis que proibiam a entrada de filhos de pessoas escravizadas nas escolas públicas, é porque tinha gente que queria entrar.

Trinta anos depois da abolição emerge a Frente Negra Brasileira, que se caracterizou como um partido negro que sobreviveu por duas décadas com atuação a nível nacional. As principais ações eram de assistência social e jurídica e educação. Então não dá pra dizer que é uma demanda recente. A prática de educação popular do povo que sabe ler para quem não sabe ler é princípio de nossa experiência. Depois vem o Teatro Experimental do Negro, para fazer teatro precisa decorar texto, daí vem o letramento também. 

Historicamente, todos documentos de grupos negros organizados trazem necessidade de letramento e acesso à educação para melhoria do material do povo negro. Essa realidade só é materializada no governo Lula com a Lei 10.639, que prevê o ensino de história da África nas escolas. Temos que mudar o currículo escolar, não adianta entrar numa escola que vai educar nossos filhos para serem racistas.

Então os cursinhos populares são a continuidade dessa luta histórica. A tarefa é a mesma, mas as ações mudam conforme o tempo.

Um questionamento constante do movimento negro é sobre o não-cumprimento da Lei 10.639. Os cursinhos conseguem abordar essas questões com mais competência?

- Não temos dúvidas de que o movimento negro como um todo sempre praticou o que a lei pede. Entre os precursores de espaços de educação respeitando a história da África estão as casas de religiões de matriz africana e antes delas os quilombos, passando de geração em geração os conhecimentos. Essa memória está mais viva no Brasil até do que em vários países da própria África, em que o colonialismo destruiu esse legado do ponto de vista cultural. Tem estudiosos africanos que vêm ao o brasil para se alimentar dessa herança cultural que permaneceu viva aqui.

Por que a onda agora é destruir centros de candomblé e umbanda? Porque são espaços da resistência cultural, a gente sobrevive ali. Por aí que a luta continua, não são alvos por acaso.

A educação política é uma marca forte dentro da educação popular...

- Exato. Só é educação popular porque tem visão política, senão seria igual ao mercado. Não nos interessa encher universidade de gente preta para servir e perpetuar esse sistema. Os cursinhos querem despertar para realidade brasileira e provocar agentes de mudança em relação à sociedade.  A universidade está repleta de imbecis e não queremos isso. Estamos aqui para enfrentar essa educação que está para reprodução do racismo, do preconceito, machismo, LGBTfobia, para a reprodução do capital. Tem que ser um espaço contestador dessa hegemonia liberal e preconceituosa, senão não é cursinho popular.

Como se dá na prática a ação desses alunos de cursinhos populares depois de ingressar na universidade?

- Claro que não é uma coisa simples. A vida real tem demandas e necessidades que são alheias à nossa vontade. O que eu posso dizer é que quem tem a vivência da intensidade de um cursinho popular não sai do mesmo jeito que entrou, existe uma alteração da percepção da vida. Pode se utilizar mais ou menos disso, de acordo com os tempos da vida, os resultados dessas experiências muitas vezes não acontecem imediatamente. Às vezes demora.  Mas levam esses conhecimentos e vivências para o mercado de trabalho na área dele, por exemplo. É um impacto impossível de medir mas que a gente sabe que existe. Dá para medir quantos alunos aprovamos na universidade, quantos completaram o curso universitário, mas não é só esse resultado que importa. 

Sobre a política de cotas, muda bastante o panorama da presença do povo negro e pobre nas universidade. Quais considera os avanços e limitações dessa política?

- Essa política do jeito que ela está, capenga e insuficiente, continua sendo muito importante. Se ela não fosse muito importante, mesmo insuficiente, mesmo que ainda não tenhamos conseguimos converter em política um resultado que expresse de fato o que é a diversidade brasileira, pois ainda está muito longe disso, mesmo assim representou e confirmou um risco que as elites tanto temiam. Garantiu que nossa participação na universidade levasse o negro para outros espaços na sociedade e isso tem gerado conflitos. Gerou gostinho de que só vamos querer mais. É um instrumento para exercício de diversidade que o país não estava acostumado e está mudando a realidade. Nossa tarefa é fazer a defesa e reivindicar ampliação dessa política. Não se ater aos limites, mas valorizar o que tem de positivo nessa experiência.

Como vê o resultado dos primeiros meses do governo de Jair Bolsonaro (PSL) para a educação?

- Em seis meses esse governo está fechando o sistema. Essa é a tendência e vontade desse governo. Estamos vivendo em um governo com explícitas características de um governo autoritário, fascista, no modo de se relacionar com sociedade, com grupos políticos diferentes deles. Isso está explícito nas suas práticas e propostas de lei que só retiram direitos e liberdades e ampliam repressão. Nesse quadro, se democracia nunca existiu para povo negro mais pobre mesmo em ambientes formalmente democráticos, imagina nesse que estamos passando a viver. O governo reivindica sua condição de genocida, defensor de uma elite racista e oponente radical do povo, dos pobres, trabalhadores. 

E qual o papel da educação popular diante desse panorama?

- A crise reflete na esquerda brasileira uma ideia que ficou generalizada de que a esquerda teria abandonado o trabalho de base, surfado numa onda pequeno burguesa, na ocupação do Estado, burocratização. Mas a pergunta que tenho é: que esquerda foi essa que abandonou o trabalho de base? Porque teve uma esquerda que não abandonou.

É justamente desse lugar que nunca foi abandonado pelo povo organizado que falamos. As experiências de quem ficou em seus bairros organizando a luta são as maiores experiências de resistência que estamos vendo hoje. E os cursinhos populares são um desses pilares, junto com coletivos juvenis, grupos culturais, grupos de mulheres negras. Daí vem a novidade e reação que vão garantir que atravessemos esse deserto e cheguemos ao outro lado vivos para construir novos tempos. Vamos continuar, não tem alternativa. Os cursinhos são instrumento para essa construção, precisam ser valorizados e apoiados.

Algo mais que queira acrescentar?

- Acho também que nossos cursinhos, nossas atividades,  nossos alunos saindo dos cursinhos e indo para universidades carregam essa mudança. Nos cursinhos encontramos um ambiente solidário e generoso, vai gente ajudar no fim de semana, abre mão de outras coisas para trabalhar. Não é um ambiente do liberalismo e individualismo. Viver uma prática solidária real e verdadeira é tão bonito. Esse resultado do que a gente alcança com nosso trabalho, do garoto preto deixando de ser morto pela polícia e pegando diploma, da menina negra deixando ser estuprada e virando médica o advogada, é o resultado das orações dos nossos ancestrais, que sonharam com isso. Estamos aqui para realizar e temos que ter noção da importância disso. É isso que o Cursinho Popular Risoflora faz e outros cursinhos fazem pelo Brasil inteiro.

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