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Além da cota: historiador defende educação antirracista como ação afirmativa

Autor: Larissa Cavalcante Data da postagem: 12:00 26/11/2019 Visualizacões: 307
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O historiador Juarez Silva afirma que os resultados práticos das cotas raciais são muito evidentes./Foto: Antônio Lima - Reprodução - A Crítica

Ativista e historiador Juarez Silva avalia as lutas, avanços e desafios do movimento negro e defende que ações afirmativas devem ir além das cotas, de forma a oportunizar e acelerar redução da desigualdade

Comemorado na quarta-feira (20), o Dia da Consciência Negra é um ‘dia de reflexão e de luta’ avalia o ativista negro e historiador Juarez Silva. Em entrevista ao A CRÍTICA, ele disse que a data não é comemorativa. O historiador comentou também as conquistas e as demandas de luta do movimento negro, a negação da presença negra no Amazonas e as ações afirmativas no combate ao racismo e à desigualdade social. Confira os principais trechos:

O Dia da Consciência Negra é uma data para se comemorar direitos e conquistas ou lamentar perdas?

A data não é exatamente comemorativa. Festejamos Zumbi dos Palmares como símbolo da resistência e também apresentamos reflexões e demandas. Já houve avanços, mas ainda há muito a se conquistar. É uma data de luta.

Qual a atual condição da população negra no Brasil?

Pouco antes da abolição da escravidão houve uma redução drástica da população negra por conta da Guerra da Paraguai. Com o processo de industrialização optou-se trazer mão de obra de fora. Chamamos isso de plano nacional de branqueamento. Na época (império), defendia-se que o Brasil não avançaria se tivesse uma população negra, sendo necessário reduzi-la ao máximo. Eles esperavam que com a marginalização e investindo na miscigenação isso aconteceria. Todavia não deu certo. Ao retornar as medições da população negra viu-se que começou a crescer e superou a branca. Hoje, 54% são de negros, soma de pretos e partos, sendo majoritariamente de pardos.

Qual análise o senhor faz da conjuntura da população negra no Amazonas?

A negação da presença negra no estado tem relação com o aporte negro que foi muitíssimo menor que nas outras regiões. Mas isso não quer dizer que não houve. O aporte se deu na pré-abolição com a escravidão; com os africanos livre; barbadianos; próximo da Segunda Guerra com os soldados da borracha que incluía nordestinos e negros; e também com o advento da Zona Franca e o processo de militarização. Novas entradas afrodescentes estrangeiras da Guiana e do Haiti. Manaus tem vários bairros reconhecidos como negros: Praça 14 com o segundo quilombo urbano reconhecido do Brasil, Morro da Liberdade, Seringal Mirim, Zumbi. Houve no século XIX o 'Costa D'África' próximo da Praça da Saudade, habitado por africanos livres e outros negros. O Amazonas foi o único estado do Brasil a ter um time completamente negro na primeira divisão de um estadual, o Euterpe Football Club, nos anos 20.

O que mais prejudica os negros no País: o racismo velado, a falta de oportunidades ou o quê?

Tudo está conectado. O racismo velado é apenas uma maneira de disparar todas essas formas (de racismo). O fato de não ter essa referência (negra) causa nas pessoas estranhamento quando encontram negros em posições não esperadas. Somente vai oportunizar se for obrigado e nisso entra as cotas. As ações afirmativas obrigam a oportunizar e aceleram o que se esperaria que resolvesse, naturalmente, e que demoraria muito para ocorrer.

Durante a campanha presidencial, Jair Bolsonaro fez inúmeras declarações contra cotas raciais em universidades públicas.

Os resultados práticos das cotas são muito evidentes. Temos a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e conseguimos fazer encontros com pesquisadores de multiáreas, que não trabalham apenas a questão da negritude. Em 2018, reunimos mais de 4 mil pesquisadores. Na universidade, no centro que estudava, havia apenas quatro negros no meio de 800 estudantes.

Quanto já se avançou no movimento negro?

Quando se fala de movimento negro são vários vertentes: a política de conscientização, cultural e religiosa. Hoje, o movimento está mais espalhado com as vertentes mais infiltradas. Está havendo a institucionalização com a criação de conselhos (estaduais) de promoção de igualdade racial. No Amazonas, estamos em via de criação. Estamos tendo avanços. As pessoas estão chegando nas universidades e que agora existem coletivos negros.

Quais são as dificuldades e os obstáculos que permanecem?

O racismo provoca desigualdade. Não se combate apenas o racismo quanto à discriminação direta, óbvia e estética. Trabalhamos nesse combate que se manifesta nas posições intermediárias superiores da sociedade que tem sub-representação. Hoje, um dos nossos grandes problemas é a sub-representação social. Estamos muito representados numa camada mais baixa da pirâmide social, mas pouco representado nas demais.

Os negros são a maioria dos indicadores sociais negativos. Essa diferença é histórica. Como sanar essa dívida histórica?

As ações afirmativas podem ocorrer de diversas formas, cota é apenas uma delas, a partir do fomento da educação antirracista que obriga o ensino de história e cultura africana e afrobrasileira no ensino fundamental e médio. Isso ajuda no combate ao preconceito e, consequentemente, a discriminação. Com isso, reduzimos a desigualdade. Grande elemento afirmativo é a educação da própria população negra, melhorando a qualidade educacional e também a usar a educação, no geral, no combate ao preconceito e a discriminação. Também o fomento a pós-graduação e oferta de bolsas específicas, por exemplo, de idiomas, programas de fomento à pesquisa científica, encampamento de projetos de interesse da população negra.

Os números de homicídios no país mostram que 75% das vítimas são afrodescendentes. No período de uma década (2007 a 2017) a taxa cresceu 33,1%. Qual avaliação o senhor faz?

Quando falo da abolição mal feita que empurrou a população negra para as periferias e para os morros e, assim, uma vida sem acesso à educação não se podia esperar que não tivesse uma carga negativa com o aumento da violência e da criminalidade. Não podemos negá-los. Pouco foi oportunizado e feito para reverter essa marginalização. Nós estamos vivendo um tempo de necropolítica que extermina e elimina o indesejável. No Brasil, são as populações negras e indígenas que estão morrendo. O recrudescimento da violência, com "bandido bom é bandido morto", acaba matando o suspeito preferencial que ainda é o negro. Hoje, temos os quilombos e não basta apenas tê-los. É preciso levar infraestrutura, condições de acesso à saúde e educação. A mãe quilombola também quer ver seu filho doutor.

O que ainda é preciso avançar no país no reconhecimento e na valorização das comunidades quilombolas e nas raízes africanas?

A data ainda não é feriado nacional e temos que estar brigando de cidade a cidade. Em alguns municípios, a data era feriado e deixou de ser. O patronato pressiona pelo não feriado. Essa é uma forma de resistência contra as ações afirmativas. Em 10 anos de campanha pelas cotas, ainda tem gente que combate. A escolha do alvos da violência continua. Enfim, estamos reduzindo todas as demandas que tínhamos e muitas seguem ainda. No Amazonas, estamos trabalhando e começamos a reverter a negação da presença negra.

Qual é a sua opinião sobre o crescimento da representação dos negros na publicidade, na TV e na indústria da moda?

Acompanhei esse início com  o lançamento da revista Raça Brasil, primeira a mostrar um negro na capa da revista e com publicidade de interesse da população negra. Nessa estratégia de marketing, o consumidor negro quer se ver representado. Essa ampliação da presença do negro tem sido muito positiva, inclusive, de recuperar a autoestima.

Essa situação melhorou desde quando o movimento passou a reivindicar e festejar a data?

Sim, acesso educacional e institucional, visibilidade midiática, problematização acadêmica e mobilidade social. Identificamos a redução da intolerância religiosa e a valorização cultural.

 

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