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Enem 2020: manutenção de datas do exame expõe desigualdades entre estudantes, dizem especialistas

Autor: Redação Extra Data da postagem: 18:00 20/05/2020 Visualizacões: 34
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Enem 2020: manutenção de datas do exame expõe desigualdades entre estudantes, dizem especialistas/Reprodução: Extra

E se uma geração de novos profissionais fosse perdida? A indagação abre a peça publicitária do Ministério da Educação a respeito da abertura das inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), veiculada pela primeira vez no dia 4. A propaganda sustenta que a data da prova deve ser mantida a despeito da pandemia atual.

Para especialistas, a realidade é outra: a não postergação do exame, que ocorreria nos dias 1º e 8 de novembro na edição impressa e 22 e 29 de novembro na digital, pode custar o futuro de uma geração inteira de alunos de baixa renda, que não dispõem das mesmas ferramentas para manter os estudos durante a crise do novo coronavírus.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia(DEM-RJ), declarou nesta quinta-feira que conversou com o presidente Jair Bolsonaro sobre o assunto e, segundo ele, o presidente se mostrou “sensível” ao apelo pelo adiamento do exame. Na quarta-feira, Bolsonaro chegou a admitir a possibilidade, mas desde que a prova fosse aplicada neste ano.

Para o jornalista especializado em educação e colunista do GLOBO Antonio Gois, o debate em torno do Enem ganhou contornos políticos no momento em que estudantes demandam, no outro lado da ponta, soluções práticas.

— O ponto que eu tenho mais insistido é a politização da discussão. A data do Enem não tem que ser uma batalha para provar que o Brasil está normal, que a Covid-19 é só uma gripezinha ou que será uma vitória da oposição se o Enem for adiado. A postergação do exame tem que ser discutida com os estudantes e com as redes de ensino — avalia Gois. — Seria no mínimo uma insensibilidade não adiar. Vai trazer um senso de injustiça para muitos dos alunos.

Segundo o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, o ministro Abraham Weintraub reconheceu a possibilidade de adiamento em reunião na Câmara, mas ponderou que a confirmação da postergação de datas neste momento desestimularia os vestibulandos.

Especialistas, no entanto, discordam: por conta do coronavírus, não há condições de manter as datas do Enem.

— A manutenção da data só amplia as instabilidades. Você está produzindo insegurança psicológica em um momento em que as pessoas já estão frágeis — avalia Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco.

Nesta semana, o Instituto Unibanco publicou um levantamento avaliando a posição oficial de 27 países que adotam exames de ingressos para o ensino superior. Destes, 22 optaram pelo adiamento do exame. Estas nações, reforça Henriques, entenderam que precisavam ragir de forma ativa e chamaram para si a responsabilidade de definir uma solução para o problema.

João Marcelo Borges, diretor de estratégia política da ONG Todos Pela Educação, avalia que não se trata apenas das desigualdades educacionais:

— Trata-se também de condições socioeconômicas díspares agravadas pela pandemia e suas consequências.

Para Borges, a solução passa por quatro caminhos: enfatizar que o Enem acontecerá para manter a mobilização de alunos e professores, anunciar o adiamento com a garantia de escolha posterior de uma data segura para alunos e aplicadores do exame; a criação de um gabinete para avaliar as medidas necessárias para viabilizar a prova, compostos pelo MEC, o Inep, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), uma associação que represente as escolas privadas e as entidades que representam as universidades públicas e particulares e, por fim, iniciar o mais rápido possível as tratativas para garantir a operação logística do Enem, que é complexa:

— Se não começar a fazer esse replanejamento agora, pode ser que o MEC tenha que gastar muito mais. A persistir a posição de não adiar, eu não tenho a menor dúvida de que no segundo semestre o STF daria ganho de causa a uma ação bem fundamentada que exigisse uma segunda prova para os alunos prejudicados. Isso aumentaria ainda mais os gastos. Para um minsitro que se diz preocupado com o dinheiro dos brasileiros, iniciar logo um replanejamento é uma medida obrigatória. E ele está perdendo essa dimensão.

Inep sugere ampliação de cotas

Na última quarta-feira, antes de Weintraub reconhecer a possibilidade de adiamento, o presidente do Inep, Alexandre Lopes, defendeu em uma transmissão ao vivo na internet a ampliação de cotas sociais e a negociação, junto ao Congresso, para ampliar os fundos do Prouni de forma a atenuar os impactos nos candidatos de baixa renda. Para Henriques, as medidas não funcionariam isoladamente.

— É mais um sintoma de quem conhece pouco o que está envolvido no processo da seleção. Seria ótimo aumentar as cotas e aumentar os recursos, sou a favor, mas isso não substitui a necessidade de produzir a previsibilidade e a segurança da data do Enem — avalia o superintendente executivo do Instituto Unibanco.

Para o diretor do Todos pela Educação, a proposta exclui o papel do MEC e do Inep da solução do problema.

— Ao propor isso, ele está tirando o problema da mesa dele e transferindo para as instituições federais ou estaduais públicas de ensino superior e propondo um aumento de gastos no momento de restrições orçamentárias, aumento esse que é importante e necessário na educação. A proposta do MEC é preguiçosa, incompetente, política e administrativamente irresponsável.

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