Debate aborda os desafios da Educação Escolar Quilombola e suas contribuições para a educação brasileira

Autor: Cristina Fernandes Data da postagem: 09:15 10/03/2022 Visualizacões: 463
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Live: Desafios estruturais e pedagógicos na Educação Escolar Quilombola/Reprodução: YouTube CEERT

Quais os desafios estruturais e pedagógicos na educação escolar quilombola na promoção da equidade racial? é o tema do debate virtual (live), que aconteceu na noite de terça-feira (22) e foi o primeiro do Ciclo de debates “Diálogos e Cenários de Pesquisa em Equidade Racial na Educação Básica'' realizado pelo ANANSI - Observatório da Equidade Racial na Educação Básica/CEERT.

“A educação quilombola e a educação indígena trazem contribuições importantes para a educação brasileira. Esses processos educativos têm que ser mais expostos, que é o objetivo desse projeto [Anansi] que nos reúne aqui hoje'', afirmou no evento, a Profa. Dra. Petronilha Gonçalves, professora emérita da UFSCAR e relatora das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (CNE,2004), documento orientador para a aplicação da Lei 10639/2003 na Educação Brasileira.

A Profa. Dra. Cida Bento (CEERT) fez a abertura do evento, que contou também com a participação do Prof. Dr. Alan Alves Brito, professor no Instituto de Física, coordenador geral do NEAB/UFRGS e do Projeto Zumbi-Dandara dos Palmares; e Mako’Yilé Yabace, representante da Nação Muzunguê do Território de Mãe Preta, cofundadora da Comunidade Kilombola Morada da Paz e mestra da cultura viva. A representante da equipe coordenadora do Anansi, Prof. Dra. Maria das Graças Gonçalves, coordenou o debate.

Cida Bento explicou que o objetivo do Anansi é contribuir com a luta pela equidade racial na educação básica. “Pelo Anansi podemos compartilhar o conhecimento acumulado construído nas nossas pesquisas e projetos para oferecer subsídios para as ações afirmativas e para a efetiva implementação da lei 10.639/03, trazendo energia, força e conhecimento para que o gestor público avance na construção da equidade racial na educação básica” explica. O Anansi - Observatório da Equidade Racial na Educação Básica foi lançado em dezembro de 2021 pelo CEERT em parceria com Instituto Unibanco e Fundação Itaú Social.

Indicadores educacionais

Com base no cruzamento de informações do Censo Escolar (MEC) e dados pesquisados em campo, o Prof. Alan apresentou uma análise da situação das escolas quilombolas, tanto em territórios quilombolas, quanto em contextos rurais e urbanos. Os dados escancaram a precariedade de infraestrutura dessas escolas em comparação com escolas não quilombolas. Segundo ele, 85% das escolas quilombolas estão no que é classificado como nível elementar, ou seja, o nível mais baixo com as mínimas condições estruturais como água, esgoto e energia elétrica, mas sem computadores, salas para equipe diretiva e docente, biblioteca, laboratório e quadra esportiva, itens classificados no nível adequado.

A pesquisa do Prof. Alan traz o tipo de indicadores que serão disponibilizados no Anansi, como explicou a Prof. Graça Gonçalves. “O Anansi é um projeto robusto e inovador, utilizando tecnologias para construir redes e tornar visíveis os trabalhos realizados nesse imenso Brasil pelos ativistas, professores, intelectuais, agentes da justiça, gestores e tantos outros, em torno da lei 10639", diz. Graça explica que não havia até agora nenhuma iniciativa para o monitoramento da implementação da lei 10639/03 e 11645/08. A iniciativa é inovadora porque vai dialogar, enredar e articular toda essa gente que tem trabalhado incansavelmente para a construção do antirracismo na educação. Vamos visibilizar, monitorar, fornecer subsídios para pesquisadores, gestores e ativistas” conclui a Profa. Graça.

Valores da educação quilombola

Os saberes populares também tiveram espaço no evento com a história contada por Mako’Yilé Yabace sobre a educação quilombola. “É uma história vivida do chão e do céu do meu quilombo de Mãe Preta.” Ela explica que na cultura quilombola, para educar é preciso afetar e acolher. A educação quilombola é com afeto e muito amorosidade. Ela diz que “as crianças quilombolas saem de seus territórios e vão para escolas onde não se veem nos livros, são apontadas, rechaçadas, sofrem racismo, se sentem só e perdidas” apontando o sofrimento provocado pela escolarização da maioria das crianças negras.

"Nossa experiência escolar pretende nos fazer assimilar um jeito de pensar e viver que tem por referência as raízes europeias. A educação quilombola e dos povos indígenas trazem distintas referências e formas de se constituir como pessoas, a partir de diferentes ancestrais” conclui a Profa. Petronilha, uma das maiores referências intelectuais nos estudos das relações raciais na educação brasileira. 

Mako’Yilé Yabace conta que na Comunidade Kilombola Morada da Paz, a educação é denominada Pedagogia do Encantamento, que vem da magia do outro pelo outro, do diálogo e da circularidade. É um processo de aprender e afetar, no qual o ser se sente proativo no processo de aprender. “Nosso legado é que eles sejam zeladores da terra e que onde estiverem, seja como médicos ou cientistas, possam ser éticos, zelosos e transformadores de seus mundos”.

A gravação do debate está disponivel no canal do CEERT no YouTube. Este é o primeiro de um ciclo de seis encontros quinzenais. Acompanhe pelas nossas redes sociais.

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