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Ginastas universitárias negras dos Estados Unidos descrevem cultura do racismo no esporte

Autor: Redação Globo Esporte Data da postagem: 12:00 25/08/2020 Visualizacões: 352
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Tia Kiaku era a única negra na equipe do Alabama/Foto: Reprodução - Globo Esporte

Onda de denúncias de casos de preconceitos sofridos por ginastas ganha força também no esporte universitário americano

O ano de 2020 não está marcado por competições, a maioria delas cancelada por conta da pandemia do novo coronavírus, mas o mundo da ginástica está vivendo um momento muito importante. Diversas Confederações, espalhadas pelo mundo, estão punindo técnicos e dirigentes envolvidos em casos de racismo e abuso, como na Grã Bretanha, AustráliaNova Zelândia e Holanda. No Brasil, o Esporte Espetacular do último domingo teve uma longa e importante matéria sobre o racismo na seleção adulta de ginástica artística. Nos Estados Unidos, as denúncias no esporte universitário também ganharam força nos últimos dias.

Diversas ginastas negras universitárias do país relataram o racismo e o ambiente tóxico da modalidade, em uma reportagem da ESPN americana. Importante lembrar que os Estados Unidos são a maior força da ginástica no mundo, principalmente entre as mulheres, e a atual campeã olímpica de quatro provas, Simone Biles, já falou diversas vezes sobre o assunto.

A ginasta Tia Kiaku começou no esporte com apenas três anos de idade, na Carolina do Norte. Em 2017, por exemplo, ela ficou em nono lugar no Campeonato Nacional, e tem se mantido entre as melhores do país desde então, mas não conseguiu uma vaga na seleção nacional. Segundo ela, sofreu racismo por muitos anos, mas permaneceu em silêncio por algum tempo.

Kiaku disse que companheiras de equipe, todos brancos, costumavam cantar junto letras de músicas que incluíam calúnias raciais e com a palavra com N (insulto racial nos EUA). Quando outro companheira de equipe negra disse especificamente a um companheiro de equipe branco para não usar a palavra, este branco o fez mesmo assim, alegando que era "apenas uma piada".

- Meu medo era ser rotulada como alguém difícil de trabalhar e isso me atrapalhar na ginástica - disse Kiaku.

Tia Kiaku/Foto: Reprodução - Globo Esporte

Durante um treino de salto, Kiaku disse que o assistente técnico Bill Lorenz se aproximou dela e de dois companheiros negros, Makarri Doggette e Sania Mitchell, que estavam todos sentados juntos e disseram: "O que é isso, a parte de trás do ônibus?" referindo-se às políticas segregacionistas protestadas durante o movimento pelos direitos civis dos anos 1960.

De acordo com a reportagem, a mãe de uma ginasta branca ligou para dizer que estava "muito chateada com o fato de seu filho ser acusado de ser racista".

Finister, A'Miracal Phillips e Telah Black são três atletas da Universidade de Auburn que também declararam que se sentiram isoladas durante eventos de ginástica. Elas não se sentiam à vontade para falar com o técnico Jeff Graba ou sua equipe sobre suas experiências. Eles disseram que Graba, que é branco, costuma tentar minimizar os incidentes racistas.

Black, membro da equipe de ginástica de Auburn de 2016 a 2018, lembrou-se de uma festa de Natal em que um colega de equipe presenteou-a com uma sacola cheia de centenas de nozes. Quando Black, que usava o cabelo em um coque, perguntou o que isso significava, a colega de equipe respondeu: "É assim que a sua cabeça se parece."

- Lembro-me de todos rindo, mas não achei engraçado. Foi apenas uma situação entre muitas em que me senti muito desconfortável e como se não tivesse apoio - disse.

A'Miracal Phillips/Foto: Reprodução - Globo Esporte

Segundo dados da reportagem, apenas dois treinadores e quatro assistentes são negros na ginástica universitária dos Estados Unidos da primeira divisão. 703 atletas atletas são lideradas por técnicos e técnicas brancos, enquanto só 101 têm negros como técnicos ou assistentes. A treinadora Umme Salim-Beasley, que é uma das poucas negras, disse que as questões culturais no esporte são profundas.

- Existem estereótipos que seguem as ginastas afro-americanas, como que elas são ginastas de força, não tanto ginastas de graça. Ouvi dizer que os juízes gostam de um visual específico e gostam daquele visual elegante de ginástica ao estilo europeu, e que as ginastas negras tendem a não pontuar tão bem porque não têm aquela constituição particular - disse.

Margzetta Frazier foi atleta da seleção americana júnior em 2017 e se manteve entre as melhores do país até a temporada passada. Apesar do currículo, disse que passou a maior parte de sua carreira na ginástica se preocupando com sua aparência.

- Eu odiei meu corpo por muito tempo. Achei que a única maneira de os jurados ultrapassarem minha cor era pelo menos ver como meu corpo poderia parecer bonito e magro, mas era impossível para mim parecer assim de uma forma saudável - disse.

Margzetta Frazier/Foto: Reprodução - Globo Esporte
 
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