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"Acontece no futebol e na sociedade; é mais difícil pra mulher preta", diz coordenadora da CBF

Autor: Redação Globo Esporte Data da postagem: 16:00 23/12/2020 Visualizacões: 246
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Aline Pellegrino é a Coordenadora de Competições Femininas da CBF/Foto: Lucas Figueiredo - Reprodução - Globo Esporte
Ex-capitã da seleção brasileira e coordenadora da Confederação Brasileira de Futebol é a entrevistada da edição 23 do Ubuntu Esporte Clube

Dois mil e vinte tem sido um ano difícil, de poucas conquistas no campo social, mas de algumas vitórias e fortalecimentos, que também são comuns em épocas de grandes crises. Aline Pellegrino, coordenadora de competições de futebol feminino da CBF, pode ser considerada um desses sinais de fogo dentro de um ano que naufragou numa pandemia que já levou quase 200 mil vidas brasileiras.

- O que acontece no futebol é o que acontece na sociedade. É mais difícil para mulher preta - diz Pellegrino.

Ela assumiu o cargo em setembro e é a mulher forte à frente do calendário do futebol feminino do Brasil, que teve o Corinthians bicampeão brasileiro no último domingo. No episódio 23 do Ubuntu Esporte Clube, Aline falou sobre sua avaliação do ano complicado, da abordagem jornalística e de como é ocupar um posto de poder sendo uma preta brasileira.

- A gente sai de 2020 muito fortalecido e passa um recado que é não tentar ver problemas onde já existem. A gente só vai andar pra frente. A audiência (da final) foi muito boa, e a entrega, muito positiva. Vamos falar da Copa do Mundo. Eu posso pegar o meu controle, rodar e ali estava a final da Copa do Mundo de futebol feminino. Eu posso não querer ver o que está ali, mas se não estivesse ali, 22 milhões de pessoas não teriam a opção de assistir - e não tinha o Brasil envolvido. Fica essa coisa aí do "ninguém gosta", muitas pessoas trazem essa falácia e impedem que as outras pessoas se interessem. Isso impede que as pessoas assistam. A gente não quer convencer ninguém a gostar de futebol feminino, mas não dá pra dizer que por que você não gosta, você não deixar ali por uma coisa pessoal - explica a coordenadora.

Pellegrino é ex-capitã da seleção brasileira de futebol e falou sobre realidade das mulheres negras na modalidade — Foto: Greg Baker/AP

Apesar dos números positivos da Copa do Mundo, a cobertura do futebol feminino pela mídia brasileira está longe do ideal. Nada que surpreenda dentro de uma sociedade estruturalmente aleijada pelo machismo; no Brasil, até 1979, um decreto promulgado em 1941 pelo presidente Getúlio Vargas proibia mulheres de jogarem futebol pois tal prática iria contra a natureza. Diante desse cenário, Aline constrói uma reflexão fria sobre a abordagem jornalística:

- Eu sou otimista, sou utópica e ao mesmo tempo sou meio cética. Todos os dias tem matéria do futebol feminino. Está muito orgânico. Eu não imagino mais a grande mídia invisibilizando novamente o futebol feminino. Em contrapartida, tem uma mída alternativa que, se a grande mídia quiser invisibilzar, vai ser atropelada. Quem salva a grande mídia (com informações) é a mídia alternativa. Assunto e pauta não faltam, mas o mínimo necessário já conseguimos. Agora é aumentar.

O racismo é outro fator excludente e mutilador da representatividade e ascensão das mulheres negras no futebol. O perfil de Aline Pellegrino é raro quando olhamos ao redor e procuramos mulheres pretas em outros lugares além do campo de futebol. Entre os 16 times que jogaram o Campeonato Brasileiro, nenhuma técnica negra.

Foto oficial do Corinthians campeão brasileiro feminino — Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Uma pesquisa divulgada em novembro pela consultoria "Indique uma Preta" e a empresa Box 1824 aponta que apenas 8% dos cargos de gerência são ocupadas por mulheres pretas, mesmo sendo elas 28% da população e compondo o maior grupo de força de trabalho da sociedade. Uma matemática maldita e inviável no que diz respeito ao debate racial.

- Quando a gente pega os números, dá pra ver que o que acontece no futebol é o que acontece na sociedade. É mais difícil pra mulher preta. O tipo de cargo, o tipo de função... É outro. No futebol, o número de mulheres é muito pequeno, e de mulheres pretas, menor ainda - conclui Pellegrino.

 

 
 

 

 
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