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Mulheres negras ostentam cabelo natural e dão ‘basta’ em alisamento

Autor: por Carolina Monteiro Data da postagem: 10:30 11/04/2016 Visualizacões: 6193
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Andressa Souza diz que, por 20 anos, não era feliz com sua imagem, hoje, a realidade é outra (Foto: Celso Ribeiro)

“Durante 20 anos, não me aceitei. Me odiava. Achava meu nariz grande, não gostava da minha boca. Achava um absurdo ter nascido assim”, diz Andressa Souza Santos.

Em 2011, com 21 anos, já com feridas na cabeça pela agressividade dos alisamentos, a maquiadora fez uma virada. Assim como ela, mulheres negras de todo o País descobrem e assumem a beleza natural, a despeito da pífia representatividade dos negros na mídia. O movimento “Crespas e Cacheadas” cria um novo parâmetro, inclusive, para o mercado de moda e beleza – do padrão antifrizz, passa a “quanto mais volume, melhor!”

Andressa Santos, que chegou a refazer a química de mês em mês, cansou do sofrimento e da dependência que os tratamentos capilares causavam. Sem que se inspirasse em uma figura pública, pesquisou formas de interromper o processo de alisamento. “Decidi fazer a minha própria história de mulher preta. Foi aí que conheci um movimento imenso na internet, de meninas que estavam começando a deixar o cabelo natural. Enfim, encontrei pessoas para me espelhar. Hoje, vivo a aceitação completa do meu corpo. Nunca imaginei que chegaria nesse ponto, de me olhar no espelho e gostar de cada pedacinho de mim”, diz Andressa.

Em 2014, depois de passar por sete anos de contínuo alisamento, Janaína Nazário, de 21 anos, iniciou a “transição” – interrupção do tratamento químico. “Minha mãe começou a alisar meu cabelo quando eu tinha 12 anos. Dentro da minha cabeça, essa era a única forma de usar o cabelo solto”, afirma Janaína. O desejo de trocar a química a colocou em contato com jovens na mesma situação, via internet, quando mergulhou em profundo processo de autoconhecimento. “Nunca me identifiquei com o cabelo alisado. Fazia porque, às vezes, as pessoas falam que o cabelo crespo é ruim, todos esses discursos”, diz Janaína Nazário.

Segundo a graduanda em Ciências Biológicas, o momento mais difícil da transição é o corte, quando se elimina a textura lisa do cabelo. “A gente acha que o mundo vai cair, que todos vão criticar. Mas, quando corta, aquele peso vai embora. É um ato de coragem, de dizer não às convenções”, diz Janaína. Atualmente, a maior dificuldade da estudante é encontrar tempo para cuidar do black power. “Todo tipo de cabelo exige cuidado, mas os crespos têm uma composição frágil e demandam constante hidratação. O que, apesar de todo o trabalho, é muito melhor que viver para alisá-lo”, afirma a uberlandense.

O nascimento da filha foi o start para que Marília Guimarães, de 32 anos, repensasse a imagem que tinha de si mesma. “Lembro que, na primeira semana em casa, corri para alisar o cabelo. Minha filha nasceu com lindas madeixas volumosas e quis ser uma referência para ela, para que se valorizasse”, diz Marília Guimarães. A cuidadora de idosos passou por uma recaída na transição, quando a mãe questionou se ia manter “o cabelo duro”. “Passei por essa sozinha, mas hoje tenho o apoio da minha mãe e uma rede de amigas que me ampara. Minha maior alegria é ouvir minha pequena dizendo que é uma princesa”, diz.

Publicidade tem valorizado mais estilo afro

O crescente empoderamento de mulheres e homens negros quanto a sua imagem tem estimulado uma abertura dos mercados de moda e beleza para a estética dos cabelos crespos e cacheados. Atualmente, além de agências especializadas em modelos negros, comuns nas capitais, as agências do interior investem gradativamente na beleza negra natural. O mercado de cosméticos, antes restrito a produtos que garantiam reduzir frizz e volume de cabelos cacheados, atualmente, lança linhas dedicadas a cabelos crespos, que prometem volume e hidratação.

Tayrine Rodrigues, de 27 anos, diz que o mercado da moda de Uberlândia a recebeu bem. “Meu cabelo sempre foi cacheado e nunca passei pelo processo doloroso do alisamento”, diz a modelo. Mas, se na adolescência, ela cuidava para o cabelo não armar, depois que voltou de São Paulo, onde atuou em uma agência especializada, assumiu as madeixas de vez. “Consegui muitos trabalhos, por esse diferencial que, felizmente, é cada vez mais comum. As crianças também estão vindo super assumidas, como minha filha”, diz Tayrine Rodrigues.

Larissa Fernandes está ingressando no mercado de moda agora e sente a receptividade. “Quando era criança, por sempre ter assumido o meu cabelo armado, o pessoal me zoava”, diz Larissa. Depois de adulta, a reação das pessoas aos cabelos cacheados da modelo mudou. “Começaram a me elogiar, porque sempre preferi cuidar do meu cabelo para realçar sua beleza, o que me incentivou a começar a fotografar. Hoje, há espaço para todas as belezas no mercado. Não precisamos ficar horas na frente do espelho para obter uma imagem padrão”, diz Larissa Fernandes.

Beleza negra

Promovido desde 2012, o concurso “Beleza Negra: Despertando Talentos” chega à quarta edição em 2016, reforçando o propósito de valorizar a autoestima das mulheres negras de Uberlândia e região, por meio da celebração da cultura e estética negras. O evento vai ser realizado em setembro. Até chegarem à final, as candidatas assistem a oficinas e palestras, que abordam temas como autoestima, postura, passarela e cultura afro-brasileira. Informações: 9131-9725.

Compartilhamento de experiências

A necessidade de uma rede de apoio em Uberlândia fez com que Andressa Souza Santos fundasse, em maio de 2015, o grupo “Crespas e Cacheadas de Uberlândia”, que reuniu cerca de 50 mulheres na praça Sérgio Pacheco para a troca de experiências, em outubro do ano passado. As participantes conversam diariamente por meio de grupos criados nas redes sociais, que reúnem até 170 participantes. Hoje, as meninas se encontram pela segunda vez para celebrarem a parceria, responsável pela autoafirmação diária da beleza natural.

“Me mudei de Brasília para Uberlândia em 2014 e senti falta de compartilhar o que eu estava vivendo com outras mulheres pretas, essa imensa alegria que é se olhar e se gostar. Depois que criei o grupo, recebi e recebo várias meninas. Elas sentiam muita falta disso por aqui”, diz Andressa. A bandeira do movimento é usar o cabelo natural como arma para combater o racismo. “Buscamos empoderar a mulher preta para dialogar abertamente sobre cultura, política, estética e educação”, diz a maquiadora. A perspectiva dela é que os encontros presenciais do grupo passem de anuais e mensais.

Cuidados com os cabelos crespos e cacheados

– A hidratação é o principal procedimento de tratamento para manter os cabelos viçosos
– Entre as opções de hidratação estão métodos caseiros, feitos com maisena e frutas
– A umectação também é um procedimento indicado, com óleos vegetais (não minerais), como óleo de rícino, óleo de coco, entre outros
– Os óleos também podem ser usados combinados aos cremes e máscaras
– A pomada Bepantol para hidratar e regenerar os cabelos, ou aplicando diretamente nos fios, como um leave-in, ou misturando o equivalente a uma tampa no shampoo e condicionador de uso frequente

Marcas especializados disponíveis no mercado

Lola Cosméticos
Yamasterol
Salon Line
Casulão
Novex
Tra Tra Brasil
Kanechom
Monange

Serviço

Hoje, a partir das 14h, na praça Sérgio Pacheco, região central de Uberlândia, acontece o 2º Encontro de Crespas e Cacheadas. O evento conta com roda de conversa, feira de artesanato com empreendedores negros, piquenique e exposição do grupo artístico “Pipa Azul”. Entrada franca. Informações: 99322-8941 e 99195-9450.

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