Sociedade machista e violenta “estupra as mulheres”, diz representante da ONU

Autor: Data da postagem: 16:00 30/05/2016 Visualizacões: 942
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Foto: Reprodução

O Brasil é o quinto país do mundo em número de assassinatos de mulheres por razões de gênero, o chamado feminicídio, em um ranking que inclui os 83 países que dispõem de estatísticas de violência contra a mulher.

Pelo menos 50 mil brasileiras denuncias casos de estupro anualmente. Para a representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, esse número revela “uma sociedade muito machista, muito violenta, que assedia e estupra as mulheres”.

Em entrevista à BBC, ela disse ainda que o país tem boas leis, mas elas não são colocadas em prática com a força necessária.

Confira alguns trechos da entrevista de Nadine Gasman dada à BBC:

BBC Brasil – O Brasil é o quinto país do mundo em número de feminicídios, a frente de muitos países considerados, no senso comum, mais violentos. Como a senhora explica isso?

Nadine Gasman – De 2013 para 2015, o Brasil passou de sétimo para quinto lugar. Apenas os países que têm dados sobre assassinatos de mulheres fazem parte da lista, mas, sim, é verdade, o país está à frente de muitos outros. E os números são muito fortes. São 50 mil agredidas sexualmente a cada ano. E esse número é o das mulheres que notificam a agressão – porque trabalhamos com a estimativa de que apenas um terço das vítimas registra ocorrência. Há uma semana mais ou menos, a (ONG) Actionaid lançou uma pesquisa segundo a qual 86% – vejam bem, oitenta e seis por cento – das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio. Esses números mostram uma sociedade muito machista, muito violenta, que assedia e estupra as mulheres. O caso da menina de Bom Jesus, no Piauí, e o da menina do Rio de Janeiro são crimes muito bárbaros, que demonstram um desprezo grande pela vida, pelo corpo e pela sexualidade das mulheres. No caso do Rio, 33 homens estupram uma jovem e tiram fotos, fazem daquilo uma festa. E postam nas redes sociais, revelando uma total falta de consciência de que cometiam um crime.

>> Existe uma imagem, tanto nacional quanto internacional, de que o Brasil é um país mais liberal no que diz respeito aos costumes, às mulheres.

Eu acho que depende muito do que as pessoas classificam como liberdade. Existe uma mídia que apresenta a mulher brasileira como objeto sexual, com todos os preconceitos e estereótipos possíveis – mas pode haver uma leitura imprópria de que isso é liberdade. Se 86% das mulheres brasileiras dizem já ter sofrido algum tipo de assédio, que liberdade é essa que elas têm de andar pelas ruas, de ocupar espaços públicos? Acho que essa imagem que se criou não corresponde à vida real das mulheres brasileiras.

A senhora acha que existe uma cultura do estupro no Brasil?

Sim, acho que o Brasil tem uma cultura machista muito forte, uma cultura sexista muito forte e uma cultura de estupro. O estupro é aceito pelos homens e não reconhecido por muitos como uma violação extrema dos direitos da mulher. Por isso estamos lançando agora a campanha “Eles por Elas”, para que os homens se posicionem também, não se calem diante de situações de violência, não compartilhem vídeos como o do estupro dessa moça. Eles precisam entender que, com esses gestos, perpetuam a cultura do estupro. Que precisam se comprometer a deter essa barbárie, que usem os espaços que têm para conscientizar outros homens. É especialmente importante que se engajem.

A violência contra a mulher é naturalizada no Brasil?

Sim, de muitas formas. Temos uma sociedade que aceita o machismo, a desigualdade entre homens e mulheres, em que a questão da igualdade de gênero não faz parte da cultura. O tema não é tratado nas escolas com a profundidade que deveria. A escola é o espaço para socializar meninos e meninas numa cultura de igualdade, respeito, tolerância. A mídia, por sua vez, banaliza o tema do estupro, do crime. O país tem uma boa resposta em termos de leis, mas elas não são implementadas com a força e a decisão necessárias. E tem até casos extremos de apologia ao estupro. É essa sociedade que perpetua a cultura machista e sexista.

É por isso que, frequentemente, as vítimas são apontadas como culpadas?

Sim, é parte da mesma cultura machista e sexista botar a toda a culpa na vítima: o que ela estava fazendo lá, por que estava vestida de tal jeito. Esse discurso é uma forma de desprezar o direito dela de estar onde quiser, de vestir o que quiser e, ao mesmo tempo, de não assumir a sua própria responsabilidade pelo ataque.

Chamou a atenção na posse do novo governo interino o fato de só haver homens no ministério de Michel Temer. A falta de representação política contribui para essa situação?

A falta de representação política é resultado dessa mesma cultura. Obviamente que se tivermos maior representação de mulheres nos empregos públicos e privados, nas empresas, no Congresso Nacional, nos ministérios, isso muda a forma com que os homens se relacionam no espaço público e no poder. E quando tem muitas mulheres e muitas mulheres comprometidas com os direitos da mulher isso também muda a forma como a política é feita, como as instituições se organizam.

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