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Por que não nos curvamos a Lourdes Basílio, dama negra do palco no DF?

Autor: Sérgio Maggio Data da postagem: 16:00 26/07/2017 Visualizacões: 747
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Lourdes Basílio, altiva e dona de uma cultura impressionante, aos 95 anos era modelo de agência / Foto: Reprodução

Moro há 16 anos no Distrito Federal: 12 anos no Plano Piloto; quatro em Samambaia. É muito diferente morar fora do tal quadradinho. As possibilidades se abrem. Sinto-me, por vezes, como um passarinho fugido do viveiro. E foi voando sobre outras paisagens que percebi o quão elitista era o pensamento dominante dos residentes das asas do avião: muitos acreditam que o mundo gira em torno do Eixo Monumental

Hoje, fazendo teatro pelas cidades do DF e dando fluxo à pesquisa aprofundada sobre o teatro brasiliense, vejo nitidamente como tentaram silenciar a arte das regiões administrativas. São páginas em branco, nunca escritas, sobre intérpretes e grupos que levantaram suas vozes fora dos palcos ditos nobres.

Neste mês, descobri a existência de Lourdes Basílio, 95 anos, quando fiquei diante do curta-metragem “Taguatinga em Pé de Guerra”, feito em 1982 por Armando Lacerda. Assisti umas cinco vezes para apreciar melhor a altivez dessa atriz absolutamente forte em cena. Ela aparece alguns minutos e é como uma luz. Queria escrever sobre ela, e foi quando soube que a atriz tinha morrido havia cinco dias (12/7).

Não houve uma linha sequer sobre a morte de Lourdes Basílio na mídia do DF (falo inclusive do jovem, corajoso e democrático site Metrópoles, que abre esse espaço para eu contar a história do teatro, quebrando o ponto de vista hegemônico de Brasília). Nem uma nota da Secretaria de Cultura do DF, que não ergueu um banco de memória dos seus artistas. Ninguém repercutiu a morte dessa dama negra de 95 anos, bilíngue, modelo, cantora, periférica e histórica. Por quê?

Não há dúvidas que a origem está no silenciamento dos meios de comunicação oficiais e das estruturas de poder que, desde 1964, viraram às costas para as produções além Plano Piloto. Ali, em plena atividade durante a ditadura militar, Lourdes Basílio e seus pares não eram notícias. Ela fez teatro até os anos 1990 e viajou com algumas produções pelo Brasil. Integrou o Mambembão, extinto e prestigiado projeto do Serviço Nacional de Teatro (hoje, Funarte) e foi tantas vezes ao Rio.

"Esse silêncio tem a ver com o fato de mamãe ser negra e da periferia. Está ligada ao fato do DF não ter uma política de valorização do teatro. O talento dela foi pouco aproveitado" - Edna Lima, filha e mestra em capoeira

"Lourdes Basílio era uma atriz que se estivesse nos Estados Unidos ou até no Rio de Janeiro seria tratada como uma dama. Fizemos uma peça na qual ela cantava uma música para o povo de Angola e aquilo era fortíssimo"
- Isaias Pimentel, diretor da peça “Coisas Nossas”, de 1983

Lourdes Basílio foi dirigida por Humberto Pedrancini em “Capital Esperança”, espetáculo-marco do DF nos anos 1970, e tida como uma das grandes promessas da arte cênica candanga. Integrou o grupo Carroça e foi levada ao teatro por Cleber Loureiro.

"Ela tinha uma presença marcante que se ampliava e se irradiava no palco. Tinha o porte de uma rainha, era dona de uma gargalhada deliciosa. Funcionava como nosso suporte moral"
- Humberto Pedrancini

Pedrancini a visitou dois meses antes de sua morte. Rememoraram a peça, as histórias de bastidores e deram gargalhadas dos casos vividos nas coxias. Integrante do grupo O Hierofante, Wellington Abreu lembra-se de ter dado aulas de exercícios físicos a Lourdes — a pedido de Edna Lima, já sediada em Nova York.

"Quando cheguei em sua casa na QNJ, em Taguatinga, fui surpreendido por uma mulher negra, linda e com mais energia do que eu e a torcida do Flamengo juntos. Dona Lourdes adorava falar italiano, dançar, jogar capoeira e comentar sobre sua vida"
- Wellington Abreu

A pedido de Lourdes, Wellington levou diversas vezes para Nova York bolinhos da vovó feitos para a amada filha.

História de cinema
Lourdes Basílio nasceu em Bebedouros (SP) e foi adotada por italianos. Só veio  a falar português aos 7 anos, quando entrou na escola para ser alfabetizada. A família vivia bem e a menina tinha uma vida confortável. A propriedade era produtora de café e prosperava até que tudo foi interrompido subitamente. Um contador inescrupuloso, homem de confiança, deixou todos na miséria. O patriarca italiano não suportou a traição e cometeu suicídio. Os destinos de todos, então, alteraram-se profundamente.

“Não havia mais como viver mais ali. Mamãe apressou-se em casar com um colono da fazenda e veio morar em São Carlos [SP]. Com dificuldades financeiras, ele veio sozinho atrás do el dorado prometido com a construção de Brasília. Tempos depois, voltou e quis levar a família. Ela resistiu, mas veio!”, conta Edna Lima.

Aqui, moraram no Guará, no Gama e em Taguatinga. No começo da Universidade de Brasília (UnB), os dois foram contratados. Ele, motorista; ela, enfermeira. Era o tempo terrível das invasões no campus perpetradas pela ditadura militar. Lourdes ficou amiga de muitos alunos e professores, alguns estrangeiros tidos como comunistas, e os ajudou a se esconderem da repressão.

Uma vez, salvou um professor que ficou para trás do cerco militar. Nos segundos de desespero, ela arranjou um jaleco branco de servente, deu uma vassoura e um balde, pediu para ele baixar a cabeça e varrer a sala. O Exército entrou e nem desconfiou de nada.

"Tempos depois, a UnB ofereceu a ela uma regularização do contrato. Lourdes fez o acordo, saiu e foi readmitida. Logo em seguida, foi dispensada. Uma fraude"
- Edna Lima

Vocação de menina
Desde menina Lourdes Basílio queria ser atriz e cantora. A mãe italiana discordava. Achava que aquilo era coisa para mulheres mundanas. Quando chegou ao DF, o sonho virou realidade, primeiramente no Guará, onde fez uma série de oficinas de teatro. Era dona de uma cultura impressionante.

“Realizei os sonhos dela. Fomos duas vezes à Europa. Na segunda, na Itália, a terra dos pais adotivos. Chegamos ao Vaticano no dia em que anunciaram a escolha do Papa Francisco. De repente, a praça ficou lotada e não tinha como atravessar com mamãe, aos 90 anos. A Guarda do Vaticano nos escoltou. Eu brincava dizendo ‘mamãe essas pessoas vieram te ver’. Ela atravessou a multidão como uma rainha”, orgulha-se Edna Lima.

Lourdes Basílio fez teatro até os anos 1990. Integrou o grupo Malcom X, com atores das cidades do DF e do Plano Piloto. Com a profissionalização do teatro brasiliense, os amadores perderam o espaço porque as verbas passaram a ser canalizadas por artistas cujos trabalhos eram mais palatáveis para o gosto do brasiliense do Plano Piloto.

A morte invisível desta grande mulher nos leva a pensar o que estamos fazendo com a memória de uma Brasília tão nova. Esquecemos de reverenciar Lourdes Basílio, a dama negra. Seguimos a vida carregando a nossa incapacidade de remexer e cultuar a cultura semeada aqui.

"Não deram voz a Lourdes Basílio. E eu, tardiamente, peço licença, sobretudo a família, para registrar a sua importância. Curvo-me ao seu talento, como um súdito que se deita ao chão diante de uma rainha, mesmo sem nunca tê-la visto no palco. Evoé, Lourdes Basílio! Perdão em nome de todos"
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