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"Nós, lésbicas, seguimos fetichizadas nas ruas e na mídia"

Autor: Tory Oliveira Data da postagem: 16:30 30/08/2017 Visualizacões: 595
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'A sociedade patriarcal só acredita no modelo heteronormativo de afeto' / Foto: Carta Capital

Em meio ao avanço da onda conservadora, mulheres homossexuais pedem visibilidade e respeito

Em geral vistas pela sociedade por meio das lentes do ódio ou do fetiche, as mulheres lésbicas buscam visibilidade em meio à crise política, à perda de direitos e à onda conservadora.

Há 21 anos, um coletivo de mulheres resolveu questionar a invisibilidade deste setor da sociedade, recorrente até mesmo em espaços progressistas, por meio do primeiro Seminário Nacional de Lésbicas, realizado no Rio de Janeiro. A data, 29 de agosto, ficou marcada como o Dia da Visibilidade Lésbica. De lá para cá, não houve avanços expressivos nas demandas e nos desafios enfrentados por elas.

"Seguimos fetichizadas nas ruas e na mídia e a nossa sexualidade segue sendo infantilizada e banalizada, uma vez que a sociedade patriarcal só acredita no modelo heteronormativo de relação e afeto. Tal modelo legitima assédios, violências e a nossa total invisibilização, colocando, desta forma, nossas vidas em risco a todo momento", explica Natalia Pinheiro, 27 anos.

No continente americano, a violência contra lésbicas é movida principalmente pela misoginia e a desigualdade de gênero, como constatado historicamente nos relatórios sobre o tema produzidos pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Entre as violências registradas estão o "estupro corretivo", isto é, a violência sexual que objetiva "mudar" a orientação sexual da vítima, agressões devido a demonstrações públicas de afeto e internações forçadas visando "converter" a orientação sexual das vítimas.

Publicitária e produtora cultural, Pinheiro foi uma das organizadoras, ao lado de sua companheira Bru Isumavut, do Dyke Fest, festival lésbico feminista que reuniu bandas e promoveu discussões em São Paulo, no domingo 27, sobre os preconceitos que atingem essa população.

Confira a entrevista:  

CartaCapital: Como surgiu a ideia de organizar o Dyke Fest?

Natalia Pinheiro: Trabalho com projetos desse tipo há alguns anos. No ano passado, estava organizando o festival Maria Bonita Fest, junto com outras mulheres. Mas, em um determinado momento, por falta de tempo tive que priorizar alguns espaços e pautas, depois da experiência de construir um festival autônomo com foco em hardcore e punk rock, decidi junto com a minha companheira, montar o Dyke Fest, um festival lésbico feminista idealizado e realizado por mulheres lésbicas para fortalecer a cena underground LGBT.

Qual é a importância do Mês da Visibilidade Lésbica?

A importância da data remete a 29 de agosto de 1996, quando ocorreu o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas no Rio de Janeiro, realizado pelo Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (COLERJ). A partir desta data, o dia nacional da Visibilidade Lésbica foi instaurado pelas ativistas presentes e, desde então, ativistas de lugares e ideais diferentes se unem em atos e atividades no Brasil inteiro. Muitas pautas discutidas em reuniões e também em marcha permanecem as mesmas. 

Por que é necessário apontar para a questão a invisibilidade?

Não possuímos dados precisos e de fontes confiáveis sobre a nossa situação que possa evidenciar a realidade inquestionável da violência que presenciamos no espaço público e privado todos os dias. É assim que a nossa invisibilidade se inicia.

Se não existem dados sobre a violência e a nossa condição social, não conseguimos criar justificativas para a implementação de políticas públicas ou qualquer tipo de ação direcionada para comunidade de mulheres lésbicas.

Por outro lado, seguimos sendo fetichizadas nas ruas e na mídias e nossa sexualidade segue sendo infantilizada e banalizada, pois a sociedade patriarcal só acredita no modelo heteronormativo de relação e afeto. Esse modelo legitima assédios, violências e a nossa total invisibilização, colocando a nossa vida em risco a todos os momentos.

A invisibilidade permanece mesmo em movimentos sociais, setores da esquerda ou mesmo no feminismo?

Sim, a esquerda ainda tem muita resistência em debater lesbianidade e a pauta LGBT como um todo. Em geral, criam setores que demandam a responsabilidade para algumas LGBTs, mas pouco constroem ou se preocupam realmente com a vida dessas pessoas.

Na descrição do Dyke Fest vocês citam o atual contexto político brasileiro, marcado pela retirada de direitos e o avanço da extrema-direita e da bancada religiosa. Como este cenário impacta a mulher lésbica?

As mulheres lésbicas são expostas a diversas formas de violência (físicas e psicológicas), mecanismos de exclusão na sociedade e, nas políticas públicas, ainda são pouco consideradas. A melhora das condições de vida da mulher lésbica depende do enfrentamento do sexismo e da lesbofobia que reforçam as desigualdades na sociedade brasileira.

Algumas politicas públicas que foram pautadas pelo movimento organizado de mulheres, mas, no atual cenário politico, pouco conseguimos avançar em relação a essas demandas urgentes que dizem respeito a vida de mulheres no Brasil inteiro.

Dyke Fest: festival lésbico feminista reuniu bandas e promoveu discussões sobre os preconceitos que atingem essa população / Foto: Amanda Silva Rodrigues

Quais seriam essas demandas?

Por exemplo, ampliar o acesso e melhorar a qualidade do cuidado à saúde integral das mulheres lésbicas, realizar ações de formação sobre políticas públicas e acesso aos direitos, além de encontros para articular a agenda de enfrentamento ao racismo, sexismo e lesbofobia e outras formas de discriminação.

Também seria importante incentivar a produção de estudos, pesquisas e ações de mudança voltadas para o enfrentamento da lesbofobia, combater a evasão escolar de meninas lésbicas e produzir e difundir conteúdos não-discriminatórios e não-estereotipados das mulheres nos meios de comunicação, assim como promoção do acesso igualitário aos esportes e ao fomento às produções culturais, reconhecendo seu protagonismo e realizações nesses campos.

Na sua opinião, falta atenção do poder público para as mulheres lésbicas? Quais políticas poderiam ser interessantes para esta parcela da sociedade?

Sim. Além das já citadas, precisamos pensar na sensibilização das delegacias, para que as mulheres consigam fazer denúncias e procurar algum tipo de auxilio. Também precisamos pensar em casas de acolhimento para as jovens que são expulsas de casa na adolescência. Tal acolhimento é fundamental para que essa mulher supere esse abandono e consiga reconstruir a sua vida de forma autônoma.

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