Marielle Franco me deu a chance de trans-formar

Autor: Lana de Holanda Data da postagem: 18:00 21/06/2018 Visualizacões: 1359
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Marielle Franco me deu a chance de trans-formar / Foto: Reprodução - Justificando

Era novembro de 2016, quando recebi uma mensagem da Marielle (Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, executada em março deste ano) no meu celular, querendo combinar um café. Eu a conhecia por seu trabalho em Direitos Humanos, mas não éramos amigas, tampouco próximas. Ela me conhecia por conta da minha militância enquanto mulher trans. Tinham poucos meses que eu havia começado o processo de transição de gênero, porém acabei tendo certa visibilidade, uma vez que decidi relatar algumas situações vividas no Facebook. Fui ao encontro da Mari, no qual ela me fez a proposta de ser sua assessora, e ajudar a colaborar nos assuntos referentes a gênero, no seu – então futuro – mandato parlamentar. Não pensei duas vezes e aceitei.

Na época eu era recepcionista na Anistia Internacional, e levando em conta a situação precarizada em que se encontra a maior parte das mulheres trans e travestis no Brasil, eu acreditava que seria recepcionista pelo resto da vida, mesmo cursando uma faculdade. E ser recepcionista “para sempre” ainda era uma visão otimista no meu ponto de vista, já que segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), cerca de 90% das pessoas trans acabam recorrendo à prostituição como fonte de renda¹, uma vez que são excluídas do mercado de trabalho.

Ao fazer parte do mandato da Mari, acabei me tornando a primeira pessoa trans a ser nomeada como assessora na Câmara Municipal do Rio de Janeiro². Foi uma conquista individual e ao mesmo tempo coletiva, uma vez que, após minha nomeação, outras duas mulheres trans também foram nomeadas assessoras parlamentares naquela Casa Legislativa. Éramos três transgêneros, num universo de centenas de assessores e assessoras cisgêneros (cisgênero é aquela pessoa que está em plena conformidade com o gênero que lhe foi designado ao nascer, ao contrário das pessoas transgênero).

"No Brasil, quando se é uma pessoa trans, e você consegue furar a bolha do lugar comum destinado ao seu grupo social, adquire-se um senso de responsabilidade muito grande. A gente começa a se perceber como espelho, que inspira outras garotas e garotos trans, e ao mesmo tempo como uma vitrine, onde as pessoas cis te olham na busca por defeitos e qualidades que serão automaticamente atribuídos a todo mundo que for como você. Se você é uma pessoa trans, e conseguiu um emprego formal, vão te usar como exemplo para a meritocracia. Se você é uma pessoa trans, e possui raiva e mágoa por sofrer tanta transfobia e preconceito diários, então você se torna exemplo de um grupo que muitas vezes é associado à violência e periculosidade. "

Nos últimos meses temos visto a população trans alcançar alguns direitos básicos, através do Judiciário. O Supremo Tribunal Federal determinou que agora nós podemos alterar nossos nomes e nosso gênero de forma administrativa, através dos cartórios, e sem a necessidade de laudos médicos. E o Tribunal Superior Eleitoral permitiu que as pessoas trans que ainda não conseguiram alterar seus documentos de forma definitiva, possam utilizar o nome social no título de eleitor. São conquistas importantes, mas ainda assim primárias. O direito ao nome, que é algo tão básico para qualquer ser humano (inclusive para cachorros e gatos), apenas agora começa a se mostrar como uma realidade para nós.

Na prática, apesar da decisão do STF, ainda não é tão simples. São diversos os relatos de cartórios que tem se negado a cumprir a decisão, alegando falta de conhecimento ou falta de direcionamento de como prosseguir com a alteração do nome na certidão de nascimento. Apesar da decisão do STF ter sido tomada no dia 01 de março, ainda hoje o CNJ não realizou a regulamentação de como os cartórios devem prosseguir.

"Ter o nome certo nos documentos é o que fará com que muitas vezes a pessoa trans consiga, ou não, a vaga de emprego; o aluguel da casa para morar; ser respeitada na sala de aula; ou mesmo ter seu nome respeitado em sua lápide. Qualquer pessoa trans no Brasil (seja mulher trans, homem trans, travesti, etc), já passou por algum constrangimento pelo desalinhamento entre sua aparência e o nome que carrega no RG. Muitas vezes essa falta de direito interfere, inclusive, na busca por outros direitos. Já vi pessoas desistindo de entrar com algum processo judicial contra alguma empresa ou contra outra pessoa que a prejudicou, por medo de não ter seu nome e seu gênero respeitado nas audiências, nos processos, etc. "

Segundo a ONG Transgender Europe, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo³. Na televisão, as pessoas trans são, tratadas, ainda, de forma exótica e quase sempre com algum apelo sexual. Na política o que se vê, de forma geral, são deputados, senadores, vereadores e governantes que desconhecem a população trans, e que, quando conhecem, desumanizam e objetificam, contribuindo assim para a marginalização a que estamos sujeitas e sujeitos.

Diante de tantas barreiras que ainda precisamos ultrapassar, e de tantas lutas que ainda precisam ser travadas no campo democrático, seguimos pedindo para que, por gentileza, nos chamem pelo nome certo, que nos tratem pelo gênero correto.

Marielle me deu uma chance, acreditando em mim e no que eu era capaz de contribuir com meu trabalho. Mas a imensa maioria das pessoas trans não possuem essa oportunidade rara de alguém lhe oferecer um emprego. Mesmo buscando, batendo de porta em porta, essa é uma tarefa árdua e muitas vezes humilhante. Existem muitos estereótipos entre o que esperam de uma pessoa trans e quem ela é de verdade. E são esses estereótipos que nós pretendemos romper, ressignificar, trans-formar.


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