Mestra Joana: O Maracatu e a inspiradora luta das mulheres da comunidade do Bode

Autor: Victor Augusto Data da postagem: 11:00 14/03/2019 Visualizacões: 204
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Mestra Joana da Nação do Maracatu Encanto do Pina / Imagem: Dayvison Nunes - JC Imagem - Reprodução - Blog Social 1

Quase seis séculos separam a heroína francesa Joana D’arc, a “Donzela de Orléans”, de Joana D’arc da Silva Cavalcante, primeira e única mulher a atingir o posto de Mestra de uma Nação de Maracatu Baque Virado. Conhecida como Mestra Joana, ela não luta contra forças inglesas, mas — assim como a personagem histórica — trava batalhas pela libertação das mulheres. Seu instrumento não é a espada, mas os tambores que descansam na sede da Nação do Maracatu Encanto do Pina, localizada na comunidade do Bode, no Recife.

Líder comunitária, Mestra Joana assumiu o espaço há cerca de 10 anos e criou dentro do Maracatu de Baque Virado o “Baque Mulher“. Trata-se de um movimento de empoderamento feminino que alimenta a luta das mulheres da comunidade do Bode e transborda as fronteiras nacionais através dos seus ensinamentos.

Desde que assumiu o posto, Mestra Joana somou conquistas para a comunidade. Em maio de 2015, foi reconhecida na 11ª edição do livro Mulheres que Mudaram a História de Pernambuco num ato publicado no Diário Oficial de Pernambuco. Hoje, ela viaja pelo Brasil e pelo mundo espalhando a cultura do Maracatu de Baque Virado.

“Na nossa tradição, existe essa opressão ao feminino. O machismo é muito presente, inclusive em diversos movimentos culturais. Desde que o mundo é mundo, mulher sempre foi limitada, sempre teve um espaço posto para ela. Hoje menos, mas, para a mulher, sempre foi difícil andar por si própria. Dentro do maracatu não é diferente”, afirma Mestra Joana.

Mestra Joana, a Mulher

Com família enraizada em terreiros de candomblé, Mestra Joana nasceu e criou-se no ritmo do maracatu. Seu pai, Manoel Cândido, foi diretor de apito da Nação Porto Rico e sua avó, dama de passo. A bisavó, a yalorixá Mãe Maria de Sônia, fundou em 1980, a Nação do Maracatu Encanto do Pina.

Dentro do Maracatu de Baque Virado, Mestra Joana criou o “Baque Mulher” / Imagem: Dayvison Nunes - JC Imagem

Ainda aos 18 anos, quando percebeu a falta de alternativas culturais para as jovens da comunidade, Joana D’arc começou a dar aulas de canto e dança para meninas e criou um grupo chamado Filhas do Oxum Opará. Sua trajetória, porém, não se restringe à percussão. Antes de se dedicar ao Encanto do Pina, já trabalhou de vigilante, doméstica, babá e outras atividades.

Mestra Joana alerta que, além das questões femininas, luta também contra as barreiras impostas por questões raciais e de classe: “Dentro das comunidades periféricas, as mulheres, principalmente as negras, são as que mais sofrem. Então buscamos trazê-las para as rodas de diálogo e empoderá-las com ações”.

Questionada sobre seu trabalho com os homens, ela explica que sua ações não se restringem apenas ao sexo feminino. Na música, elas tentam passar para o público masculino, através do canto, a conscientização. Na música de Joana, não é incomum ver ouvir cantorias enaltecendo a Maria da Penha, atos contra a violência e discursos sobre o empoderamento feminino e negro.

Mestra Joana e vestimentas confeccionadas pela Nação do Maracatu Encanto do Pina / Imagem: Victor Augusto

Com orgulho, Mestra Joana relata que os resultados já podem ser sentidos dentro da sua comunidade: “Durante esses 10 anos a comunidade tem mudado muito. As mulheres mudaram, as meninas, que já são vistas usando seus ‘black [power]’, não têm mais vergonha do seu cabelo solto, da sua cor. Está sendo uma transformação excelente.”

O Baque Mulher

Da inquietação com o cenário hostil e do desejo de mudança, Mestra Joana criou o “Baque Mulher”, um movimento de empoderamento feminino que nasceu no Bode e hoje tornou-se uma grande rede de 23 grupos espalhados por todo o Brasil e com “filial” até na Argentina. Outros projetos também estão ajudando no empoderamento dos moradores do Bode.

Tambor do “Baque Mulher” / Imagem: Dayvison Nunes - JC Imagem

“Minha base são as meninas da comunidade. Nesses 10 anos, vemos no olhar, nos gestos e na força delas a vontade de querer mudar, de crescer. Estamos transformando, pois somos uma das únicas chances delas para elas se empoderarem, reeducarem e conhecerem um mundo novo. E o maracatu proporciona isso”, explica Mestra Joana. Recentemente, 20 mulheres participaram do Festival dos Tambores, em Cuba.

O “Baque Mulher” não age somente dentro do ritmo; envolve uma integração do público feminino com o Encanto e o terreiro Ylê Axé Oxum Deym. Dessa forma, além dos ensaios, existem rodas de diálogos e grupos de trabalho para a confecção das roupas usadas nos desfiles carnavalescos (que são feitas a partir de materiais recicláveis), além de outras atividades.

A Luta

Mestra Joana revela que, mesmo ocupando a liderança há dez anos, ainda encontra dificuldades dentro e fora do maracatu. Apesar de ter seu papel de protagonista negado, a figura feminina sempre esteve em evidência dentro da dança. Elas sempre ocuparam o posto de rainhas, lideranças comunitárias, costureiras, passadeiras e, principalmente, foram e ainda são responsáveis por alimentar as comunidades. Mesmo sendo essenciais para o maracatu, o papel de estar à frente nunca foi dado à mulher.

Mestra Joana usa o apito para empoderar a comunidade do Bode / Imagem: Dayvison Nunes - JC Imagem

“Estar nesse posto à frente de uma nação não é fácil. Encontro muito machismo vindo de mestres e até de mulheres. Quando assumi o Encanto do Pina, há dez anos, por exemplo, houveram muitos batuqueiros que saíram, pois não aceitaram serem regidos por uma mulher“, conta Mestra Joana.

Ela explica que não luta somente contra o machismo internalizado no ritmo, mas também contra aquele que vem de fora: “Recentemente houve um ‘encontro de mestres’, e eu ficava insistindo bastante, dizendo que a reunião era de ‘mestres e mestra’, ao contrário do que era anunciado pelos organizadores. Todas as referências na mídia só citam os mestres. E essas coisas não são percebidas, pois eu sou minoria. Sou só eu e minha resistência diária. É difícil sobreviver assim. A sociedade impõe esse anonimato. Ter a mulher em determinados espaços ainda incomoda, e isso é bem nítido”, explica.

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