'Se não criarmos ações afirmativas para as mulheres negras, não há como o Brasil sair da crise', diz Luana Génot

Autor: Naíse Domingues Data da postagem: 19:00 28/03/2019 Visualizacões: 251
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Mulher negra e empreendedora, Luana Genot trabalha para promover a igualdade racial dentro de empresas / Ilustração: Lari Arantes - Divulgação - Reprodução - O Globo

Fundadora do Instituto Identidades do Brasil, ela afirma que a inclusão das negras, é um dever moral das empresas, mas também uma estratégia de crescimento

Mulher negra e empreendedora, a ex-modelo Luana Génot é fundadora do Instituto Identidades do Brasil (o ID-BR), que trabalha para inserir pessoas negras em grandes empresas. Autora do livro “Sim à igualdade racial”, baseado em sua tese de mestrado, em que discute a inclusão racial no mercado de trabalho. Em entrevista ao GLOBO, ela afirma que a solução para a crise no Brasil passa pela inclusão de mulheres negras no mercado consumidor brasileiro. 

O Globo: Como surgiu o interesse pela luta por igualdade racial? 

Luana Génot: Quando se nasce mulher negra no Brasil, as reflexões sobre a questão racial começam muito cedo. No meu caso, eu costumo dizer que me tornei negra aos 18 anos, quando tomei mais consciência sobre a temática. Eu era modelo de passarela e perdia oportunidades por ser negra, embora isso não fosse dito explicitamente, sendo chamada apenas para trabalhos "étnicos” ou “exóticos”. Fui estudar Publicidade justamente para refletir sobre o racismo. Comecei a escrever textos acadêmicos e depois fui para os EUA, onde estudei "Raça, Etnia e Mídia" e trabalhei numa agência de publicidade especializada para o público afro-americano.

Então, quando voltei para o Brasil, senti a necessidade de sair do mundo acadêmico e colocar as ideias em prática. Por isso criei o ID-BR. Na época, entrevistei algumas pessoas para o ensaio de fotos que inaugurou o instituto. Analisando as respostas, percebi que a questão racial sempre estava presente na vida do negro, mesmo quando não era verbalizada. Nós negros não sabemos quem são os nossos antepassados, e a dificuldade de autoestima foi algo decorrente nas respostas. Entendi ali que se existe um problema em ser negro, a gente precisa falar sobre ele. é um problema que afeta toda a sociedade, à medida que as pessoas não estão conseguindo explorar seus plenos potenciais no trabalho, no afeto e na autoestima.

Como é o trabalho do ID-BR?  

É um instituto sem fins lucrativos dedicado a auxiliar a promoção da igualdade racial no Brasil, sobretudo no campo do trabalho. Estabelecemos três pilares de atuação: o primeiro é a empregabilidade, em que desenvolvemos atividades dentro de empresas para construir culturas mais inclusivas, com mais profissionais negros. Esta inclusão vai além do RH; é necessário entender quais pessoas negras já compõem aquele ambiente e como é possível acelerar a carreira delas. Nós também treinamos executivos para falar sobre a questão racial, participamos de processos seletivos e fazemos grupos de trabalho para que o tema seja discutido.

O segundo pilar é a educação. Nosso trabalho é conectar instituições sociais com instituições de ensino, ou seja, mapeamos as bolsas de estudo para oferecê-las aos estudantes. Dessa forma há uma capacitação de pessoas que já são líderes comunitários em potencial. O terceiro pilar são os eventos que promovemos ao longo do ano visando pautar questões raciais na mídia e atrair a população de maneira geral. O principal deles é o prêmio “Sim à Igualdade Racial”, que reconhece as principais iniciativas em prol da promoção da igualdade racial no Brasil. Outro grande evento é o Fórum Sim Igualdade Racial, que acontece em São Paulo, e conecta funcionários negros a empresas engajadas com a temática racial.

No seu livro "Sim à Igualdade Racial" você tem uma fonte diversa de depoimentos. Qual foi a importância de ouvir pessoas tão plurais? 

Eu acredito que a pluralidade de narrativas nos dará a riqueza de que precisamos para discutir a questão racial no Brasil e para entender que ela é uma causa de todos, não só do homem e da mulher negra. Fazer com que as pessoas reflitam sobre raça é um dever do Brasil. Quando eu entrevisto a empregada doméstica, o porteiro e o CEO da empresa várias pessoas se identificam e refletem sobre a questão racial das mais diversas formas e a partir dos seus lugares de fala e das suas raças. Este é o meu objetivo.  

Como é para você ser uma mulher negra no meio empresarial?  

Existem várias questões nessa vivência. A primeira delas é uma dificuldade de enxergar o pertencimento de uma mulher negra brasileira que transita numa esfera absolutamente elitizada. Já aconteceu de eu estar na recepção de uma empresa e recepcionista me atender em outra língua. Parece irrisório, mas o fato dela atender todas as pessoas brancas em português e mudar para o inglês para falar comigo passa a mensagem de que ela não está acostumada a ver uma mulher negra e bem vestida trabalhando naquele prédio. O fato de eu não ser vista como pertencente àquele espaço é uma micro agressão; e a gente precisa atuar neste campo porque o racismo é estrutural.

No meu caso, poucas vezes eu vou encontrar alguém que me chame de “macaca”, algo que de fato se enquadre numa injúria racial, porque é um crime e as pessoas estão mais melindradas em relação a isso. Existe também uma assimetria de referências. Por exemplo, já recebi mensagens sobre o meu livro que diziam “Luana, ver uma mulher negra brasileira na capa de um livro foi surpreendente para  mim, muito obrigada”. Isso é porque não estamos acostumadas a nos ver em capas de revistas de negócios ou livros. Precisamos ampliar essas referências.

Por que o mercado de trabalho ainda é tão difícil para mulheres negras?  

Existem vários fatores que se somam em determinada medida. A base disso está na educação: temos um ensino básico público que não tem qualidade. Quando a grande maioria que não tem dinheiro para pagar um bom ensino privado é negra, este se torna um fator socioeconômico latente e prejudicial para mulheres negras. Outro fator é a falta de referências. À medida que não conseguimos nos enxergar em cargos de liderança, começamos a achar que aquilo não é para a gente, porque só nos vemos nos papéis em que vemos os nossos semelhantes atuando.

Temos algumas exceções, mas nossa história não pode ser escrita só com esses casos. Precisamos trabalhar na estrutura para que a gente consiga fazer que a entrada e a ascensão de mulheres negras no mercado de trabalho seja algo sistêmico. Precisamos entender a história do nosso país, os 400 anos de escravidão e o abandono que os negros sofreram após a abolição formal. As empresas têm que conhecer as desigualdades históricas do mercado de trabalho e reconhecer as políticas afirmativas, em especial das mulheres negras, promovendo ações que criem planos de carreira para elas. Quando isso acontecer de forma sistêmica, será mais fácil também criar nossa própria rede de contato.

Qual a importância de termos cada vez mais mulheres negras ocupando cargos de liderança? 

A população negra hoje é maioria: eu acredito que se não consumirmos, o Brasil não sairá da crise. Medidas paliativas trazem um ou outro avanço, mas se não criarmos ações de reparação e afirmativas para as mulheres negras, que são a maioria no país, não há como sair da crise. As empresas precisam entender que vai doer no bolso delas não ter as mulheres negras naquele espaço, porque vão deixar de vender para metade do país. Se não as incluo não consigo explorar o pleno potencial nem das empresas e nem da população, logo o país não cresce.

Qual o ponto de partida para que mulheres negras entrem cada vez mais no mundo empresarial? 

Já temos mulheres negras que empreendem, mas, segundo um levantamento do Sebrae, ainda existe todo um esforço para que haja a formalização delas, o que é fudamental para que os negócios delas cresçam. No empreendedorismo faltam referências para que as negras consigam ir além de eixos muito comuns entre elas como gastronomia, moda e beleza. No mercado de trabalho, eu acho que falta um olhar mais afirmativo das empresas para entenderas mulheres negras que já fazem parte do seu quadro e como transformá-las nas próximas CEOs.

Existe uma dívida histórica com os negros e, se essa mulher não for a nova CEO, em alguns anos outras mulheres como ela vão continuar sem se reconhecer e a empresa continuará sem falar com grande parte da população. Existe muito mais do que um dever moral das empresas, mas também uma estratégia de crescimento. E eu preciso de um engajamento da sociedade para que deixe de ser tabu falar sobre esse assunto. Por isso o livro existe, para que as pessoas repitam “Sim à Igualdade Racial”. É preciso que a sociedade reconheça que ações afirmativas não são esmolas ou um favor. São algo de que a sociedade precisa para crescer.

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