Morre a poeta Tula Pilar Ferreira, uma Carolina dos saraus da periferia de SP

Autor: Thais Siqueira Data da postagem: 10:14 12/04/2019 Visualizacões: 691
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Tula Pilar em evento em março de 2018 / Foto: Thamires L. Mulatinho - Divulgação - Reprodução -

Ela deixa livros, a gargalhada única e o abraço apertado, seus três filhos e o entusiasmo pela poesia e pela vida que pulsa nas quebradas. Pilar presente! Sempre!

Poeta, dançarina, atriz, ex-empregada doméstica, vendedora da revista Ocas, Tula Pilar nasceu em Leopoldina, Minas Gerais, em 1970. Quando tinha dois anos mudou-se para Belo Horizonte com a mãe e as irmãs. Aos sete, começou a ajudar a sua mãe, que era cozinheira, no trabalho, não deixando de lado a escola e as brincadeiras.

Teve a primeira filha, Samantha aos 15 anos. Continuou a trabalhar, tentou morar no Rio de Janeiro, mas aos 19 anos foi trabalhar como doméstica em São Paulo, em casa de família. Trabalhou também como passadeira, mas em um momento de dificuldade financeira acabou conhecendo o trabalho da Revista Ocas, produzindo poemas e vendendo a revista. Tula virou referência em todos os saraus da periferia da cidade.

Participou de festivais de literatura e publicou o livro “Palavras Inacadêmicas” de maneira independente em 2004 e “Sensualidade de fino trato”, publicado pelo selo do Sarau do Binho em 2017. Também teve participação em obras coletivas, como o “Negras de Lá, Negras Daqui”, lançado em fevereiro deste ano.

Mãe solo com três filhos, Pilar, vê sua trajetória muito parecida com Carolina de Jesus. Lançou o “Cadin de coisa”, sarau que mistura culinária mineira e arte.

“Sou uma Carolina”, por Tula Pilar Ferreira

“Sou uma Carolina
Trabalhei desde menina
Na infância lavei, passei, engraxei…
Filhos dos outros embalei

Sou negra escritora que virou notícias nos jornais
Foi do Quarto de Despejo aos programas de TV

Sou uma Carolina
Escrevo desde menina
Meus textos foram rasgados, amassados, pisoteados
Foram tantos beliscões
Pelas bandas lá de Minas
Eu sou de Minas Gerais

Fugi da casa da patroa
Vassoura não quero ver mais
A caneta é meu troféu
Borda as palavras no papel
É tudo o que quero dizer

Sou uma Carolina
Feminino e poesia
A negra escritora que foi do Quarto de Despejo
aos programas na TV

Hoje uso salto alto
Vestido decotado, meio curto e com babados
Estou na sala de estar
No meu sofá aveludado

Porque…

Sou uma Carolina
Feminino e poesia
Pobreza não quero mais
A caneta é meu troféu
Borda as palavras no papel
É tudo o que quero dizer…

Carolina…”

Tula Pilar conquistou o respeito e admiração de muitos artistas e coletivos do cenário da cultura periférica de São Paulo, por suas poesias, obras e intervenções artísticas, que davam evidência a história de Carolina Maria de Jesus.

Autora dos livros “Palavras Inacadêmicas”, produzido de forma independente em 2004, e “Sensualidade de fino trato”, publicado pelo selo do Sarau do Binho em 2017, Tula pilar faleceu nessa tarde de quinta-feira (11), devido um ataque cardíaco. Segundo amigos da família, Tula já chegou a Unidade de Pronto Atendimento Akira Tada em Taboão da Serra, Grande São Paulo, sem vida.

A escritora fazia questão de interpretar e resgatar com dedicação e sensibilidade a trajetória da escritora Carolina Maria de Jesus, da qual, sempre enfatizou a semelhança com a sua própria história de vida.

A escritora também teve participação em obras coletivas, como o “Negras de Lá, Negras Daqui”, lançado em fevereiro deste ano. Recentemente, ela teve parte de sua história de vida retratada em um perfil literário, publicado em 2018, por meio do livro“Identidade e Força Ancestral: Histórias de mulheres dentro da periferiade São Paulo” – que aborda os fazeres femininos dentro dos territórios periféricos da capital paulista.

O livro escrito pelas jornalistas Brenda Torres e Sabrina Nascimento, contou inclusive com a participação de Tula Pilar em uma roda de conversa de lançamento da obra, realizada no último domingo (7), na Livraria Cultura, na região central da cidade.

Com a partida da escritora, familiares e amigos organizam uma campanha para arrecadar doações, que visam pagar as despesas funerárias. Os interessados podem contribuir por meio dos dados bancários abaixo pertencente filha da autora:

Samantha Pilar Ferreira 

Caixa Econômica Federal 

Agência:0357 

Operação: 013 

Conta Poupança: 0000 1062-0 

CPF: 363319688 90

Conheça um trecho do livro “Identidade e Força Ancestral: histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo“, que intitula o capítulo da escritora de “TULA PILAR – RESISTÊNCIA”. 

Sua jornada se assemelha, e muito, com a de Carolina Maria de Jesus, uma de suas maiores referências. Assim como a de tantas outras mulheres brasileiras que permanecem lutando, diariamente, contra opressões e impedimentos que são justificados com base em uma estrutura racista e misógina. Inclusive observamos que quando fala em Carolina, talvez, Tula esteja falando de si mesma.

Negra com traços fortes, normalmente usando roupas que destacam sua pele e seu sorriso largo, ela não espera por perguntas e se solta para se apresentar sem eira nem beira, sempre com o astral lá em cima.

Sua história tem início em Minas Gerais. Sua mãe, Dona Antônia, era cozinheira, lavadeira e diarista conhecida em Belo Horizonte. Mãe solo de sete meninas, morava na favela Alto do Minério e como a casa da patroa era longe, Tula e as irmãs passaram a viver na casa onde a mãe trabalhava para não ficarem sozinhas.

Em seus poemas entoa, que: a caneta é seu troféu, que quer bordar as palavras no papel e tudo o que quiser dizer. Porque é hora de rufar os tambores e ouvir os rumores: poder e voz para as mulheres negras. Tula é poesia, uma garota ousada e seus pés a levam para onde quer ir, para onde possa sonhar.

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