‘The Resident’: Mulheres negras têm mais chance de morrer no parto do que mulheres brancas

Autor: Fernando Martins Data da postagem: 15:00 13/05/2019 Visualizacões: 249
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Caso baseado em fatos reais foi tema de episódio em "The Resident" / Foto: Divulgação - Reprodução - Folha PE

Séries médicas abordam temas sociais com maior frequência e teor comovente

Existem assuntos que por se tornarem populares nas rodas de conversa acabam sendo reproduzidos em histórias televisivas. Desigualdade de gênero, racismo e violência contra a mulher estão sendo discutidos – felizmente – com maior frequência dentro e fora da TV.

Programas que contam histórias comuns estão carregados de dramas que regulam as emoções das pessoas. Por isso, é natural que fiquemos mais sensíveis com séries ou filmes que optam por esse estilo de narrativa. Somos empáticos com aquilo que costumamos ver ao nosso redor. O ato de se colocar no lugar do outro pode ser um artifício de roteiristas para humanizar personagens fictícios, mas também pode ser usado como incentivo para que nos tornemos, na vida real, agentes de mudança.

Um subgênero que utiliza bastante a técnica de humanização de personagens são as séries médicas, como “Grey’s Anatomy”, “The Good Doctor”, “House” e “The Resident”. O que todas elas têm em comum é a narrativa direcionada para assuntos político-sociais, como homofobia e assédio sexual, por exemplo. Geralmente ambientadas em emergências hospitalares com um fluxo de vítimas e enfermidades, essas produções dispõem de uma infinidade de opções para exemplificar situações próximas dos telespectadores.

Com o Dia das Mães se aproximando, a coluna desta sexta-feira (10) é uma reflexão sobre o vigésimo episódio da segunda temporada de “The Resident”, baseado em fatos reais. A partir de agora esse texto contém spoilers da série. Continuar a ler é por sua conta e risco.

A recente “The Resident”, do canal Fox, tem a mesma receita das demais: são médicos em suas rotinas agitadas, que precisam lidar com problemas pessoais e profissionais. Criada por Amy Holden JonesHayley Schore e Roshan Sethi, a história tem seu diferencial quando iguala o tempo de tela entre cirurgiões, enfermeiros e pacientes. Há uma melhora significativa da primeira para a segunda temporada, que teve seu fim na última segunda-feira, com tramas intensas e evoluções significativas no comportamento de alguns personagens. O ponto alto está no episódio “If Not Now, Then?”, transmitido no final de abril.

Embora, no episódio 20, os arcos caminhassem para o fim, a apresentação de um caso novo foi o verdadeiro protagonista da semana. Tudo começa com a entrada de Lia no hospital, ela está grávida e com contrações fortes. Diante de problemas com o parto normal, o médico responsável optou por fazer uma cesariana, mas tudo ocorreu bem. O drama dá início quando a paciente volta a sentir dor, já instalada no quarto de visitas. Ninguém aparece. A angústia do marido e os pedidos para que alguém pudesse ajudar são ignorados por muito tempo.

Horas depois, quando a situação se agrava o bastante para se tornar irreversível, o cirurgião de Lia entra no quarto e se choca: a paciente estava com hemorragia interna. Toda a pressa do mundo para que a mãe retornasse para a sala de cirurgia não foi suficiente e ela morre na mesa de operação. A essa altura a pergunta que pairava era sobre a credibilidade dos profissionais do hospital em não prestar a atenção devida no pós-operatório, mas a situação vai mais além. Lia era uma mulher negra e a equipe responsável pelo seu parto era predominantemente branca. “Pergunte a si mesmo, isso teria acontecido se Lia não fosse negra?”, diz um dos personagens.

Esse pode ser considerado o episódio de maior carga emocional da série. A trama reflete a triste realidade do sistema médico americano, onde 700 mulheres morrem relacionadas ao parto negligenciado, sendo 243% a probabilidade para mães negras, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

Brasil

Embora a crítica em “The Resident” exponha um problema dos Estados Unidos, o Brasil não fica atrás quando o assunto é segregação racial. Segundo a Agência Brasil, em 2018, mais da metade (54,1%) das mortes maternas no País ocorrem entre as mulheres negras de 15 a 29 anos. Garotas recebem pouca ou nenhuma atenção médica ou medicamentos para dor pelo simples fato de não serem brancas.

Despertar a empatia dita no começo quando o racismo está naturalizado na sociedade é difícil. A conscientização cultural é necessária desde a graduação até a inserção no mercado de trabalho. Para os profissionais de saúde, os procedimentos não podem ser a única coisa a serem exercitados. São seres humanos, que merecem receber auxilio igualitário sem desprezo.

Como expressado na série, por mais que os números assustem, eles são apenas números. Não há como compreender a gravidade do problema se não convertermos a estatística em pessoas, histórias de vida. Erros existem para serem corrigidos e é essencial que os órgãos de educação se façam a pergunta que é o título desse episódio: “Se não agora, quando?”.

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