"Diversidade quer dizer negócio", diz Alexandra Loras, ex-consulesa da França

Autor: Camila Maccari Data da postagem: 18:00 12/06/2019 Visualizacões: 391
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Alexandra Loras atua como jornalista e é mestre em gestão de mídia/Imagem: Reprodução - Donna Gente

Francesa passou pelo Estado para participar de evento em Gramado e falou sobre racismo, capitalismo, inclusão das mulheres e política

Em pouco mais de sete anos vivendo no Brasil, Alexandra Loras virou referência em pautas que abordam racismo, diversidade e igualdade em organizações. Jornalista e mestre em gestão de mídia, chegou ao país em 2012, acompanhando o marido Damien Loras, que assumia o consulado francês. Com o fim da missão diplomática, decidiram ficar por aqui junto do filho e continuar o trabalho que busca conscientizar e trazer equilíbrio étnico-racial dentro de organizações. Em 2018, sua plataforma digital Protagonizo, que fazia a ligação entre profissionais negros e oportunidades em multinacionais, ficou entre os finalistas na categoria Utilidade Pública/Inclusão Social no Prêmio Tela Viva Móvel depois de beneficiar mais de 450 pessoas.

– Por inúmeros motivos, as empresas preferem ser racistas do que capitalistas.

Depois de Gramado, abriu espaço na agenda para o VTEX Day, um dos maiores encontros de negócios digitais do mundo, do qual é embaixadora. Em seguida rumou para Tokyo, para o G(irls)20, que reúne adolescentes líderes e empreendedoras do mundo inteiro. Recentemente, esteve em Abu Dhabi, para falar com mulheres empreendedoras: 

 – Foi muito legal e eu pude ver, também, meu próprio preconceito. Eram centenas de mulheres usando a burca e eu fiquei surpresa em vê-las empreendendo e movimentando as redes sociais com discursos cheios de sororidade. 
 

Em uma conversa por telefone com a revista Donna, Alexandra fala sobre sua relação com o Brasil, feminismo e seu trabalho pela construção de ambientes mais diversos:

– A mim me interessa muito mais poder trabalhar com um Bolsonaro, com um Alckmin, com pessoas que têm poder sobre a sociedade, do que de ficar conversando com uma militância negra que concorda comigo. Prefiro trabalhar com as pessoas que têm vieses inconscientes para elevar o debate – afirma. 

Como é que você vê o mercado de luxo? Existe uma comunicação inclusiva? 

Tento conscientizar marcas a perceberem que, muitas vezes, elas preferem ser racistas do que capitalistas. A partir das palestras, mostro que o Brasil é diverso, com 114 milhões de negros que consomem R$ 1,7 trilhão por ano. Mas a comunicação do Brasil sempre relatou o negro sendo favelado, pobre, analfabeto funcional, criminoso, estereótipos que impedem que as empresas do mercado de luxo percebam que grande parte dos seus consumidores são pessoas negras, as que mais cresceram nas classes A e B nesses 10 últimos anos. Com o mercado afro crescendo, uma pesquisa da Mackenzie mostrou que as multinacionais que apostaram em diversidade conseguiram uma rentabilidade 35% maior, e isso é porque elas se posicionaram alinhadas com a diversidade brasileira. Hoje, diversidade quer dizer negócio, e eu acompanho marcas nesse processo de posicionamento dentro desse novo mercado – que sempre existiu mas que era ignorado. Um exemplo é uma marca de cerveja com a qual trabalhei, que não tinha se dado conta de que 42% dos consumidores de cerveja são mulheres. Acho que estamos em um momento sensacional de mudança, com marcas que possuem uma inteligência emocional extremamente forte para se reposicionar, se reinventar, repensar a sociedade, melhorar de forma exponencial, colocar em prática o assunto da transformação. 

Essa predisposição à mudança também é resultado do poder que vem de manifestações em redes sociais?

Também e acho que isso se fortaleceu muito agora com o episódio da Donata Meirelles, que trouxe uma conscientização nacional sobre um assunto que precisava ser debatido. E agora eu vejo um aumento de 600% da presença da mulher negra na revista Vogue, por exemplo. As comunicações de grandes marcas hoje já fazem catálogos só com pessoas negras, sendo que até esses dias tinha uma asiática e uma negra do lado da loira, como acessórios, justificando um politicamente correto. Hoje existe realmente um posicionamento mais radical para tentar reparar uma dor histórica, e o marketing tem acertado bem mais. Vejo uma linda mudança de conscientização. Alguns falam que é efeito de moda, mas acho que vai além. Uma menina negra que se enxerga nessa publicidade vai se empoderar, vai ver que é capaz de chegar lá e vai se desprender da narrativa da novela onde ela só ocupa papel de faxineira. E esse movimento vai influenciar também nessas novelas, em seus roteiros. Assim vamos construindo uma sociedade melhor na sua dinâmica igualitária e democrática.

Você está no Brasil desde 2012 e vem acompanhando a movimentação do cenário político, econômico e social brasileiro. Percebe uma polarização de pautas como racismo e feminismo como movimentos de esquerda?

Acho que é normal enfrentarmos um momento de rejeição quando queremos quebrar um paradigma e mudar a sociedade, mas acho que esse momento já foi superado quando falamos de pautas como feminismo e racismo. Sempre olho o exemplo do formato da Terra: quando falaram que era redonda, pessoas foram queimadas porque o mundo achava que a terra era plana – claro, agora estamos com nova movimentação de pessoas que falam que a Terra é plana. Pode ser que no início as pessoas rejeitem uma pauta, mas, por exemplo, meu empoderamento feminino aconteceu no Brasil, descobri que o feminismo aqui tem muito mais sororidade e conteúdo fora da caixa, é muito mais inclusivo do que no meu próprio país, onde tem todo o pensamento da Simone de Beauvoir. Sou muito inspirada pelas feministas brasileiras, inclusive por uma de Porto Alegre, a Deb Xavier, que criou o Jogo de Damas. Essa síndrome brasileira do vira-lata impede que o país reconheça e valorize a sua produção intelectual, que é extremamente importante para a nossa época. Por isso também que escolhi esse país: ele mexeu muito comigo e gosto de mexer com ele. 

Você foi uma das criadoras do Plano de Menina e agora é embaixadora do projeto que conecta meninas a mulheres que fazem a diferença na sociedade. Qual a importância de se pensar nessas ações diretas de empoderamento?

É muito importante porque, muitas vezes, essas meninas encontram uma toxicidade cultural dentro das próprias famílias. Por exemplo, elas expressam o desejo de serem dentistas ou advogadas e escutam coisas do tipo "Você já viu uma dentista negra? Ou uma advogada negra? Não é pra gente". Ou seja, são meninas cheias de sonho, mas cercadas por pessoas que dizem que ela não pode chegar lá. Nosso trabalho é empoderar e fazer um coaching para ajudá-las e definir como se pode realizar esse sonho. O Plano de Menina propõe estabelecer um plano para que ela possa aplicar nas melhores universidades, ter segurança para se apresentar. O projeto é lindo e é uma transformação incrível: no início tem meninas que quase não conseguem falar de tão tímidas que, quando desenvolvemos a dinâmica, chegamos a levá-las a um parque e fazer um míni TED Talks, quando elas subiram em um palco e contaram suas histórias de vida. O trabalho feito com as facilitadoras é impressionante porque nesse momento você quase não as reconhece. É incrível ver como elas se sentem empoderadas e como isso as transforma. 

Mais para frente, o empoderamento ajuda a quebrar o teto de vidro que as mulheres vivem no mercado de trabalho? 

Nas minhas palestras de empoderamento feminino, eu mostro que, nos últimos 20 anos, as mulheres saem mais diplomadas do que os homens das universidades e, mesmo assim, somam apenas 6% dos executivos de empresas. É um absurdo, principalmente se você olhar a economia brasileira, onde 80% das decisões de consumo são tomadas por mulheres. As mulheres precisam perceber que a sociedade tem uma sofisticação em nos diminuir. As próprias narrativas de princesa, que nos colocam, desde pequenas, que temos que colocar todos os nossos talentos à disposição de um homem encantado que vai resolver nossa vida: temos que ser bonitinhas, arrumadinhas, quietinhas, sem mexer no contexto dos nossos talentos porque eles não são importantes. Temos que prestar atenção para não educarmos as nossas meninas dentro desses valores. 

Entre as ações que estão em nossas mãos de fato, o que dá pra ser feito para superar esse teto de vidro e acessar os cargos de liderança dentro das empresas?

Precisamos usar as mesmas ferramentas que todas as pessoas de sucesso usam: mentoria, coaching, network. A mentoria é uma importante ferramenta, e eu sempre explico isso. A dica é fazer uma lista com cinco pessoas que a inspiram, pode ser a vizinha, o advogado, uma celebridade. Hoje, através das redes, temos acesso ao planeta inteiro. Escreva para cada uma dessas pessoas contando que você a acompanha, admira o trabalho e gostaria que ela fosse seu mentor – tudo o que você está pedindo é meia hora por mês durante alguns meses, para uma conversa. As pessoas gostam disso, pense em quando você mesma teve a oportunidade de ajudar alguém e em como esse momento foi bom. Em 10 anos, 30% dos nossos trabalhos clássicos vão desaparecer e precisamos nos reinventar, ser proativos de nossas vidas e começar uma jornada de sucesso. Quando cheguei ao Brasil, por exemplo, nunca imaginei que me tornaria essa mulher com destaque de poder subir em um palco e falar para outras mulheres. Agora, eu vejo que minha voz tem eco, mas eu fiquei quieta por 38 anos. Cada pessoa tem uma história para contar, um episódio de superação. É importante sonhar grande e ir atrás dos sonhos. 

Qual foi o momento em que você percebeu a sua voz?

Foi depois do ataque terrorista do Charlie Hebdo, orquestrado por franceses árabes e negros. Eu acordei naquele momento. Comecei a me perguntar o que aconteceu com esses franceses para que eles se tornassem terroristas, qual seu mal, qual sua dor, para que cometessem aqueles crimes. Comecei a repetir que nós, franceses e europeus, temos invadido o mundo inteiro em nome do deus católico, invadindo territórios, apagando culturas, gerando genocídios, destruindo civilizações em nome desse deus e hoje estamos chocados por ter pessoas que fazem o mesmo conosco. É preciso refletir sobre isso, criar um plano para que possamos dividir esse mundo junto, mas temos que perceber essa dor histórica que causamos, entender que a França, que invadiu muitos países e territórios, escravizando e colonizando, também é responsável por esse terrorismo.

Como é hoje? 

Sou aceita, mas sou exceção que não é aceita como tal. Sou o ato político. Por exemplo, esses tempos fui a um almoço na Fazenda Boa Vista e uma senhora da elite começou a fazer as minhas tranças voarem. Imagina se eu chegasse naquele evento e começasse a mexer nos cabelos dela? Mas é que ela não sabia lidar com a minha diferença. Não percebe que, porque o corpo negro foi objetificado por séculos, ela está tocando meu corpo achando que pode. Mas não pode. 

 

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