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Pensar o Homem Negro é um ato político

Autor: Henrique Restier Data da postagem: 17:10 25/06/2019 Visualizacões: 2185
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Pensar o Homem Negro é um ato político / Imagem: Reprodução - O Conscientizador

“Quem afinal quer ouvir, de fato, o que os homens negros têm a dizer?”

Tago Elewa Dahoma

É preciso dizer: pensar o homem negro é um ato político. É um desafio propor novas categorias de análise sobre nós onde machismo, homofobia, sexismo, auto-ódio, transfobia, masculinidade tóxica e patriarcado, a despeito de sua importância, não sejam o único repertório disponível para acessarmos as construções de nossas masculinidades.

Caio César ministra seu curso sobre masculinidades / Foto: Guito Moreto - Agência O Globo

Foi a partir desse contexto que em 2015 surgiu meu interesse pelo tema das masculinidades, as discussões em conversas informais, mas, sobretudo nas redes sociais, me trouxeram diversas inquietações. Esse desconforto se baseava não só em certas leituras baseadas em estereótipos, ressentimentos e experiências pessoais negativas, tidas como gerais, como também em outras mais interessantes, por trazerem críticas construtivas e questionamentos sérios.

Minha entrada no debate público ocorreu em 2017 escrevendo alguns textos com o foco na masculinidade dos homens negros. Juntamente com essa iniciativa criei em maio de 2018 o curso Masculinidades negras em Foco no Rio de Janeiro voltado exclusivamente para homens negros em toda sua diversidade. Esse curso foi um divisor de águas para mim pois, baseado nas referências bibliográficas sobre o assunto, tivemos produtivos debates entre homens que estavam dispostos a entender seus processos de socialização e a se recriarem como tais. Resolvi dar sequência lançando em janeiro de 2019, o curso de verão EAD Homens Negros e Masculinidades em Foco atingindo dessa maneira um público mais amplo e diversificado, envolvendo outras experiências tanto no formato como no conteúdo. O que se mostrou muito frutífero, inclusive o módulo As Paternidades do Homem Negro, que foi inspirado em um texto de mesmo nome de minha autoria, se desdobrou em um curso próprio.

A materialização de minha reflexão e dos questionamentos surgidos nos cursos e textos que produzi, juntamente com algumas conversas com os professores Rolf Malungo de Souza e Thiago Santos nos corredores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) se deu com a ideia de um livro. Mas um livro voltado para o tema das masculinidades dos homens negros escrito pelos próprios, onde o ponto de vista privilegiado sobre nossas experiências e reflexões teóricas partiria de nós mesmos. Não mais o negro tema, mas sim o negro vida, como diria o sociólogo Guerreiro Ramos.  Isso é de suma importância uma vez que parte considerável das narrativas sobre os homens negros, com visibilidade no espaço público, não são feitas por nós.

Temos nesse livro: organizadores, editor, designer, autores, revisor, todos homens negros, de diferentes tonalidades, regionalidades, profissões e sexualidades. Da sua concepção à distribuição, toda a cadeia produtiva é composta por nós. Daí o nome: Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades.

O livro possui 08 ensaios versando sobre os mais diversos aspectos das masculinidades como: sexualidade, virilidade, saúde, transexualidade, violência, relacionamentos afetivos, subjetividade, dentre outros assuntos. Além dos ensaios, a capa, contracapa, orelha, prefácio e revisão foram produzidos por, respectivamente, Edson Ikê, Renato Noguera, Márcio André Santos, Deivison Faustino e Ricardo Riso, sem falar na Editora Ciclo Contínuo capitaneada por Marciano Ventura.

Nosso livro se configura como um marco no mercado editorial brasileiro, não só por sua grande aceitação de público, o que praticamente fez com que a primeira tiragem praticamente se esgotasse em menos de dois meses, mas fundamentalmente por apresentar uma proposta inédita e de qualidade, que subverte a noção estereotipada de que homens negros possuiriam baixa capacidade intelectual e escasso poder de realização.

Minha intenção tanto nos escritos que venho desenvolvendo ao longo dos últimos anos como na idealização do livro é pensar o homem negro com o respeito e a dignidade que merecemos. É aceitar de cabeça erguida nossas contradições, falhas e potências. É ter a audácia de pensar-nos fora de um discurso domesticado e de uma retórica do “bom-mocismo”. É fugir das tentações fáceis das narrativas dicotômicas que essencializam o homem negro nos papéis de algoz e vítima, do rancor e da apologia de uma suposta masculinidade ideal africana e afrodiaspórica. Não tenho interesse na repetição de clichês, lugares comuns e prescrições de fórmulas comportamentais tidas como “desconstruídas”. Meu compromisso está voltado para com meus ancestrais, minha família e com o conhecimento.

Meu muito obrigado a todos que acreditaram e participaram desse livro. Um agradecimento especial à minha esposa Joyce Gonçalves Restier e minha filha Manoela, ao professor Rolf Malungo de Souza uma referência incontornável da temática no Brasil e que organizou o livro junto comigo, ao também professor Osmundo Pinho, grande teórico sobre o assunto, que cedeu seu artigo para tradução feita pelo professor Ronaldo Só Moutinho, ao nosso editor Marciano Ventura e nominalmente a todos os autores, Caio César, Lucas Veiga, Bruno Santana, Tulio Custódio, Tago Dahoma, Douglas Araújo e Airan Albino.

Minha intenção era de alguma forma alcançar e dialogar com vocês, homens que, direta ou indiretamente, tinham me levado a estudar um tema que hoje sou apaixonado. E ir além, chegando em pessoas que de alguma maneira se interessam pelas questões que nos atravessam. 

Sem pretensões universais, mas sim com um olhar corporificado e legítimo, o livro reverencia nossa humanidade-hombridade. Não há mundo sem nós, griôts da história humana. Pais e filhos da Humanidade.

Leiam e apreciem sem moderação!

“Os preto é chave abram os portões” Ponta de Lança, Rincon Sapiência

Autor:

Henrique Restier 

https://medium.com/@henriquerestier

Masculinidades Negras em Foco.

Professor Henrique Restier

Mestre em Relações Étnico-raciais CEFET-RJ

Doutorando em Sociologia IESP/UERJ

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