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O difícil equilíbrio entre a vida acadêmica e a maternidade

Autor: Juliana Domingos de Lima Data da postagem: 19:00 10/07/2019 Visualizacões: 146
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PROJETO PARENT IN SCIENCE PRETENDE CHAMAR ATENÇÃO PARA DESIGUALDADE VIVIDA POR PESQUISADORAS COM FILHOS/FOTO: TOMAZ SILVA - AGÊNCIA BRASIL

Dados preliminares de levantamento mostram que maioria das pesquisadoras sentem efeito negativo da carga de ser mãe sobre trajetória profissional

Pesquisadores buscam normalmente recursos de agências de fomento para desenvolver seus trabalhos. Tais agências exigem produtividade dos cientistas. E essa exigência não leva em conta, na maioria das vezes, o impacto da chegada dos filhos.

Criada em 2017 no Brasil por cientistas, a Parent in Science (Pais na ciência) tenta tornar mais visível a realidade de pesquisadores nessa situação, sobretudo mulheres, que costumam assumir uma carga maior no cuidado das crianças. 

A bióloga Fernanda Staniscuaski, professora do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já teve o apoio a projetos recusado com a justificativa de não estar produzindo o suficiente para merecer o aporte financeiro.

Para ela, as negativas foram produto de discriminação de gênero por não considerarem as especificidades da maternidade. Atualmente, ela é uma das mulheres à frente da iniciativa que busca lidar com o tema.

O perfil de pesquisadores com filhos

Além de chamar atenção para o problema, o Parent in Science pretende  subsidiar as reivindicações de pesquisadores e a estruturação de políticas públicas.

Para isso, foram criados questionários online, respondidos por milhares de mulheres e homens para identificar o perfil dos pesquisadores com filhos e as dificuldades que enfrentam.

Resultados parciais foram apresentados no 2º Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência, realizado em maio de 2019 em Porto Alegre. Os dados seguem sendo coletados e os pesquisadores envolvidos pretendem concluir, até o fim de 2019, um artigo com o detalhamento das informações levantadas.

Em maio de 2019, a amostra contava com cerca de três mil participantes. O Nexo destaca abaixo alguns dados já revelados pela pesquisa:

  • De quase 1.650 docentes mulheres consultadas, a maioria (78%) afirmou ser mãe
  • Metade dessas mulheres são as únicas responsáveis pela criança
  • Em geral, as entrevistadas se tornaram mães quando ainda estavam no início da carreira em uma instituição de ensino.
  • A maioria vivencia a maternidade quando tem entre, em média, dois anos de contratação na universidade e 33 anos de idade
  • Das cientistas, 45% não conseguem, conseguem muito raramente ou têm muita dificuldade de trabalhar em casa, 21% só conseguem de madrugada, quando os filhos dormem
  • Com isso, 52% não conseguiram cumprir prazos de submissão para editais de fomento
  • Das pesquisadoras 82% consideram negativo ou bastante negativo o impacto da maternidade na progressão de sua carreira

Em uma palestra ministrada em janeiro de 2019, Staniscuaski afirmou que o nascimento dos filhos das pesquisadoras coincide com o pico de suas produções acadêmicas e que elas só conseguem retomar o ritmo anterior de três a quatro anos após a gravidez.

Algumas conquistas recentes

LICENÇA PREVISTA EM LEI

Sancionada em 2017, a  lei nº 13.536 instituiu o afastamento remunerado de até 120 dias para bolsistas de pesquisa  nos casos de maternidade e adoção. Algumas das principais agências de fomento a do Brasil, como CNPq (O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) já possuíam normas internas que concediam essa prorrogação. A lei é importante por ampliar o direito dos pesquisadores pais à prorrogação do prazo da bolsa.

PONTOS EXTRAS PARA PROFESSORAS COM FILHOS

Publicado no início de 2019, o edital de um concurso por bolsas de iniciação científica da Universidade Federal Fluminense foi o primeiro a conferir um acréscimo de cinco pontos para candidatos que tiveram filhos nos dois anos anteriores. A medida busca compensar o tempo de licença-maternidade, que deixa as pesquisadoras em desvantagem no quesito da produção acadêmica, um dos critérios para a escolha dos bolsistas. Além de mães, pais que adotam crianças e casais homoafetivos que tirem licença para cuidar dos filhos também têm direito à pontuação extra

INCLUSÃO DO PERÍODO DE LICENÇA NO CURRÍCULO LATTES

No fim de março de 2019, após um pedido assinado por cientistas mulheres, o CNPq concordou em incluir uma aba com os períodos de licença maternidade e paternidade no currículo Lattes, principal plataforma digital que registra a produção acadêmica de pesquisadores. A mudança ainda não havia sido efetivada em junho de 2019. A menção ao período de licença no Lattes é importante para sinalizar aos órgãos de financiamento a razão para a queda nas publicações no período imediatamente após a chegada dos filhos

AUMENTO DO PERÍODO DE AVALIAÇÃO DA PRODUTIVIDADE

Também em caráter inédito no Brasil, a Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro) incluiu em junho de 2019 em seus novos editais um item que estende em um ano o período de avaliação da produtividade científica no caso de nascimento ou adoção de crianças nos últimos cinco anos.



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