Negras empreendedoras: Izabella Suzart faz sapatos que mesclam moda e política

Autor: STEPHANIE RIBEIRO Data da postagem: 16:00 11/07/2019 Visualizacões: 235
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Negras empreendedoras: Izabella Suzart faz sapatos que mesclam moda e política/Imagem: Reprodução - Make Mag

Designer carioca por trás da grife A-Aurora, Iza ficou conhecida pelo modelo #Olivia, que mescla madeira em formas simples e belas

Quando vi o trabalho da Izabella Suzart, designer à frente da grife A-Aurora, meu primeiro sentimento foi de admiração. A forma como ela usa madeira, corda e couro é de uma simplicidade e beleza evidentes. Admiro muito um desenho limpo, que informa a que veio e, ao mesmo tempo, trás algo admirável. Eu a conheci por seu sapato Olívia e, depois, descobri seus outros trabalhos, todos de qualidade. Além disso, percebi que quando mulheres negras entram em espaços de design que se subentendem como de luxo, elas se encontram muitas vezes solitárias e apagadas. Não é que o trabalho dela e de tantas outras mulheres negras não seja bom, mas, muitas vezes, ele não se encaixa no nicho do que chamam de “empreendedorismo negro”. Como uma mulher negra, ela acaba enfrentando barreiras ao se inserir em espaços de privilégio que marcas de mulheres brancas, com o mesmo público, não enfrentam. Conversei com Iza para discutir temas que permeiam esse “lugar”:

Black Girl Magic - O design é um meio majoritariamente branco em sua representação de “grandes nomes”. Estudei arquitetura e, em muitos momentos, percebi como não nos associam a pessoas criativas. Qual sua trajetória como mulher negra no design? 

Izabella Suzart -Sou formada em design de moda pela PUC [Pontíficia Universidade Católica] e pelo BAU - Centro Universitario de Diseño em Barcelona. Durante a faculdade, vivenciei alguns processos que foram importantes para as milhões de dúvidas que eu tinha sobre os caminhos do design que me interessava seguir. Aproveitei o fato de que a faculdade disponibiliza a possibilidade de fazer matérias que não fossem somente correspondentes a minha formação e fui experimentando comunicação visual [design gráfico] e outras matérias de quem cria produtos que não necessariamente sejam roupas ou sapatos, como ilustração e metodologias de design. Além disso, estagiei na marca Pipa Social e fiz um projeto para o Fundo Baobá junto a Carolina Delgado, no qual fiquei responsável por desenhar uma coleção de bonecas negras para venda na [loja] Rihappy, produzidas pela Estrela. Por fim, estudei marketing e processo criativo e estamparia no BAU, que também ajudou bastante a entender o mercado de moda global e as características de cada lugar. Sobre as pessoas não associarem a gente a pessoas criativas, são reproduções de opressão tão profundas que nos cercam que eu não conseguia me ver na minha melhor forma mesmo que eu tivesse estudado para isso. Demorei muito tempo para quebrar isso e confesso que ainda tenho que ter cuidado pra não voltar a esse lugar.  Hoje, meu principal exercício diário é quebrar todos esses bloqueios, primeiramente, em minha cabeça, pois, embora a pesquisa já tenha me ajudado, cair nesse lugar de negação do próprio talento é mais fácil do que a gente imagina. O que muito me ajudou foi pesquisar, pesquisar e pesquisar e estudar artistas, pensadores ligados a arte e a moda em diferentes continentes do mundo que fossem bem parecidos comigo. Isso ampliou meus horizontes. Na mulher negra criativa que sou hoje, a moda e a política andam lado a lado. Meus ancestrais eram proibidos de usar sapatos, então, todo cuidado, desenho, projeto, desenvolvimento são processos que valorizo e que, meu ascendente em virgem, ajuda a buscar acabamentos e soluções bem pensadas. Ainda é um processo solitário ser uma mulher negra que faz design e encontrar referências, romper com tantos “grandes nomes” em busca de reais possibilidades de existência e pesquisar a verdade sobre os fatos me levou a acreditar, me dar segurança e confiança necessárias para ter um negócio desafiador como esse.

"Meus ancestrais eram proibidos de usar sapatos, então, todo cuidado, desenho, projeto, desenvolvimento são processos que valorizo""

Iza Suzart

BGM - Por que a escolha pelo design de sapatos?

IS - Todas as minhas dúvidas, curiosidades e experimentações me levaram a resultados que me influenciam hoje em muitas das minhas decisões e escolhas do meu dia a dia profissional, pois acabei bebendo de vários campos do design. Em um desses momentos, me inscrevi numa matéria de sapatos oferecida pela universidade e foi aí que meus caminhos começaram a se definir. Me apaixonei pelo processo de criação artesanal e a criação de produtos/desenvolvimento e foi aí que, em 2014, me aprofundei, fazendo um curso de calçados no IED [Institute Europeo di Design] aqui no Rio. De lá pra cá, não tem um dia sequer que eu não pense na A-AURORA e como levar adiante minha marca.

BGM - Nesse processo de buscas e pesquisa, quem mais te inspira como designer?

IS - Adama Paris, Aurora James, Carly Cushnie e Angela Brito são mulheres negras empreendedoras que eu tenho admiração, orgulho e me inspiram. Cada uma com uma forma de se colocar em suas criações e a maneira de ver determinadas questões.

O sapato Olivia, carro-chefe da grife A-Aurora, de Izabella Suzart (Foto: Divulgação)


BGM - O carro-chefe na A-Aurora que é o sapato #Olivia. Pode me falar um pouco sobre ele e também sobre seu processo de criação como um todo?

IS - O modelo #Olivia foi meu primeiro produto desenhado e produzido para minha primeira coleção, a COTIDIANO - SS15. Foi o primeiro modelo em que inseri madeira. Era um teste, porque amo trabalhar com madeira desde que ela seja certificada, ou que seja reutilizada de sobras, mas que tenha propriedades para calçados também. A madeira precisa estar preparada para chuva, sol, sustentação, enfim, não pode ser qualquer uma. Amo as formas, linhas e marcas que a madeira possui. Gosto de preferência dela em tom natural. Isso me fascina e sempre me fascinou em como esse material se comporta, então, testei nesse modelo. Ainda consigo lembrar do dia que desenhei esse salto e o tempo que fiquei desejando as formas: idealizando suas curvas delicadas e, ao mesmo tempo, fortes e imponentes. A ideia por trás do #Olivia foi as convidadas de um casamento, por exemplo, ou em lugares que você “precisa” usar um salto fino. Então, desenhei um salto que questionasse esse "precisar", que questionasse o por quê se faz necessário usar um salto fino para ser considerado mais “chique” ou “luxouso”. Acredito que o #Olivia pode ser usado em todos os lugares “tidos” como especiais sem termos de sentir dores ou passar por grandes estresses. Desenvolvi uma meia pata composta por borracha internamente de 3 cm que torna o caminhar mais confortável. O modelo acabou se tornando um marco na A-Aurora e foi responsável por trazer um certo reconhecimento. Por causa dele, fui convidada para desenhar uma coleção e expor na exposição O Design e a Madeira, no Museu de Arte Moderna do Rio, em 2016. No ano seguinte, fui convidada por uma empresa holandesa que funciona como curadora de sapatos no mundo com o propósito de criar uma espécie de museu virtual de calçados. Eles me chamaram para estar com o #Olivia no Gallery Calendar, calendário internacional que propõe um produto para cada dia do ano.

BGM - O que te fez escolher os materiais: couro e madeira. Que aparecem ao longo do seu trabalho?

IS - São materiais confortáveis e atemporais. Além disso, eles permitem explorar ao máximo formas e cores, características presentes no meu trabalho até hoje.

BGM - Suas peças ganharam visibilidade: várias mulheres negras famosas usam seus sapatos e sua marca pode ser considerada de sucesso. O que você diria para tantas meninas negras que amam design, mas acham que esse ramo ainda não é para nós?

IS - Acho que estamos mais do que nunca nesse lugar de questionar situações e quem nós somos, como somos vistos e como queremos ser vistos. Eu acredito que a maneira tradicional de funcionar a moda está se rompendo. O mundo mudou no conceito de produção e estruturação de marcas. A tecnologia influenciou muito nessas mudanças, e existem pessoas gerando informação e repensando a maneira de colocar suas ideias no mundo. Então, se você quer trabalhar com design e gosta de moda, pesquise, use a tecnologia a seu favor para estudar, para entender como criar estratégias que façam com que você atinja seus objetivos como uma criativa que quer seguir o design. Acredito que estamos num momento em que tudo pode acontecer e a moda é muito ampla. Não existe um só modelo de negócios para a moda, que é ampla. Há muitos campos de atuação e novas formas de consumir, então, entenda o que falar com você, mas não deixe jamais em qualquer situação que alguém determine qual o seu lugar. Pense nos objetivos e como realizá-los a partir do momento e no lugar que você se encontra hoje e vá criando suas estratégias. Cuide da sua saúde mental e pense duas vezes se você não está se autoboicotando.

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