Dia do Escritor: quem foi Audre Lorde e o que ela nos ensinou!

Autor: Carol Scorce e Redação Festival Feminista de Lisboa e Carta Capital Data da postagem: 13:00 30/07/2019 Visualizacões: 592
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Dia do Escritor: quem foi Audre Lorde e o que ela nos ensinou! / Foto: Reprodução - Carta Capital

Mulher, negra, feminista, escritora e poeta uma das maiores referências em interseccionalidade, nos inspira até hoje: Audre Lorde (Nova Iorque, Estados Unidos, 1932 – Saint Croix, Caribe, 1992).

Assinando seus livros como Audre Lorde, foi registrada, ao nascer, como Audrey Geraldine Lorde. Sua obra mais famosa, “Zami: A new spelling of my name” (não traduzido em português), é uma autobiografia que problematiza a herança do seu próprio nome.

Na tentativa de se livrar do nome colonizado que recebera, abre espaço para adotar um terceiro: Zami – palavra que significa “mulheres que trabalham juntas como amigas e amantes”. Nesse processo, conta dos desafios crescendo junto a uma mãe autoritária, extremamente pobre, no Caribe, e de como participou na cena negra e lésbica da Nova Iorque dos anos 50 e 60, conhecendo muitos autores e ativistas, o que a influenciou na escrita de poemas.

Audre foi das primeiras feministas a apontar a necessidade de interseccionar a  luta das mulheres, levando em consideração o racismo, a luta de classes e a questão de gênero ao tratar da opressão sofrida pelas mulheres. Até então as feministas americanas estavam excessivamente centradas em problemas de mulheres brancas de classe média.

Viveu em Berlim trabalhando como ativista e professora universitária. De volta aos Estados Unidos, depois de ter sido escritora-residente no Mississipi, foi a poeta laureada do estado de Nova Iorque. Atualmente, um prêmio nos Estados Unidos para trabalhos publicados em temática LGBTQ leva o seu nome.

Audre Lorde e o autocuidado feminino: hoje usada para vender batom, ideia nasceu de uma feminista lésbica para a autopreservação das mulheres negras

Autocuidado feminino é um conceito tão importante quanto rentável, e diferenciar uma coisa da outra é fundamental. Sem atenção, a autopreservação das mulheres, especialmente das mulheres negras, tende a ser banalizada e transformada em mera mercadoria.

A ideia de que a mulher deveria dar mais atenção a si mesma, sua saúde, seus desejos, emoções, levar-se mais em conta, não saiu de revistas de moda, cosméticos, propagandas para vender maquiagem. Audre Lorde, responsável por cunhar o termo na década de 1980, foi uma escritora, feminista, negra, lésbica, filha de imigrantes caribenhos que viviam nos Estados Unidos.

Ferrenha defensora dos direitos humanos, Lorde era poetisa, espaço onde se afirmava como mulher negra. Participou das lutas pelos direitos civis nos EUA e não passou pano para as colegas feministas brancas, ressaltando a opressão que elas exerciam sobre as negras. Ela é uma das pioneiras do conceito de feminismo interseccional – que pontua as diferentes opressões que mulheres de diferentes condições vivem, levando em conta essencialmente as diferenças de raça e classe social. “Eu sou definida como a outra em todos os grupos de que participo. A forasteira, tanto pela força como pela fraqueza.”

O fato é que o empoderamento feminino entrou, de vez, na ordem do dia. Muitas mulheres que não se identificam como feministas passam, cada dia mais, a questionar os papéis tradicionalmente atribuído a elas. E a cultura do care tem tudo a ver com isso. Os cuidados gerais – casa, filhos, familiares doentes, idosos,administração da vida em comum – tudo isso sempre foi entendido como uma atribuição da mulher. Mas é trabalho não remunerado, a chamada dupla, tripla jornada.

E quem cuida das cuidadoras? Quem cuida de si tendo de cuidar de tantas pessoas e coisas ao mesmo tempo? Se há escala de opressão, como nos ensina Lorde, a mulher negra é a última a ser lembrada. Por isso, a poetisa profetizou: “Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é uma autopreservação e isso é um ato de guerra política”. Ou seja, um ato de resistência das mulheres aos papéis condicionadas.

Mas se buscarmos pelo termo na internet aparecerá tudo e nada ao mesmo tempo. É um conceito superficial, indo desde comerciais para maquiagem, cursos sobre terapias naturais, alimentação, quase tudo vinculado ao consumo. Em um mundo atropelado, pensar a alimentação não é algo trivial, e evidentemente trará benefícios.

O ato em si não importa tanto, mas sim o que está por detrás dele, a intenção. Um prato de comida saudável, por exemplo, pode ser um cuidado consigo, com a saúde, ou sinônimo de uma vida de dietas, prisões estéticas e distúrbios.

As fotos de mulheres perfeitamente dentro dos padrões de beleza em sirshasana (posição de yoga invertida sobre a cabeça) ou lendo livros bonitos com uma xícara de chá ao lado fazem parecer que é simples, mas não é. Autocuidado é um processo, um aprendizado de vida para as mulheres. Cuidar de si tampouco deve servir para agradar aos outros, para estar agradável ao paladar alheio.

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