Conheça o Indique Uma Preta, rede de apoio para mulheres negras

Autor: Fernanda Souza Data da postagem: 16:00 13/09/2019 Visualizacões: 812
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Conheça o Indique uma Preta, rede de apoio para mulheres negras / Foto: Lidiane Angelo - Reprodução - KondZilla

Existe uma disparidade sociorracial entre pessoas negras e brancas no Brasil, ou seja, a população negra, principalmente feminina, é prejudicada nas condições de equidade e oportunidades. Pensando nessas questões, a consultoria e grupo de apoio Indique uma Preta tem mobilizado um trabalho incrível que vem beneficiando muitas mulheres. O Portal KondZilla colou na primeira roda de conversa sobre a autoestima e saúde mental da mulher negra e trocou um papo com as fundadoras dessa iniciativa.

Co-fundadoras Amanda Abreu, Daniele Mattos e Verônica Dudiman

Entenda a desigualdade racial

A população negra está em desvantagem no mercado de trabalho, segundo pesquisas feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) os resultados apontam para a realidade no país. O que é ainda mais gritante quando a ocupação diz respeito à cargos administrativos, gerenciais e cargos executivos.

Aprofundando mais no tema, as mulheres negras são as mais prejudicadas nesse problema. Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa econômica aplicada) estão 50% mais suscetíveis ao desemprego. E ainda, segundo os indicadores do ETHOS, as mulheres negras mesmo com ensino superior concluído necessitam de políticas que possibilitem suas oportunidades, pois 0,4% estão em cargos executivos.

O Indique uma Preta: História e iniciativas

Segundo Daniele Mattos, idealizadora e co-fundadora, tudo começou há três anos com suas próprias experiências no seu primeiro estágio na agência de publicidade Mutato. Na empresa, ela sentiu profundamente a falta de mulheres negras em ocupações administrativas ou executivas. Cada vez que ocupava novos espaços, ela se sentia mais sozinha pela falta de referências, gerando o sentimento de solidão, o que ela chama de ‘solidão da negra única’.

Assim que abriu uma vaga de estágio nesta empresa ela viu a oportunidade de ampliar a representatividade. Daniele incentivou a contratação de mais uma mulher negra e para isso criou um grupo no Facebook, publicando a vaga e promovendo a campanha de preenchê-la por mais uma mulher negra. Infelizmente, a iniciativa não deu certo para preencher a vaga, porém, o grupo que divulgou deu certo, tanto que surgiu uma foto de uma menina que conquistou uma vaga pela ajuda do grupo.

Foi quando Daniele sentiu a necessidade levar a sério aquela ideia e convidou a publicitária Amanda Abreu, articuladora ativa no grupo das vagas, para ajudá-la nessa proposta que tempos depois virou uma rede de apoio. As duas perceberam que muitas discussões no grupo eram sobre o mercado de trabalho e como se portar na hora de enviar um currículo, um portfólio, como se portar na entrevista, dúvidas comuns para uma candidata a vaga. Daí nasceu a necessidade de sair da rede virtual e passar a ter encontros presenciais para fortalecer a noção de mercado e mundo corporativo de mulheres negras.

O primeiro Workshop de planejamento aconteceu para ajudar as meninas em um dia de imersão com profissionais da área. Neste dia, conheceram a Verônica Dudiman, colaboradora ativa do grupo do facebook. Assim, o grupo já estava com 3 pessoas: Daniele, Amanda e Verônica. Além das participantes dos eventos e do grupo digital.

Desde então, tem rolado encontros para colocar em prática essa assistência, trocar práticas, workshops, consultorias e rodas de conversa. Já rolou um evento sediado na empresa do Facebook, onde foram convidadas 30 meninas pretas para passar o dia inteiro no prédio da empresa e aprender lições de comunicação. “A gente deu preferência para meninas que querem entrar no mercado de trabalho e não conseguem, aquelas que estão desempregadas no mercado de comunicação. Chamamos palestrantes e participantes mulheres que já estão no mercado publicitário há bastante tempo para passar o dia conversando e ver a potência criativa, intelectual e cognitiva das meninas”, comenta Daniele.

A visita ao facebook / Foto: Lidiane Angelo

O Indique uma Preta contou para nós que estão articulando encontros que acontecerão na quebrada também. O grupo acredita que é muito importante atuarem nos espaços de poder, como as empresas, pois são lugares que sempre são negados às mulheres negras. Além disto, é nesses lugares que a rede de apoio trabalha pra inserir as mulheres, assim criando oportunidades e ascendendo a entrada.

Amanda Abreu comentou um dos motivos de reforçar a entrada nesses espaços. “No meu caso, e acho que também das minhas duas sócias também, esse espaço sempre foi solitário. Fui a única negra da minha turma da faculdade, sempre fui umas das únicas negras a estar dentro de agências de publicidades realizando trabalhos intelectuais e por quê sempre fui a única? Porque a sociedade não dá oportunidades para mulheres negras, porque somos um país racista, porque a branquitude ainda entende que o trabalho da mulher negra, exclusivamente, é o de trabalho de base’’.

Outra ideia forte do grupo é a importância de incluir pessoas que são parceiros na luta anti-racistas, pois contribuem para somar no fortalecimento do movimento. “Acredito que vem uma série de coisas antes, em todo esse nosso trampo do Indique Uma Preta, acho que ocupar espaços de poder é essencial e não depende essencialmente de nós, pessoas pretas. Precisamos, e com urgência, dos aliados também, das pessoas que se intitulam anti-racistas para que a gente consiga de fato chegar lá. Porque ainda somos poucos que estamos nesse local de poder’’, dispara Amanda.

A primeira roda de conversa sobre a autoestima e saúde mental da mulher negra

A roda aconteceu na casa de cultura Ayne, um espaço acolhedor e que desenvolve seus trabalhos voltados para as mulheres. As palestrantes convidadas foram: a psicóloga e pesquisadora de gênero e raça Mariana Matos, a empresária e hair stylist Regiane Alexandre, a estrategista Taís Santos e a advogada Tamires Sampaio. Quem mediou a conversa foi a co-fundadora Amanda Abreu.

O papo foi muito acolhedor, já que o ambiente com mulheres que compartilham de experiências semelhantes possibilitou uma troca muito valiosa. Muitas questões debatidas como o racismo afeta a vida das mulheres e o mercado de trabalho. No entanto, o foco e o que ligava todas pautas levantadas eram a saúde mental e a importância do autocuidado.

“Quando a mulher negra adentra espaços de poder não quer dizer que vai ser um espaço confortável. É importante, sim, que essa mulher negra seja acolhida”, comenta Verônica Dudiman. “Como ela é acolhida? A partir de estar próxima ao seus pares, como nesse dia, todas ali juntas, cuidando da saúde mental, que é totalmente negligenciada’’.

Para se ter uma noção, Mariana Matos levantou inúmeras reflexões sobre a importância de mulheres negras cuidarem de sua saúde mental para que fiquem firmes no cotidiano profissional ou militante. Bem como, sobre a importância de buscar a ajuda de profissionais negros, principalmente porque a saúde da mulher negra é diferente da mulher branca.

Outro ponto importante foi levantado pela advogada e mestranda Tamires Sampaio sobre como o racismo estrutural afeta a mulher negra. O fato da violência obstétrica, a falta de acesso ao atendimento da ginecologia e de informação sobre saúde podem cumprir o papel da manutenção desse sistema.

Tais Santos e Regiane de Alexandre dialogam sobre estética. Tais, que trabalha pra um empresa de cosméticos femininos, fala sobre a importância de estar nesse espaço ocupando uma posição que pode mudar a representatividade. Mas para além disto, o quanto cuidar de si mesma é importante para ter condições de enfrentar a adversidades nesses lugares. Regiane que trabalha com estética, acredita que é uma forma segura de mulheres negras cuidarem uma das outras e na fala de buscar ajuda de outras mulheres. Além do mais, estar bem é mais do que o visual.

As mulheres que participaram da roda puderam interagir com perguntas e depoimentos. Isso possibilitou que a identificação e novas ideias pudessem ser compartilhadas. É exatamente por isso que o encontro se torna seguro e familiar.

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