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Mulheres negras na educação: Quantas professoras negras você teve ao longo da sua formação escolar?

Autor: Giselle dos Anjos Santos Data da postagem: 13:19 18/10/2019 Visualizacões: 489
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Mulheres negras na educação: Quantas professoras negras você teve ao longo da sua formação escolar? / Foto: @taylorckt1 - Reprodução

Vivemos em uma sociedade onde o racismo, bem como as opressões de gênero e de classe desempenham uma função estrutural, e ao se interseccionarem, tornam ainda mais complexa e vulnerável a experiência social de alguns grupos. Como, por exemplo, nós mulheres negras.

As representações imperantes sobre a nossa imagem, nos classificam enquanto figuras distanciadas do trabalho intelectual. O imaginário social herdado do período escravista, apresenta as mulheres negras como “Só corpo, sem mente”, como já disse bell hooks (1995).

Por isso, nesta semana, onde comemoramos o Dias das Professoras(es) e o CEERT está apresentando um especial de publicações para discutir a importância dessas(es) profissionais, lançamos a seguinte questão: Você já se perguntou, quantas professoras negras teve ao longo da sua formação escolar? E se você foi formado por alguma professora negra, parou para se perguntar em algum momento como ela era encarada no ambiente escolar?

Pois, ainda que o magistério seja uma profissão majoritariamente feminina, a mulher negra não se encaixa nas representações padrões sobre esta atividade. Essa invisibilidade faz com que muitas de nós tenhamos a necessidade de comprovar a nossa competência profissional, lidando com situações de discriminação frequentes.

Como aponta a também Professora Nilma Lino Gomes, que foi a primeira reitora negra de uma universidade federal no país: “Ser mulher negra e professora em um país como o Brasil implica em um redimensionamento desses dois papeis, desmontando todos os estereótipos e estigmas historicamente colocados. Requer ver-se a si mesma como negra e profissional. E ver-se a si mesma como negra envolve reconhecer-se enquanto sujeito negro, possuindo um papel político na construção de uma prática pedagógica que desvele o racismo presente no ambiente escolar e aponte alternativas de mudança no trabalho que a escola vem realizando” (GOMES, 2003).

Foto: @taylorckt1

Ou seja, as mulheres negras que atuam na educação desenvolvem uma importante prática de resistência. Isso se comprova nitidamente pelos dados do balanço realizado até a 6ª edição do Prêmio Educar para a Igualdade Racial, promovido pelo CEERT desde 2002, considerando 174 práticas “cases”, que correspondem as ações premiadas e finalistas até essa edição da premiação. De todas as práticas pedagógicas mais exitosas, com metodologias mais inovadoras e melhores resultados, foram justamente as mulheres negras as principais protagonistas. Os índices sobre a participação feminina nas “práticas cases” apontam que 50,5% foram desenvolvidas por mulheres negras; 17,8% por brancas; 10,9% por indígenas e 4,0% por amarelas. Os dados sobre a participação dos homens apontam que 8,6% foram desenvolvidas por negros; 4,6% por brancos; 2,3% por indígenas e 1,1% por amarelos.

Portanto, ao identificar que a grande maioria das práticas cases foram protagonizadas por mulheres e homens negros (em 59%), mas especialmente pela parcela feminina, constatamos que a educação não é neutra. Afinal, é justamente o grupo mais implicado, que demonstra possuir o maior compromisso com a promoção da equidade racial, e consequentemente com a construção de uma sociedade mais justa. Por este motivo cumprimento todas as educadoras/es pela data do 15 de outubro, mas especialmente as profissionais negras/os, por reconhecer e me solidarizar com todas as suas lutas diárias, que estão para além dos desafios que (as)os outras(os) professoras(es) encaram no exercício da docência.

Contudo, esse compromisso não pode se restringir à experiência pessoal de cada profissional. As opressões de gênero, classe e raça precisam ser encaradas de frente por todas(os) as(os) educadoras e por toda a sociedade, para o desenvolvimento de uma educação focada na busca pela equidade e pela emancipação de corpos, mentes e corações.

 

Texto: Giselle dos Anjos Santos

Ativista e pesquisadora. Doutoranda em História Social. É autora do livro "Somos todas rainhas" (2012) e co-autora do livro "Mulheres afrodescendentes na América Latina e no Caribe: Dívidas de igualdade" (2018).

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