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Ela criou uma livraria especializada em autoras negras na periferia de SP

Autor: Marcelo Testoni Data da postagem: 18:00 06/03/2020 Visualizacões: 474
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Ketty Valencio, que criou uma livraria especializada em autoras negras/ Imagem: Reprodução - Divulgação - UNIVERSA

A relação da paulistana Ketty Valencio com a leitura começou ainda na infância — embora com certo distanciamento, incompreensão e falta de representatividade, sobretudo no que se refere a temas históricos. Aos 37 anos, ela compreende hoje que essas percepções do passado têm relação com o fato de ter nascido negra e na periferia, onde a produção literária de autores de sua cor é praticamente desconhecida, dando a impressão de sequer existir.

"Ao descobrir narrativas que não puderam ser contadas oficialmente, consegui mudar a minha história", diz Ketty, que se formou bibliotecária, é pesquisadora e proprietária da livraria Africanidades, localizada na Vila Pita, na zona norte de São Paulo, e especializada em autoras negras.

Criada em 2013 no formato de um e-commerce, a livraria em pouco tempo expandiu seu acervo e, em 2017, estabeleceu-se como uma loja física de pequeno porte. Segundo a fundadora, além de vender quase 200 títulos literários, entre os quais obras ficcionais, biografias, poesias, e quadrinhos, o local também se propõe a sediar eventos, como rodas de conversas e leituras, cineclubes, saraus, lançamentos de livros e oficinas de escrita criativa.

A ideia da Africanidades? "Que jovens negras e periféricas descubram seu protagonismo por meio de personagens e autoras e, assim, contribuam para reconstruir o pensamento social, num sentido de igualdade de existência", afirma Ketty.

Acervo voltado ao feminismo

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Livros de Angela Davis: a Africanidades especializou-se autoras negras/ Imagem: Reprodução - Divulgação - UNIVERSA

Entre as escritoras negras que têm suas obras à venda estão nomes brasileiros e internacionais, como Bell Hooks, Virgínia Bicudo, Maria Firmina dos Reis, Jarid Arraes e Alice Walker, conhecida mundialmente por ter escrito o romance "A Cor Púrpura", vencedor do Prêmio Pulitzer e cuja adaptação para o cinema concorreu a 11 Oscars. Elas também são discutidas nos encontros, que costumam ocorrer aos finais de semana ou durante o horário comercial da livraria, depois de divulgados pela internet.

"Temos ainda um acervo voltado ao feminismo, pois pensamos como escreveu a poeta estadunidense Audre Lorde: 'Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas'", explica Ketty.

Ela cita que a livraria não conta com um serviço de empréstimo como uma biblioteca, mas oferece, além das atividades culturais gratuitas, outros projetos a preços acessíveis, como um clube de assinatura de livros especializado em literatura negra, além de atendimento psicológico com duas profissionais em turnos diferentes e aulas de ioga africana.

Em busca de visibilidade

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A livraria também promove eventos e ações culturais/ Imagem: Reprodução - Divulgação - UNIVERSA

Da experiência acadêmica e de ter trabalhado por anos em diversos tipos de bibliotecas, Ketty, que é formada em biblioteconomia e pós-graduada em gênero e diversidade sexual, se deu conta que os poucos livros de autores negros que existiam nesses espaços eram simplesmente ignorados. Foi o que a motivou a querer encontrar uma maneira de dar visibilidade a eles e conscientizar o público leitor, especialmente negro, de sua existência.

Com o objetivo de abrir uma livraria, ela então precisou contornar desafios e se preparar para empreender, pois não tinha nenhuma instrução. "Tive o privilégio de cursar um MBA na vida adulta, que me proporcionou realizar um plano de negócio, porém tive que correr atrás de outros cursos e ensinamentos em entidades de capacitação, como o Sebrae", explica.

Depois de estabelecer o negócio, ela percebeu que também seria fundamental participar de feiras e eventos — assim, poderia trocar mais facilmente informações e contatos. Como resultado, conheceu escritoras, editoras, pesquisadoras, integrou coletivos feministas e até trabalhou para vários projetos com temática cultural e social.

Entre eles, a websérie "Mulheres de Palavra: um Retrato das Mulheres no Rap de São Paulo", a feira de economia solidária "Mercado Negra" e atualmente o "Inki Dùdù: Pretas de Rua - Graffiti, Gênero e Etnicidades", um mapeamento de grafiteras negras que resultará num catálogo de artes.

Por mais escritoras negras

Para encontrar os livros que comercializa, Ketty, além de manter relacionamento com editoras, de quem compra na base da consignação, se mantém atenta a lançamentos pouco divulgados, garimpa obras alternativas e de acesso difícil e negocia diretamente com autoras independentes, já que muitas não têm apoio nem condições financeiras de divulgar seus trabalhos.

"Quanto mais desconhecido para mim, melhor. Minha linha é a do menos popular. É essa literatura que vendo. Ainda mais se for feita por mulheres pretas", diz ela.

Em maior quantidade, a Africanidades disponibiliza livros de autoria de mulheres negras, que segundo Ketty é o grupo mais excluído do grande mercado editorial, e poucas obras escritas por homens e pessoas brancas, como "Culto aos Orixás", de Carlos Eugênio Marcondes de Moura, "Cumbe", de Marcelo D'Salete, e "Cores", de Carol Rossetti.

O modelo proposto para a livraria baseia-se em iniciativas similares e que surgiram primeiro, como a publicação "Cadernos Negros", que reúne poetas negros desde 1978, a Livraria Kitabu, do Rio de Janeiro, também especializada em cultura afro-brasileira, e o Mulheres Negras na Biblioteca, coletivo que, desde 2016, questiona a ausência de autoras negras nas bibliotecas.

"Minha ideia de disseminar memórias negras, principalmente de mulheres, não é inédita. Por isso, somos apenas a semente e a continuidade dessas pessoas ou iniciativas que vieram antes de nós", afirma. "A intenção é que a literatura se torne o codinome de experiências negras e que a maioria da população brasileira, que é preta e feminina, possa ser o que quiser e romper com suas mordaças."

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