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Nina Simone, compositora, cantora e ativista da luta dos negros

Autor: Redação Causa Operaria Data da postagem: 12:00 29/04/2020 Visualizacões: 375
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Nina Simone./Foto: Jean-Pierre Leloir - Reprodução - Causa Operaria

Nina Simone foi uma das maiores vozes do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos nos anos 60.

Ela ficou conhecida como a Alta Sacerdotisa do Soul. Suas performances eram eletrizantes e magnéticas. Foi uma valorosa lutadora dos direitos civis do povo negro americano. Teve uma obra vasta, eclética e influente, navegando com facilidade por inúmeros gêneros como o blues, jazz, folk, gospel, soul, música clássica e música pop. Nina Simone morreu em 21 de abril de 2003 aos 70 anos.

Infância pobre

Ela nasceu em 1933 na cidade de Tryon, Carolina do Norte, com o nome de Eunice Kathleen Waymon. Começou a aprender a tocar o piano com três ou quatro anos, demonstrando um talento natural para o instrumento. Costumava cantar no coro da sua igreja. Seu primeiro concerto erudito aconteceu quando ela tinha 11 anos. Nina Simone contou que durante esta apresentação, os seus pais, que estavam sentados na primeira fileira, foram obrigados a se levantarem e se sentarem no fundo da sala, para dar lugar a uma família de pessoas brancas que Nina nunca havia visto antes. Ela se recusou a continuar se seus pais não voltassem para a frente. Eles voltaram a seus lugares, mas se sentindo envergonhados.

A cantora se dedicou ao aprendizado da música erudita especialmente da obra de Beethoven e Brahms. Após completar o colégio expressou seu desejo de ser conhecida como a primeira concertista de piano afro-americana. Para isso ela ingressou na famosa Juilliard School Of Music na cidade de Nova York. Para completar sua renda deu aulas e trabalhou acompanhando outros músicos e cantores. Eventualmente teve que deixar a escola por falta de dinheiro e acabou se mudando para a Filadélfia com sua família para estudar em uma escola mais barata.

O início da carreira

Para poder pagar por suas aulas começou a se apresentar em um clube, o Midtown Bar & Grill na Pacific Avenue em Atlantic City, Nova Jersey, cujo dono insistiu que ela cantasse, além de tocar o piano. Foi com as apresentações no bar que Nina expandiu seu vocabulário além da música clássica. Para agradar ao público ela começou a tocar e a improvisar sobre canções populares, criando um som bem próprio.

Em 1954 adotou o nome artístico de Nina Simone. Nina veio da palavra niña, um apelido que ela ganhou do namorado Chico e Simone veio da atriz francesa Simone Signoret, que ela viu no filme “Casque d’Or” de 1952. O pseudônimo foi criado porque Nina sabia que sua mãe evangélica não iria aprovar que a filha cantasse a “música do diabo”. Em pouco tempo ela criou uma base de fãs com sua mistura de música clássica, blues e jazz.

Primeiras gravações

Seu primeiro casamento veio em 1958, com um beatnik chamado Don Ross, algo de que ela logo veio a se arrepender. Em 1959 veio o primeiro LP, “Little Girl Blue”. O disco incluiu o seu primeiro e único single a chegar à parada americana, sua versão do clássico “I Loves You, Porgy”, música da ópera “Porgy & Bess” de George e Ira Gershwin.

Depois deste primeiro disco ela assinou contrato com o selo Colpix, lançando sete álbuns até 1963 com repertório extremamente variado que incluía jazz, blues, gospel, folk e algumas de suas composições, além de um disco dedicado à obra de Duke Ellington. Suas apresentações também se tornaram lendárias, transbordantes de paixão e entrega. Seu primeiro LP ao vivo foi “Nina Simone at Town Hall” em 1959, o primeiro de muitos lançados ao longo dos anos.

Em 1961 Nina se casou com um detetive policial de Nova York, Andrew Stroud. Mais tarde ele se tornou o seu empresário e pai de sua filha Lisa.

Ativismo político

1963 foi um ano chave para Nina Simone. Em 12 de junho houve o assassinato do ativista negro Medgar Evers. Em 15 de setembro Nina soube que quatro jovens garotas afro americanas haviam morrido quando alguém jogou dinamite na Igreja Batista da 16th Street em Birmingham, Alabama. As crianças estavam lá estudando a Bíblia. A comunidade negra se revoltou e saiu às ruas e à noite a polícia local acabou matando mais outros dois jovens negros.

Imediatamente após ouvir estes relatos Nina escreveu a canção “Mississippi Goddam”. Essa música foi composta por Nina em menos de uma hora, num acesso de fúria e determinação. Segunda a cantora foi a sua primeira canção voltada aos direitos civis.

A letra da música denuncia a inutilidade da ideia de que os negros deveriam aguardar passivamente até que as relações entre negros e brancos se equilibrassem naturalmente.

“Tudo o que quero é igualdade
Para a minha irmã, meu irmão, meu povo e para mim.
Sim, você mentiu para mim por todos estes anos
Você me disse para lavar e limpar meus ouvidos
E falar de maneira fina, como uma verdadeira dama
E você pararia de me chamar de irmã Sadie,

Mas o país inteiro está cheio de mentiras
Todos vocês vão morrer e morrer como moscas
Eu não acredito em mais ninguém
Vocês continuam dizendo: “vai devagar”.”

“Mississippi Goddam” foi a música que encerrava o LP “Nina Simone In Concert”, lançado em 1964, seu primeiro disco pela gravadora Philips. Outras músicas do disco que sustentavam este tom político eram “Pirate Jenny”, de Kurt Weill e Bertold Brecht, da ópera “Ópera dos Três Vinténs” e “Old Jim Crow”, que criticava as antigas leis de segregação racial dos estados do Sul dos Estados Unidos.

Movimento dos direitos civis

Esta nova faceta de ativista política de Nina Simone foi influenciada pela sua proximidade com nomes importantes da cultura da época como a cantora sul africana Miriam Makeba, os escritores Lorraine Hansberry, James Baldwin e Langston Hughes e a cantora de jazz e atriz americana Abbey Lincoln.

Lorraine Hansberry foi a primeira escritora negra a ter uma peça de sucesso na Broadway (“Raisin In The Sun”, 1958) e a responsável pela educação política de Nina. Segundo seu relato na autobiografia “I Put a Spell On You – The Nina Simone Autobiography”, quando as duas se encontravam os temas das conversas não eram de coisas banais como roupas ou homens, mas a política de Karl Marx, Vladimir Lenin e a revolução. Lorraine era uma verdadeira intelectual e via os direitos civis como apenas um capítulo de um todo maior, a luta de classes e a tomada do poder. Lorraine morreu muito jovem, de câncer aos 34 anos em 1965.

Antes de morrer Lorraine estava trabalhando em uma nova peça que se chamaria “To Be Young, Gifted And Black”. Nina pegou esse título e compôs uma canção que se tornaria um dos seus maiores sucessos em 1969 e um hino do movimento dos Direitos Civis. Essa música foi depois regravada por inúmeros artistas, dentre eles Donny Hathaway, Aretha Franklin e Meshell Ndegeocello.

Nina começou a escrever músicas de tom político após críticos de jazz terem censurado Abbey Lincoln por ter feito o mesmo. Abbey Lincoln foi a cantora no LP “We Insist!” (1960), de Max Roach, um disco de jazz de vanguarda temático, todo baseado no tema dos direitos civis.

Nina, como uma verdadeira revolucionária, pregava a revolução violenta e não acreditava na mudança pacífica de Martin Luther King. Ela tinha esperança de que os afro americanos pudessem usar o combate armado para fundar uma nação separada. Na ocasião em que Nina foi apresentada a Martin Luther King ela logo exclamou: “eu não sou não-violenta!”, ao que King respondeu: “sem problemas, irmã”.

Em 1966 Nina lançou o álbum “Wild Is The Wind”, que continha o single “Four Women”, uma música que causou muitas reações. A letra conta a história de quatro mulheres afro americanas bem diferentes, cada uma delas um estereótipo de uma camada da sociedade que carrega o fardo de um passado de escravidão e um presente de sofrimento.

A partir de 1967 Nina mudou mais uma vez de gravadora e foi para a RCA Victor. Dentre as músicas importantes deste período estão “Backlash Blues” (escrita pelo seu amigo Langston Hughes), “I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free” (no LP “Silk & Soul”, 1967, outro hino do movimento dos direitos civis) e “Turning Point” (também do “Silk & Soul”, uma música que questiona as origens do racismo).

O dia 4 de abril de 1968 trouxe o assassinato de Martin Luther King. Outras ofensivas contra os movimentos negros foram feitas pelo chamado COINTELPRO (programa de contrainteligência) promovido pelo FBI liderado pelo diretor J. Edgar Hoover. Organizações como o SNCC (Student Nonviolent Coordinating Committee) e especialmente os Panteras Negras (Black Panther Party) tiveram suas atividades praticamente extintas.

Tudo isso teve um impacto tremendo sobre Nina que concluiu que os dias em que a revolução poderia ter tido sucesso estavam agora no passado.

Anos 70 e 80

Os anos 70 começaram com a separação de Andrew Stroud. Foi o início de uma série de problemas financeiros e mesmo de ameaça de prisão (por falta de pagamentos de impostos como protesto contra o envolvimento do país na Guerra do Vietnã). Com os problemas econômicos vieram também os problemas psicológicos que afastaram até sua filha, Lisa, que foi morar com o pai.

Com a morte de seu pai, John Devan, os problemas com o fisco e mais a percepção que as gravadoras não tinham mais interesse em seu trabalho Nina resolveu deixar definitivamente os Estados Unidos. Com isso ela se tornou uma nômade, morando em inúmeros locais na Europa e África. Sua primeira parada foi na Libéria em 1972, convencida por sua amiga Miriam Makeba. Depois morou na Suíça, Holanda e França.

Em 1987 sua gravação de “My Baby Just Cares For Me” (gravada em 1959) foi usada em um comercial de perfume e se tornou um grande sucesso. Isso marcou uma volta do interesse do público em Nina, ocasionando uma grande procura por seus álbuns antigos.

Em 1992 publicou sua autobiografia, “I Put a Spell On You”, escrita em conjunto com Stephen Cleary. No ano seguinte lançou o seu último álbum de estúdio, “A Single Woman”.

Em 1995 Nina estava novamente nos noticiários depois que ela disparou uma arma em um dos seus vizinhos durante uma discussão. Ela foi diagnosticada com desordem bipolar, o que explicaria muito do comportamento errático dos seus últimos anos. Continuou se apresentando até 2002 quando descobriu que tinha câncer de mama.

Em vida Nina lançou mais de 50 álbuns, inúmeras coletâneas e singles. Ela perdeu a luta contra o câncer em 21 de abril de 2003 em Carry-le-Rouet, França. Suas cinzas foram espalhadas em vários países africanos.

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