– Era muito comum durante a infância ouvir o termo "bombril" ser usado para se referir aos cabelos crespos – afirma a publicitária Pâmela Machado, de 29 anos.

Relatos como o dela são comuns – o que explica a inflamada reação nas redes sociais. A convite de Donna, ela e outras duas mulheres negras deram seus relatos pessoais sobre o que já ouviram sobre seus cabelos e expuseram seus desconfortos e suas opiniões sobre a polêmica. E afirmam: é racismo, sim.

Confira:

"É triste ver que o teu cabelo é atribuído como ‘ruim’ e considerado feio"

"Hoje tenho orgulho do volume do meu cabelo e, acima de tudo, sou feliz assim!"Luana Daltro / Arquivo pessoal

"O cabelo crespo é um dos principais alvos de racismo que uma pessoa negra enfrenta na sociedade. Começa na infância, tanto nos ambientes familiares, quanto no escolar. Na minha infância, eu sempre quis ter um cabelo cacheado: aquele efeito do fio molinha mesmo, que era visto como o padrão aceitável de beleza. Mas o meu cabelo era volumoso, não tinha este aspecto. Passei a fazer relaxamento desde os setes anos, buscando diminuir a quantidade de cabelo, e permanente afro, para deixar o efeito do cacho perfeito. Eu conseguia alcançá-lo quando molhado, mas ao secar, nunca ficava como era vendido nos produtos, além de voltar a ficar volumoso. Lembro que as tranças sempre foram um mecanismo para deixá-los mais 'arrumados' e não cair na ditadura da chapinha. 

Este processo de usar produtos químicos percorreu toda a minha adolescência e eu só fui parar de utilizá-los quando umas mechas começaram a cair. É triste, sabe? Ver que o teu cabelo é atribuído como 'ruim' e considerado feio perante ao cabelo liso, que é visto como um sinônimo de beleza. 

No final, o que queremos é evitar mais sofrimento e buscamos nos enquadrar num padrão aceitável. Perceba o quanto é prejudicial para a autoestima de qualquer pessoa: se olhar no espelho e não se sentir bem. Por isso, sempre defendo que a naturalização do cabelo crespo é um processo que fala sobre a nossa expressão de liberdade corporal, enaltecimento da beleza negra e orgulho identitário. Hoje tenho orgulho do volume do meu cabelo e, acima de tudo, sou feliz assim!".

Luana Daltro (@ludaltro_), 26 anos, relações públicas

"Meu cabelo foi muito tocado sem minha permissão"

"Sofri um racismo mais velado, mas ao mesmo tempo bem violento"Rafael Bitencourt / Divulgação

"A gente precisa admitir que essa associação do cabelo da mulher negra, crespo ou cacheado, a esse tipo de produto é racismo. Desde sempre, o cabelo crespo foi visto como um cabelo sujo, feio, inadequado. Ficou popular chamar o cabelo crespo de 'bombril', e isso é racismo porque reproduz um estereótipo racista. O meu cabelo não é crespo, ele é cacheado, tem essa diferença. Então eu não sofri coisas muito violentas ao longo da minha da vida, com o meu cabelo. O que eu sofri foi uma tentativa de me embranquecerem. Com frases como 'ah, mas tu é moreninha', 'teu cabelo nem é tão de negro assim'. Mas ele é. 

E assim, esse racismo tem nuances, né? Sofri um racismo mais velado, mas ao mesmo tempo bem violento, principalmente porque eu era a única dos espaços em que eu frequentava. Eu era quase a única negra da escola, da turma, da rodinha dos amigos, então eu era a bola da vez. Mas mulheres negras que têm cabelo crespo de verdade sofrem bem mais com isso. Elas têm seus cabelos tocados sem permissão. O meu cabelo também foi muito tocado sem a minha permissão. 

No racismo tem isso, de que o corpo das pessoas negras, sobretudo das mulheres, é um corpo público, então todo mundo pode tocar. Com o cabelo também, todo mundo pode tocar, pode zombar, pode fazer piada racista e está tudo bem. Em 2020, é absurdo que a gente ainda tenha que ver isso, ainda mais quando o debate racial está fervendo."

Luana Carvalho (@lxccarvalho), 21 anos, influenciadora digital, criadora de conteúdo, ciberativista, idealizadora da campanha @carnavalsemgordofobia e militante no @coletivogordoridade

"É revoltante que as pessoas ainda não enxerguem o peso da agressividade que isso impõe "

"É revoltante que as pessoas ainda normalizem termos de cunho racista"Pâmela Machado / Arquivo pessoal

"Eu tenho privilégio pela passabilidade. Tenho um cabelo que forma cacho e a pele mais clara. Mas era muito comum durante a infância ouvir o termo 'bombril' ser usado para se referir aos crespos. Ou ouvir pessoas de cabelos lisos falarem que eles estavam parecendo os 'crespos de bombril'. Quando vi as imagens sobre o produto, fiquei em estado de negação. Não queria acreditar que estaríamos tendo que brigar para que uma marca enxergasse o quão racista e ofensivo é a carga desse nome atrelado ao tipo de produto. É revoltante que as pessoas ainda normalizem termos de cunho racista e não enxerguem o peso da agressividade que isso impõe – ou que pensem que estamos fazendo escândalo diante de uma palavra. Toda uma luta diária no processo de autoestima de pessoas negras para a gente ainda ter que mostrar o quão racista é atrelar características nossas a um produto de limpeza."