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Doutoranda em Antropologia Social, professora Jaqueline Conceição desenvolve ações que abordam a cultura antirracial

Autor: Janaína Laurindo Data da postagem: 12:00 03/08/2020 Visualizacões: 177
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Jaqueline é fundadora do Coletivo Di Jejê./Foto: Reprodução - NSC Total

Em 2020, iniciou o projeto para criação de uma faculdade que vai oferecer curso de graduação e pós-graduação para formar profissionais focados em pensar na questão racial

A professora Jaqueline Conceição é representatividade. Mulher negra, empreendedora e doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, ela se coloca como voz e cria espaço de fala para mulheres, negros, indígenas, pobres e marginalizados através da educação. A pedagoga, de 35 anos, nasceu em São Paulo, mas escolheu e foi escolhida por Florianópolis, em 2015, para fixar o projeto de vida. Fundou em 2014, o Instituto de Pesquisa sobre Questões Étnico Racial e de Gênero Coletivo Di Jejê, que está sediado na capital catarinense, mas com braços em outros estados e países.

A inquietação para o projeto surgiu após a finalização do mestrado em Educação; História, Política, Sociedade na PUC-SP e da percepção “da ausência de intelectuais negros na formação teórica, mesmo para pesquisadores que trabalham com a temática racial”. A plataforma de ensino desenvolvida por ela tem foco na educação antirracista e feminismo negro do Brasil, empodera e desenvolve potencialidades com cursos focados em pensadores contemporâneos como Angela Davis e Conceição Evaristo. Através dos mais de 100 cursos, o coletivo já formou mais de 8 mil alunos.

– O meu papel, é um papel histórico de uma professora que acredita e que defende que a educação vai nos salvar. A educação escolar, comunitária e familiar, é ela que vai nos ajudar a construir um novo amanhã – diz.

Em 2020, Jaqueline iniciou o projeto de um espaço de formação de nível superior focado no pensamento racial brasileiro e às questões emergentes do feminismo negro. O embrião do projeto pioneiro no país é o espaço chamado Casa Preta, que foi inaugurado em março deste ano, e que abriga cursos e encontros de formação sobre as temáticas que o Coletivo Di Jejê vem formulando desde 2014. A Casa Preta é um espaço de formação para professores, estudantes, pesquisadores, ativistas e pessoas interessadas em discutir e a pensar sobre essas questões.

Confira mais detalhes na entrevista a seguir:

Como nasceu o Coletivo Di Jejê?

Em 2014, eu tinha acabado de terminar o mestrado em Educação na PUC, em São Paulo, uma das coisas que observei foi a ausência de intelectuais negros na formação teórica, mesmo entre pesquisadores que trabalham com a temática racial. Havia muitos autores de fora e poucos brasileiros. Então o Di Jejê é para mim, e foi naquele momento, um espaço onde eu poderia falar da minha pesquisa e também aprofundar o meu conhecimento e minha formação teórica na produção dos intelectuais brasileiros. Começamos com cursos de Angela Davis e Lélia Gonzales. Até 2017 estive sozinha, ministrava curso, vendia, fazia parcerias... o trabalho de empreendedor no Brasil. Sem estrutura, sem investimento e sem conhecimento em empreendedorismo. Em 2017 contratei uma ex-aluna e agora em 2020 deixei de ser MEI e virei uma empresa. Agora estamos com duas professoras, e professores convidados que a cada mês dividem as pesquisas e trabalhos.

E como começou a trajetória de engajamento com essas causas?

Sou de um bairro da periferia de São Paulo, Brasilândia, que é fruto de uma ocupação. Meu avô veio da Bahia, migrou para São Paulo na época da seca dos anos 1960 e comprou um terreno nesse bairro, que fica no extremo Norte paulista. Toda a minha família materna tem engajamento na luta pelos movimentos sociais. No meu bairro, tudo que a gente conquistou foi resultado da mobilização comunitária. Quando tinha 10 anos eu já estava envolvida com as atividades do bairro, por área de lazer, escola, luz, saneamento. Isso no início dos anos 1990. Milito politicamente no movimento social de mulheres, crianças e de educação há 25 anos. 

Trabalhei com a educação popular minha vida profissional inteira. Já trabalhei com adolescente em regime de privação de liberdade, com família em situação de violência doméstica. O meu trabalho hoje no Di Jejê é também resultado dessa experiência com a educação crítica, que forma para uma consciência capaz de ter autonomia de pensamento, formar sujeitos que podem tomar as decisões a partir do que acham melhor para si e para sua comunidade.

O Di Jejê surgiu da inquietação em relação a representatividade, e esse termo tem um sentido político e ideológico. Como você enxerga as ações no Brasil e em Santa Catarina?

O Brasil é bem complexo para gente pensar na questão racial porque cada região tem um atravessador diferente, desde a forma como os descendentes africanos foram espalhados pelo país, a relação com os povos indígenas em cada território e como isso se deu. Aqui no Sul do país, o próprio processo, que historicamente é chamado de isogenia, da vinda dos imigrantes europeus para apagar a presença negra, formam essa ideia de um estado branco. Santa Catarina, por exemplo, é o estado que mais tem menção nazista no Brasil – oficialmente reconhecido pelos órgãos públicos – em parte pela colonização alemã, que infelizmente as pessoas associam ao nazismo e em parte por essa tentativa de embranquecimento. Isso é um fato histórico no Brasil, infelizmente. Aqui na cidade (Florianópolis), 13% da população é parda e negra, autodeclarada como preta, isso daria algo como 50 mil pessoas.

Muito do que a gente faz é compartilhar a memória do que a comunidade negra vem produzindo no Brasil e aqui. No nosso trabalho chamamos de educação antirracista, essa questão de pensar práticas educativas para contar essa história. Como é que a gente pensa em uma educação para a diversidade? Então uma parte do nosso trabalho é com escolas e empresas, de como elas podem criar esses mecanismos dentro desse espaço de fortalecimento, não só da presença, mas também do conhecimento sobre o que as pessoas negras fizeram pelo país, pelo estado e pela cidade. As vezes parece óbvio, mas infelizmente não é.

Com cursos focados em pensadores contemporâneos, como Angela Davis e Conceição Evaristo, o Di Jejê tem construído ao longo dos seis últimos anos um local para desenvolvimento psicopedagógico a preço acessível/Foto: Reprodução - NSC Total

E o que tem levado as empresas a buscarem por esse conhecimento?

Desde 2014, já passaram por nossos cursos mais de 8 mil pessoas, hoje em nossa plataforma on-line temos 1.390 pessoas e 90% são mulheres negras. Temos cerca de 7% de mulheres brancas e o restante são homens negros e pouquíssimos homens brancos. Muito do que essas mulheres negras vêm buscar é o conhecimento da história como forma de afirmar a identidade. O que percebo é que quanto maior é o nível de assédio racial mais as pessoas buscam por fortalecer a identidade. Na Alemanha, por exemplo, onde temos parcerias com alguns coletivos de mulheres negras brasileiras, que moram lá, o trabalho de fortalecimento da identidade afro-latina é, inclusive, estimulada pelo próprio estado, como forma de reconhecimento de pertencimento cultural.

Aqui também vejo isso, o movimento negro aqui da cidade é muito ativo em relação ao fazer e ao que se propõem. Temos no Estado uma política de educação Quilombola que é uma das políticas educacionais mais avançadas do país, isso é reflexo da luta do movimento negro daqui. Então, o que observo é que quanto mais “existe esse assédio racial, essa opressão e essa tentativa de silenciamento” mais combativo e organizado é o movimento negro para responder a isso.

Manifestações antirracistas ganharam destaque no mundo com a morte de George Floyd e aqui no Brasil algumas pessoas questionaram o porquê de um país que sofre ainda tanto com a questão do racismo, precisa de um recorte de fora para ganhar força. Como você enxerga isso?

Em parte tem a ver com o processo de formação que tira das pessoas negras a própria negritude. As pessoas negras do Brasil são educadas na escola, pela cultura, pelos programas de televisão e pela mídia de forma que elas não conheçam a história e a identidade racial. Não sabíamos, viemos descobrir a pouco tempo, que Machado de Assis era negro e foi embranquecido. Imagina a diferença que isso faz para uma criança negra que mora em um contexto de pobreza extrema, saber que um dos maiores escritores brasileiros foi negro, essa é a ideia de uma representatividade.

Demonstrações de racismo e falta de conhecimento acerca do tema, ganham força em SC

Por outro lado, a população branca também é educada para desconhecer a identidade negra do país. Sabemos do samba, da feijoada, do futebol, mas os outros elementos da contribuição africana – isso porque não estou falando dos indígenas, estou falando só dos negros – para formação da identidade cultural do Brasil é fundamental. A quantidade de pessoas negras que contribuiu historicamente para o crescimento e desenvolvimento do Brasil é muito grande, mas não aprendemos isso na escola e isso leva a esse apagamento.

E qual o papel da pessoa branca nessa luta antirracista?

As pessoas brancas precisam criar no Brasil formas de compartilhar os privilégios que elas têm, que é isso, a gente precisa na prática criar formas concretas de vida para que as pessoas possam ter autonomia. Só vamos mudar isso com duas coisas: a primeira delas é uma mudança estrutural significativa, inclusive na distribuição da riqueza. Nossos gestores públicos precisam começar a desenvolver um projeto de nação que inclua as pessoas pobres e miseráveis que são pretas e são indígenas, porque a pobreza no Brasil tem cor. Pensar nesse projeto é dar acesso a saneamento básico, a saúde, a educação, a trabalho digno, com salário digno – no tanto que nos EUA, a Marcha sobre Washington, que foi em 28 de agosto, agora será o aniversário dela, onde Luther King fez o discurso com a frase “I Have a Dream!”, um dos pilares centrais da marcha era trabalho digno, com salário digno – porque sem um bom salário, que permita que o trabalhador negro possa ter uma qualidade de vida é muito difícil pensar que pessoas que passam fome tenham capacidade de fazer grandes construções políticas, inclusive de mudar as coisas, a menos que seja uma revolta popular, como uma guerra.

A outra coisa é o Brasil entender que a estrutura racial é baseada na herança da escravidão, nesse regime aonde um grupo social formado por pessoas brancas controla a vida de cerca de 90% das pessoas, porque podemos dizer que pessoas brancas pobres também sofrem com isso, com a violência, com a miséria, com o descaso e com o abandono. Precisamos entender que o racismo no país é uma estrutura que vem da escravidão que não foi rompida, mesmo com a abolição ainda temos a mentalidade desse controle da vida do pobre que é negro e que a gente precisa criar um projeto de um Brasil aonde todo mundo possa fazer parte e se beneficiar da riqueza do país, que é muito rico.

E a educação entra como um papel fundamental nesse processo de mudança?

Passamos onze anos das nossas vidas na educação básica, privada ou pública, porque todo brasileiro que cursou universidade passou onze anos da vida entre 1° ano do ensino fundamental e o último ano do ensino médio. É quase metade da nossa vida. E se colocarmos mais a faculdade, mestrado e doutorado, é quase uma vida inteira estudando. Se a escola que é, principalmente para a classe pobre e trabalhadora, o local de formação não está preparado para formar para diversidade, estamos criando gerações descompromissadas e desconectadas com os problemas sociais. Precisamos resolver os nossos problemas históricos. Sou pedadoga por formação, e a escola na sociedade que vivemos hoje é o principal local para se formar consciência crítica e pessoas engajadas com os problemas sociais.

Vocês iniciaram em 2020 um embrião do primeiro espaço de formação de nível superior focado no pensamento racial brasileiro e às questões emergentes do feminismo negro do país. Como está sendo a germinação deste novo projeto?

Por entender que é no processo da formação que a gente consegue pensar nesse projeto de nação, então precisamos ir formando pessoas para que seja possível construir essa possibilidade. Estamos desenhando, é um longo processo, no Brasil são de dois a quatro anos para você conseguir credenciar e reconhecer o curso de uma faculdade junto ao MEC, agora estamos na fase de construção. Esperamos que tudo esteja finalizado em 2023.

Estamos construindo uma faculdade que vai oferecer curso de graduação e pós-graduação, para formação de profissionais focados em pensar na questão racial, porque em todas as áreas a questão da racialidade vai aparecer. Quando você pensa em direito, além das próprias leis do racismo — como é para um juiz ter que trabalhar com a questão da família Quilombola?

Quando ele pega um caso assim, ele precisa entender como funciona. É um projeto pioneiro, vai ser a primeira instituição de ensino superior que estamos chamando de afro referenciada, porque vai se basear na produção intelectual da comunidade negra, aquilo que os intelectuais negros estão pedindo há anos, e que por conta do racismo não foi ainda possível. Será aberta, assim como nossos cursos, a qualquer pessoa que tenha o interesse de aprofundar os conhecimentos na questão étnico racial. O projeto da faculdade já foi plantado, que é Casa Preta, que iniciamos em março deste ano.

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