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O legado do best-seller “Quarto de Despejo” na vida das mulheres negras

Autor: Jéssica Ferreira Data da postagem: 13:28 15/09/2020 Visualizacões: 62
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A escritora Carolina Maria de Jesus com o livro que acaba de completar 60 anos de sua publicação/Reprodução: Uol

De Sacramento, município de Minas Gerais, onde nasceu em 1914, à Favela do Canindé, na zona Norte de São Paulo, Carolina Maria de Jesus muito alimentou o sonho de viver numa "casa residível", de tijolos, em alvenaria, com banheiro, cozinha, copa. Chegou a registrar em seu diário o sonho de estar sentada diante de uma mesa, com toalha "alva ao lírio" e mais de um bife à disposição, além de pão com manteiga, batata frita e salada. Ela conseguiu a moradia digna. E foi por meio da escrita; o que por si só, foi algo revolucionário para uma mulher negra, ex-catadora de papel, no Brasil dos anos 1960. Mas não apenas.

Em meio ao excludente processo de urbanização, a escritora e compositora ousou escancarar, pela primeira vez, o olhar "de dentro" dos que viviam à margem do que chamavam de modernização. Os 60 anos de publicação de sua obra mais famosa, "Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada", mostram que o livro segue em sua missão disruptiva: dar coragem a outras tantas Carolinas, espalhadas por milhares de periferias do Brasil, a fazer de seu cotidiano arte e denúncia.

"Quarto de Despejo" –que além do formato em diário se transformou em peças teatrais, poemas, cartas, composições musicais, quadros, fotos, ilustrações e até provérbios– é fonte para milhares de construções artísticas coletivas, individuais e manifestações variadas das vozes das quebradas. Carolina Maria de Jesus, por sua vez, dá nome a cursinhos, teatros, saraus, coletivos de literatura e jornalismo. Sua importância é revivida, obviamente, por várias gerações de escritoras negras brasileiras.

Ilustração da artista plástica Isabela Alves (@afrobela_) sobre foto com Carolina Maria de Jesus e a atriz Ruth de Souza, que interpretou a escritora no teatro, na Favela do Canindé: inspiração de artistas para negras de diferentes gerações/Reprodução:  Uol

Em homenagem a esse legado, 210 mulheres negras participaram, de maneira remota, do processo formativo "Uma revolução chamada Carolina", que acaba de ser concluído. A atividade é parte da FLUP – A Festa Literária das Periferias, festival carioca que desde 2012 reúne artistas e escritores do mundo inteiro para dialogar sobre a potência da literatura nas periferias.

Ao longo de 14 semanas, painéis on-line reuniram escritoras e escritores, majoritariamente pretos. Entre os debates houve a revisão das críticas elitistas sob as produções de Carolina e ressaltou-se a importância de se multiplicar as narrativas e produções artísticas sufocadas pelo racismo, sexismo e questões de classe.

 
 
 
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De Maio a Agosto, realizamos algo ine?dito na histo?ria da Flup: um ciclo de debates totalmente virtual. Pra quem estava acostumade a nos frequentar pelo Centro da Cidade, aglomerar na Casa Porto pra ver o Slam Nacional, ou ate? subir o morro pra ver alguns dos nossos paine?is (so? os old school sabem), esse formato causou estranheza. Sentimos falta do contato humano, mas o contexto foi fundamental para que alcanc?a?ssemos uma galera fora do Rio! Com certeza, um marco na vida da Festa Litera?ria das Periferias. ???????? ????????? “Uma revoluc?a?o chamada Carolina” contou com 15 lives em homenagem a Carolina Maria de Jesus e sua escrita atemporal. De bo?nus, tambe?m realizamos o painel “Um ano de saudade”, marcando um ano desde que Ecio Salles, um dos fundadores da Flup, nos deixou. Ao todo, cinquenta e duas ilustres presenc?as passaram pelos debates e enriqueceram nossas noites de terc?a. A Flup agradece imensamente o tempo, carinho e aprendizado trocado durante o ciclo. #aulas ????????? Como ja? e? de costume na nossa Festa, os debates foram construi?dos, em sua maioria, por pessoas negras - com excec?a?o da homenagem ao Ecio. Afinal, na?o ha? como falar de Carolina sem ter ge?nero e rac?a como referencial. Quando pautamos Carolina Maria de Jesus como escritora, falando sobre sua vida e a ressignificac?a?o de sua memo?ria, e? urgente chamarmos outres intelectuais, historiadores, poli?ticos, professores e jornalistas negres para o centro da discussa?o. ????????? A revoluc?a?o tambe?m na?o seria possi?vel sem o apoio de quem corre junto com a gente! Aos mais de 4.900 espectadores que colaram durante as lives, nosso muito obrigade. Tambe?m agradecemos a galera que na?o po?de ver ao vivo, mas que fortaleceu bastante depois: tivemos cerca de 55.700 visualizac?o?es ???? de fato, um pu?blico sagaz que nos ouvia e replicava o que fazi?amos pelo mundo. ????????? Apesar do triste tom, digo que ainda na?o viram tudo o que a Flup planejou para o ano de 2020. Nos adaptamos como bons cariocas que somos, e contamos com o apoio de voce?s pra que sigamos juntes. Vem muita coisa boa por ai?! ???? ????????? #FlupDigital #Flup2020

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A escritora Heleine Fernandes, de 35 anos, doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi uma das participantes da formação. Ela conta que o epistemicídio, termo que define o apagamento intelectual das contribuições africanas e indígenas, dificulta o reconhecimento da grandeza literária da obra de Carolina Maria de Jesus. "Ela trabalhou literariamente muito bem o 'pretuguês', ou seja, esse português afro-diaspórico, enriquecido pela sintaxe e vocabulário de línguas africanas", explica Heleine, que faz referência ao termo cunhado por outra intelectual e educadora, e também antropóloga negra brasileira, Lélia Gonzales (1935-1994).

Dificuldade para apreciar o 'pretuguês ou racismo linguístico?

Quarto de Despejo vendeu 100 mil cópias ainda na década de 1960, ultrapassando na época as vendas de escritores como Clarice Lispector (1920 – 1977) e Jorge Amado (1912 – 2001), seus contemporâneos. A obra, no entanto, sempre causou incômodo na elite acadêmica e intelectual.

Doutora em literatura e escritora, Heleine Fernandes, nasceu e foi criada na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Além do "mutirão familiar" para apoiar seus estudos, ela teve como inspiração a obra "Quarto de Despejo" para superar momentos de dificuldade no elitizado mundo acadêmico/Reprodução:  Uol

"A oralidade é vista com muito preconceito. É curioso, porém, o reconhecimento do valor estético dessa característica na obra de Guimarães Rosa (1908 – 1967), por exemplo, cuja linguagem é resultado de uma coleta de fenômenos linguísticos presentes na fala de sertanejos da região do interior de Minas Gerais, mesmo Estado de origem de Carolina", cita Heleine.

"É adequado, então, falar em um racismo linguístico para entender este a dificuldade em apreciar o 'pretuguês'", pontua a especialista, cuja tese de doutorado trata de obras subestimadas de poetas negras. "É uma coragem que ri dos desencontros e desilusões sem entregar os pontos. E ainda nos ensina a sonhar"

Heleine se reconhece em Carolina. Reler "Quarto de despejo" sempre foi um estímulo nos momentos de dificuldades de sua vida acadêmica. "Esse livro me revolucionou em momentos diferentes da vida. Sempre me admirou a coragem dessa mulher em contar sua história de maneira tão crua e digna ao mesmo tempo!" Para a jovem escritora, a obra de Carolina também ensina a sonhar.

Além da casa em alvenaria, "Quarto de Despejo" mostra o desejo de Carolina de ver cada filho na escola, ter roupas novas e tranquilidade para escrever. Entre 1955 e 1960, mãe solo de três crianças, ela buscava no lixo sua sobrevivência. A fome presente, todos os dias, de maneira insistente, aparece no livro como um personagem dos relatos rabiscados em cadernos que fazia com capricho e dedicação. Mas Carolina, ainda assim, sonhava além.

Prólogo do caderno "Um Brasil para os brasileiros", do Instituto Moreira Salles, publicado postumamente no livro "Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus" (Foto: Arquivo Carolina Maria de Jesus / Acervo IMS)/Reprodução:  Uol

"Os sonhos são muito importantes para as populações exploradas, no Brasil basicamente os descendentes de africanos e indígenas, pois eles devolvem a perspectiva de futuro e a conexão com o passado e a ancestralidade. O sonho humaniza", diz Heleine, que já realizou alguns dos seus, como sair da favela e ter uma vida confortável para ler e se dedicar à escrita. "Sigo em busca de uma vida de escritora e a formação de uma biblioteca para meus filhos e netos."

Mas o sonho insurgente com o qual mais convive é o de transformar vidas de pessoas negras, periféricas e indígenas por meio da educação. "Sonharei com isso ao longo de toda minha vida, me faz lembrar de Carolina, que desejava empoderar seus pares através da escrita e da leitura, tendo total dimensão de que estes são instrumentos de poder", pontua a professora, que tem entre ex-alunos de pré-vestibulares populares bacharéis, mestres e doutores em universidades públicas.

"Carolina se tornou alguém da nossa família"

Para a jovem Fabiane Marques, de 17 anos, poeta e pesquisadora de Macaíba, cidade do Rio Grande do Norte, o sentimento de viver dentro de um quarto de despejo atravessa gerações de mulheres da sua família materna, que é da roça e vive da agricultura. "Aquilo era o limite, não existiam outras alternativas de vida para elas. Não existia um olhar para além do horizonte. Elas se sentiam isoladas, despejadas no aspecto de não poder sonhar em ter uma outra oportunidade a não ser a da vida no roçado e na máquina de costura", revela a garota, que fez parte do grupo de formação de escritoras negras.

A poeta Fabiane, de 17 anos, se questiona:"seria o quarto de desejo o roçado, a posição da mulher diante do homem, seu próprio corpo aprisionado em padrões, comportamentos ou sua voz silenciada?"/Reprodução:  Uol

Para a Fabiane, o livro de Carolina é um "grito" que se sobressai ao silêncio de vidas isoladas e esquecidas nas periferias. "O querer ser ouvida é o que torna o Quarto Do Despejo revolucionário", opina. Ela acredita que o livro é um impulso para mulheres negras de diferentes gerações. "Dividi o meu exemplar com a minha mãe e encontramos muitas semelhanças com nossas parentas. Carolina se tornou alguém da nossa família."

Mãe de Fabiane, Cristiane, lendo o livro dado pela filha. "Encontramos muitas semelhanças com nossas parentas", diz a jovem/Reprodução:  Uol

"Carolina e o Quarto de Despejo me tiraram da gaveta"

Aos 60 anos, Fátima Regina, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, conta que em seus sonhos a escritora Carolina Maria de Jesus é uma mestra, uma sábia, a griô, de um quilombo chamado favela. "Mas lá existem escolas, uma prefeitura funcionando, praças, calçadas, universidade, recolhimento de lixo, árvores frutíferas, hortas imensas." Nesse quilombo estaríamos protegidos do medo e da realidade que enfrentamos. "Carolina seria nossa professora, instrutora, pensadora."

Fátima é poeta, compositora, profissional da gastronomia e ativista social mas revela que foi um desafio assumir a própria intelectualidade, que a acompanha desde a infância. Filha do poeta e compositor Estanislau Farias, que tocava cavaquinho, participava de rodas de samba e escrevia enredos para escolas, a dificuldade é fruto do racismo. "Tudo o que eu sonhava acabava na gaveta. Carolina e o Quarto de Despejo me tiraram da gaveta".

Nascida em Bagé, interior do Estado, Fátima viveu a infância num quintal grande, com três casas, e enfrentava uma "pobreza normalizada", algo como ficar sem comer o suficiente por alguns dias. Se mudou ainda jovem para a capital em busca de uma vida melhor. "Carolina se tornou minha guia espiritual, um Aurélio [o dicionário]. Às vezes, tenho dúvidas sobre meu pertencimento enquanto mulher negra nesse espaço geográfico que habito. Aí leio de novo o livro, e de novo, e de novo, e ela me conforta", diz com um sorriso no rosto, animada.

A revelação constrasta com a energia e entusiasmo habituais de Fátima. Ela não é do tipo que desanima. Com um amigo, o ator Alex Pantera, há cerca de dois anos organiza o projeto "Geladeiroteca Bom Jesus 470", que oferece mais de 300 livros sem prazo de devolução no bairro mesmo nome no fim da linha do ônibus que atende a região.

 
 
 
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Geladeiroteca da Bonja 470

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Além da escrita, Fátima e Carolina também se encontram nas composições musicais. Assim como a autora de "Quarto de Despejo", Fátima adora samba e milongas. A autora lança seu primeiro livro, Mel e Dendê (editora Libretos), ainda neste ano. Cozinheira de mão cheia, entre um gole no chimarrão e um olho na panela, cantarola e escreve.

Carolina por sua vez, narra em seu diário de favelada do dia 13 de agosto a presença cotidiana dos textos ao lado do fogão: "Eu estava escrevendo, esperando o arroz secar. Guardei o ca­derno e fiquei girando, procurando o João." E assim detalha um episódio do best-seller, que registrou questões sociais que atravessam tempos.

O Brasil fragmentado e indiferente às condições precárias das favelas, cortiços, ocupações e periferias dos anos 1960 ainda não mudou. Mas a potência da narrativa autorizou e segue autorizando mulheres como Fátima a se "inscrever" no mundo da literatura.

E, assim, enquanto Fátima sonha com sua favela-quilombo de cidadania e diretos, em "Quarto de Despejo" Carolina na realidade revela um pesadelo infelizmente muito presente:

"21 de Maio – Passei uma noite horrivel. Sonhei que eu residia numa casa residivel, tinha banheiro, cozinha, copa e até quarto de criada. Eu ia festejar o aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu ia comprar-lhe umas panelinhas que há muito ela vive pedindo. Porque eu estava em condições de comprar. Sentei na mesa para comer. A toalha era alva ao lírio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife despertei. Que realidade amarga! Eu não residia na cidade. Estava na favela. Na lama, as margens do Tietê. E com 9 cruzeiros apenas. Não tenho açúcar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que eu tinha."

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